Fiquei olhando para aquela fotografia até as letras da mensagem começarem a perder o sentido diante dos meus olhos. Minha mãe estava sentada diante de uma mesa de madeira escura, usando a mesma bolsa bege que levava para compromissos importantes. Ao lado dela havia um homem de terno cinza, talvez cinquenta anos, cabelos curtos e óculos discretos. Mas era a pasta aberta entre os dois que me impedia de respirar normalmente. Na etiqueta branca, embora a imagem estivesse ligeiramente desfocada, eu conseguia ler: RAFAEL AUGUSTO MARTINS.
“Helena.”
Minha voz saiu quase como um sussurro.
A investigadora se aproximou.
Mostrei a mensagem.
Ela pegou meu celular sem tocar em nenhum outro comando.
“Não responda.”
“Quem é esse homem?”
“Você nunca o viu?”
“Não.”
Mariana observava da cama, assustada.
Helena ampliou a fotografia.
No canto inferior aparecia parte de um carimbo sobre um documento. Não dava para ler tudo, apenas algumas palavras: “instrumento particular” e uma data de aproximadamente cinco meses antes.
Cinco meses.
Mariana ainda estava grávida.
“Rafael”, ela disse de repente.
Olhei para minha esposa.
“Naquela época sua mãe não estava pedindo seus documentos?”
A lembrança veio imediatamente.
Sônia havia me telefonado dizendo que precisava de cópias do meu RG, CPF e comprovante de renda para “uma simulação bancária”. Ela insistia na história da casa. Eu enviei tudo pelo WhatsApp sem pensar duas vezes.
Senti vergonha da minha própria ingenuidade.
“Eu mandei.”
Mariana fechou os olhos.
Helena percebeu.
“Mandou o quê?”
“Meus documentos. Para minha mãe.”
A investigadora ficou séria.
“Então, a partir de agora, precisamos considerar que isso pode ir além das agressões contra sua esposa.”
Meu telefone vibrou novamente.
Outra mensagem.
Pergunte à Sônia por que ela precisava que Mariana fosse considerada incapaz.
Meu peito apertou.
Digitei impulsivamente:
Quem é você?
Helena segurou meu braço.
“Eu disse para não responder.”
Mas já tinha sido enviado.
Os três pontos apareceram na tela.
Depois desapareceram.
Nenhuma resposta.
Quase meia hora mais tarde, Lucas continuava sob observação e Mariana finalmente adormeceu depois de receber medicação. Helena pediu que eu fosse até uma sala reservada no corredor. Havia outro policial esperando.
“Encontramos sua irmã”, ela disse.
“Camila?”
“Ela saiu do hospital pouco depois de chegar.”
Eu nem sabia que Camila tinha vindo.
“Por quê?”
“Provavelmente percebeu que também seria interrogada.”
Helena colocou sobre a mesa uma folha impressa.
“Mas antes de sair, ela deixou o celular carregando numa tomada próxima à recepção.”
“Ela esqueceu?”
“Talvez.”
O jeito como Helena disse aquilo deixou claro que não acreditava.
“O aparelho está bloqueado. Não podemos simplesmente acessar o conteúdo sem autorização ou procedimento adequado. Porém, há algo visível na tela.”
Ela mostrou uma fotografia tirada por um policial.
Uma notificação de mensagem.
Mãe: APAGA OS VÍDEOS. TODOS.
Senti o maxilar endurecer.
“Mariana disse que Camila filmou.”
“Exatamente.”
Levantei-me.
“Quero falar com minha mãe.”
“Não é uma boa ideia.”
“Eu preciso olhar para ela.”
Helena me observou por alguns segundos.
“Então vai ser comigo presente.”
Sônia estava em outra área do hospital, acompanhada por um policial. Quando entrei, ela imediatamente se levantou.
“Rafael, finalmente. Você precisa acabar com essa loucura.”
Eu parei diante dela.
Durante trinta e quatro anos, aquela mulher tinha sido uma das pessoas que eu mais confiava no mundo.
Naquele momento, parecia uma desconhecida.
“Por que você desativou as gravações do monitor?”
O rosto dela permaneceu imóvel.
“Que gravações?”
“Não faz isso.”
“Rafael, eu estava tentando ajudar.”
“Você segurou Mariana pelos pulsos.”
“Porque ela estava histérica.”
“Ela tinha acabado de dar à luz!”
Minha voz ecoou pelo corredor.
Helena tocou meu ombro.
Baixei o tom.
“Você disse que queria me fazer acreditar que Mariana não servia para cuidar do Lucas.”
Finalmente alguma coisa rachou na expressão de Sônia.
Ela percebeu que tínhamos recuperado o vídeo.
“Você não entende.”
“Então explica.”
Minha mãe olhou para Helena.
Depois para mim.
“Tudo que fiz foi para proteger você.”
Quase ri.
“De quê?”
“Dela.”
“Mariana nunca fez nada contra mim.”
“Você não sabe tudo.”
A frase me atingiu.
“Então fala.”
Sônia apertou os lábios.
“Não aqui.”
“Não existe mais ‘não aqui’.”
Ela respirou profundamente.
“Mariana descobriu coisas que não deveria.”
O corredor pareceu ficar silencioso.
“Que coisas?”
Minha mãe não respondeu.
Helena imediatamente perguntou:
“Sobre a documentação?”
Sônia virou o rosto rápido demais.
Foi suficiente.
“Que documentação?”, insisti.
“Rafael, volte para sua esposa.”
“Que documentação?”
Ela permaneceu em silêncio.
Meu celular tocou.
Dessa vez era Camila.
Atendi imediatamente.
“Camila, onde você está?”
Do outro lado ouvi respiração acelerada.
“Rafa…”
“Volta para o hospital.”
“Eu não posso.”
“Você filmou o que aconteceu com Mariana?”
Silêncio.
“Camila?”
“Eu não sabia que a mãe ia chegar tão longe.”
Fechei os olhos.
“Então você sabia de alguma coisa.”
Ela começou a chorar.
“Ela disse que era só para assustar Mariana.”
“Assustar como?”
“Fazer ela ir embora.”
Meu sangue gelou.
“Por quê?”
Camila hesitou.
“Por causa da casa.”
Olhei para Sônia.
Minha mãe estava me observando.
“Que casa, Camila?”
“Não a casa que ela queria comprar.”
Outra pausa.
“A sua.”
Minha respiração travou.
Nossa casa havia sido comprada dois anos antes do casamento, com financiamento que eu ainda pagava.
“Do que você está falando?”
“A mãe dizia que, se você e Mariana continuassem juntos depois que o Lucas nascesse, tudo ficaria mais difícil.”
“Tudo o quê?”
Camila chorava agora.
“Ela fez uns documentos, Rafa. Eu não entendi no começo.”
“Que documentos?”
“Eu tenho fotos.”
Olhei para Helena.
Ela fez um gesto para que eu mantivesse Camila falando.
“Me manda.”
“Não pelo telefone.”
“Por quê?”
A resposta veio quase inaudível.
“Porque tem outra pessoa envolvida.”
Meu olhar foi automaticamente para a fotografia do homem desconhecido.
“Quem?”
Camila respirou fundo.
“Eu não sei o nome verdadeiro dele. A mãe chamava ele de doutor.”
“Camila, onde você está?”
“Na casa da tia Vera.”
“Fica aí.”
“Rafael…”
“O quê?”
“Tem uma coisa que você precisa saber antes de vir.”
A voz dela mudou.
O medo parecia verdadeiro.
“A mãe não queria só separar você da Mariana.”
Olhei para Sônia.
Pela primeira vez, ela parecia realmente apavorada.
“Então o que ela queria?”
Camila demorou alguns segundos para responder.
“Ela queria que você assinasse uma procuração.”
Meu coração bateu mais forte.
“Eu nunca assinei procuração nenhuma.”
“Assinou, sim.”
Fiquei imóvel.
“Não.”
“Você só não sabia que era uma procuração.”
Sônia levantou-se abruptamente.
“Desliga esse telefone!”
O policial imediatamente se colocou entre nós.
Camila ouviu a voz dela.
“Ela está aí?”
“Está.”
“Então não deixa ela sair.”
“Por quê?”
Ouvi papéis sendo mexidos do outro lado da ligação.
Depois Camila disse algo que fez até Helena mudar de expressão.
“Porque eu encontrei a cópia do documento.”
“E?”
“Rafa... a assinatura é sua.”
Minha mão começou a tremer.
“Para que serve a procuração?”
Camila respirou fundo.
“Para vender a sua casa.”
Antes que eu conseguisse responder, ouvi uma porta bater do outro lado da chamada.
Camila ficou em silêncio.
“Camila?”
Nenhuma resposta.
“Camila!”
Então ouvi a voz de um homem ao fundo.
Baixa.
Calma.
A mesma voz que, segundos depois, Helena reconheceu ao reproduzir o áudio recuperado do monitor.
Era o homem que havia falado com minha mãe naquela madrugada.
E a ligação caiu.







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