Li a mensagem de Camila três vezes. Na terceira, já não conseguia sentir direito os dedos segurando o telefone. Meu pai, Antônio Martins, tinha morrido onze anos antes, depois de um acidente numa rodovia no interior de São Paulo. Eu tinha vinte e três anos. Camila, dezessete. Sônia nos contou que o carro dele havia saído da pista durante uma viagem de trabalho e que o reconhecimento tinha sido difícil por causa das condições do acidente. Houve velório com caixão fechado. Houve certidão de óbito. Houve seguro. Houve meses em que minha mãe mal saía do quarto.
“Rafael?”, Mariana chamou.
“Isso não faz sentido.”
Helena estendeu a mão.
“Posso ver a mensagem?”
Mostrei.
Ela leu sem demonstrar surpresa, mas seus olhos imediatamente foram para a chave.
“Agora ela pode estar relacionada à investigação.”
Fechei os dedos ao redor do metal.
“Camila pediu para não entregar.”
“Camila acabou de sair voluntariamente com um homem possivelmente envolvido numa fraude contra você.”
“Ou está tentando me contar alguma coisa.”
“Também é possível.”
Helena não tentou arrancar a chave da minha mão.
“Mas não vá procurar o 317 sozinho.”
“Nem sei onde fica.”
Mariana falou:
“Talvez eu saiba como descobrir.”
Nós dois olhamos para ela.
“Sônia mencionou um lugar naquela discussão com Camila.”
“Que lugar?”
“Estação.”
Helena franziu a testa.
“Estação de trem?”
“Não sei. Ela só disse: ‘Você não devia ter ido à estação’.”
Peguei o celular e pesquisei automaticamente, mas dezenas de resultados apareceram. Então uma lembrança antiga surgiu.
Meu pai costumava guardar ferramentas e documentos num box alugado perto de uma antiga estação ferroviária desativada, na cidade onde ele tinha uma pequena oficina antes de morrer.
“Existe um guarda-volumes particular perto da antiga estação”, falei. “Ou existia.”
Helena anotou o endereço.
“Vamos verificar.”
“Eu vou.”
“Rafael…”
“Se isso envolve meu pai, eu vou.”
Mariana apertou minha mão.
“Vai com ela.”
Olhei para minha esposa.
“Eu não quero deixar vocês de novo.”
“Você não está me deixando.”
A diferença daquela frase para o pedido desesperado que ela fizera quatro dias antes quase me destruiu.
“Lucas e eu estamos seguros aqui. Descobre o que sua mãe estava escondendo.”
Quarenta minutos depois, eu estava no banco traseiro de uma viatura descaracterizada ao lado de Helena. Outro investigador nos acompanhava. A chuva fina deixava as ruas brilhantes e, durante todo o trajeto, eu pensava no velório do meu pai.
Minha mãe não permitira que eu visse o corpo.
“É melhor lembrar dele como era”, dissera.
Na época, pareceu amor.
Agora tudo parecia suspeito.
O antigo depósito ainda existia. O proprietário, um senhor chamado Osvaldo, confirmou que havia armários numerados nos fundos.
Quando Helena mostrou uma fotografia de Sônia, ele reconheceu imediatamente.
“Ela vem aqui.”
Meu coração acelerou.
“Com que frequência?”
“De vez em quando.”
“Há quanto tempo?”
Osvaldo pensou.
“Anos.”
“E o armário 317?”
Ele olhou para mim.
“Está no nome de Antônio Martins.”
O chão pareceu desaparecer.
“Meu pai morreu há onze anos.”
Osvaldo ficou desconfortável.
“Eu sei.”
“Então por que o contrato continua ativo?”
“Porque alguém paga.”
“Quem?”
“Dinheiro. Sempre adiantado.”
Helena assumiu a conversa.
“Quem faz os pagamentos?”
“Às vezes uma mulher. Às vezes um homem.”
“Esse?”
Mostrou a fotografia recebida por mensagem.
Osvaldo assentiu.
“Já vi ele.”
Fomos até os fundos.
O corredor era estreito, iluminado por lâmpadas brancas. Os números aumentavam enquanto caminhávamos.
Então 317.
Minha mão tremia tanto que Helena precisou pedir duas vezes para eu tentar a chave.
Ela entrou perfeitamente.
Dentro havia três caixas, uma mala pequena e um envelope amarelado com meu nome.
Para Rafael.
Reconheci a letra imediatamente.
Era do meu pai.
Sentei no chão.
Abri o envelope.
A carta começava com uma data.
Doze dias antes do suposto acidente.
“Filho, se você estiver lendo isso, significa que eu não consegui resolver as coisas sozinho.”
Parei.
Helena permaneceu alguns passos atrás.
Continuei.
Meu pai dizia ter descoberto irregularidades financeiras relacionadas a uma pequena empresa que mantinha com um sócio. Dinheiro havia desaparecido. Documentos tinham sido assinados em nome dele. E alguém próximo estava fornecendo informações pessoais ao sócio.
Não havia nome.
Até a última página.
“Se alguma coisa acontecer comigo, não aceite nenhuma explicação sem falar com Marcelo.”
Marcelo.
“Quem é?”, Helena perguntou.
“Não sei.”
Procuramos nas caixas.
Havia contratos, extratos bancários antigos, fotografias e uma agenda.
Então encontrei algo pior.
Uma cópia da certidão de óbito do meu pai.
E, atrás dela, um documento emitido seis meses depois da data da morte.
Uma procuração.
Outorgante:
Antônio Martins.
Assinatura reconhecida em cartório.
Se fosse verdadeira, meu pai tinha assinado um documento seis meses depois de morrer.
“Isso pode ser falsificação”, Helena alertou.
“Ou ele não morreu.”
No fundo da mala havia fotografias.
A primeira mostrava meu pai numa oficina.
A segunda, numa praça.
Na terceira havia uma data escrita atrás.
Oito meses depois do acidente.
Meu coração disparou.
“Meu Deus.”
Ele parecia mais magro, com barba, mas era ele.
Ao lado dele estava o homem de terno cinza.
O mesmo homem da fotografia com minha mãe.
Helena pegou a imagem.
“Então eles se conheciam.”
Foi quando ouvimos Osvaldo chamar do corredor.
“Doutora?”
Helena abriu a porta.
“Tem alguém querendo falar com o rapaz.”
“Quem?”
O velho parecia assustado.
“Disse que se chama Marcelo.”
Meu coração parou.
Saí para o corredor.
Um homem de aproximadamente sessenta anos estava perto da entrada, encharcado pela chuva. Ele me observou durante alguns segundos.
Então seus olhos ficaram marejados.
“Você está igual ao Antônio.”
Eu não conseguia falar.
“Você conheceu meu pai?”
“Conheci.”
“Ele morreu?”
Marcelo fechou os olhos.
Quando tornou a abri-los, havia culpa em seu rosto.
“Não naquele acidente.”
Minha garganta secou.
“Então onde ele está?”
Marcelo olhou para Helena.
“Antes de responder, preciso saber se Sônia foi presa.”
“Neste momento está sendo investigada.”
Ele balançou a cabeça.
“Então vocês ainda não entenderam.”
“Entendemos o quê?”
“Por que ela fez tudo isso.”
Meu telefone vibrou.
Era Mariana.
Atendi imediatamente.
“Rafael.”
A voz dela estava estranha.
“Estou aqui.”
“Alguém acabou de deixar uma coisa na recepção para você.”
“Quem?”
“Não sabem. Uma mulher entregou e foi embora.”
“O que é?”
Mariana respirou fundo.
“Uma caixa.”
“Não abre.”
“Já abriram por segurança.”
Silêncio.
“Mariana, o que tem dentro?”
“Uma fotografia recente.”
Olhei para Marcelo.
“De quem?”
Quando Mariana respondeu, senti minhas pernas enfraquecerem.
“Do seu pai.”
Marcelo fechou os olhos antes mesmo que eu repetisse a resposta.
E isso me disse tudo.
Ele sabia.
“Marcelo.”
Minha voz saiu baixa.
“Meu pai está vivo?”
Ele me encarou.
“Está.”
Meu peito apertou.
“Então me leva até ele.”
Marcelo não respondeu imediatamente.
Apenas olhou para o armário 317 aberto atrás de mim.
“Eu levaria.”
“Levaria?”
“Se soubesse onde ele está agora.”
O corredor ficou silencioso.
“Ele desapareceu há três dias”, continuou.
Exatamente no dia em que eu tinha viajado.
“E antes de desaparecer, Antônio me ligou.”
Marcelo colocou a mão dentro do casaco e retirou um envelope lacrado.
Na frente estava escrito meu nome.
“Seu pai me pediu para entregar isso somente se alguma coisa acontecesse com Mariana.”
Minha respiração parou.
“Como ele sabia que alguma coisa aconteceria com ela?”
Marcelo me entregou o envelope.
“Porque foi ele quem descobriu o que Sônia estava planejando.”
Virei o envelope.
No verso havia apenas uma frase escrita pela mão do meu pai:
Rafael, se você chegou até aqui, não confie em ninguém que diga que minha morte foi ideia da sua mãe. A verdade é pior.







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