Camila pediu para falar comigo antes mesmo de ser colocada na viatura.
Não com a investigadora.
Não com o advogado de plantão.
Comigo.
Quando cheguei à sala reservada da delegacia, ela estava sentada sozinha diante de uma mesa de metal, sem joias, sem maquiagem impecável, sem aquele sorriso superior que usara quando abriu a porta da casa da minha mãe.
Parecia dez anos mais velha.
A investigadora entrou comigo e deixou claro desde o início:
— A senhora não é obrigada a falar. E qualquer declaração formal será registrada.
Camila assentiu.
Então olhou diretamente para mim.
— Juliano não vai parar.
Não respondi.
Ela passou as mãos pelos braços, como se estivesse com frio.
— Você acha que tudo isso começou por causa da herança.
— Não acho nada — falei. — Estou esperando você me dizer a verdade.
Ela soltou uma risada amarga.
— Claro. A promotora perfeita.
Minha expressão não mudou.
— Você sabia dos hematomas da minha mãe.
O rosto dela caiu.
— Sim.
— Sabia que Juliano a amarrava.
Silêncio.
— Sim.
— E bateu nela quando ela se recusou a assinar documentos.
Camila baixou os olhos.
Por alguns segundos, ouvi apenas o zumbido da lâmpada no teto.
— Sim — disse finalmente.
A palavra me atingiu mais forte do que eu esperava.
Eu já conhecia a verdade.
Tinha visto as marcas.
Tinha ouvido minha mãe.
Mas ouvir Camila admitir aquilo tornou tudo ainda mais concreto.
— Por quê?
Ela levantou a cabeça.
Os olhos estavam vermelhos.
— Porque eu estava apavorada.
Minha mandíbula se contraiu.
— Isso não apaga o que você fez.
— Eu sei.
— Minha mãe implorou para vocês pararem.
— Eu sei.
— Então não use medo para transformar crueldade em inocência.
Camila fechou os olhos.
— Eu não estou pedindo inocência.
Aquilo me fez permanecer em silêncio.
Ela respirou fundo.
— Estou tentando continuar viva.
A investigadora se inclinou ligeiramente para a frente.
— Explique.
Camila olhou para a porta, como se ainda esperasse que Juliano pudesse atravessá-la a qualquer momento.
— Há quase um ano ele descobriu que o pai de vocês tinha deixado alguma coisa escondida. Não sabia exatamente o quê. Só sabia que existiam documentos que poderiam acabar com ele.
— Como descobriu?
— Encontrou uma referência nos papéis antigos da sua mãe. Uma correspondência entre seu pai e um advogado. A partir daí, ficou obcecado.
Ela engoliu em seco.
— Foi por isso que vendeu a casa da represa. Ele dizia que precisava esvaziar tudo antes que você aparecesse e começasse a fazer perguntas.
Minha mão se fechou devagar sobre a mesa.
— E você ajudou.
— No começo, sim.
— No começo?
Camila assentiu.
— Eu acreditava que Juliano só queria garantir que o patrimônio ficasse na família. Ele me dizia que sua mãe estava perdendo a memória, que você não se importava, que alguém precisava assumir o controle antes que ela entregasse tudo para estranhos.
A história era exatamente a mesma que ele vinha contando para todos.
— Quando percebeu que era mentira?
Camila demorou a responder.
— Quando encontrei as cordas.
A sala ficou em silêncio.
— Eu voltei para casa mais cedo uma tarde. Sua mãe estava presa à cama.
Meu peito apertou.
— E o que você fez?
Camila começou a chorar.
— Soltei ela.
— E depois?
— Juliano chegou.
Ela ergueu a manga da blusa.
Havia uma pequena marca clara perto do cotovelo.
— Ele me empurrou contra a parede e disse que, se eu interferisse de novo, eu perderia tudo.
Eu não senti pena.
Ainda não.
Talvez nunca sentisse.
Mas comecei a compreender a estrutura daquilo.
Juliano não controlava apenas nossa mãe.
Controlava Camila também.
— Mesmo assim, você continuou — falei.
— Sim.
Sua voz saiu quebrada.
— E isso é culpa minha. Eu sabia que estava errado. Só fui ficando cada vez mais presa.
A investigadora falou:
— Conte sobre o cofre.
Camila ficou imóvel.
— Foi lá que tudo mudou.
Ela explicou que, nove dias antes, Juliano a mandara ao box para procurar uma pasta específica entre os documentos do meu pai.
Ele estava convencido de que havia uma carta revelando onde estavam provas antigas de seus desvios.
Camila encontrou o envelope antes dele.
Leu a carta.
E percebeu que meu pai já sabia exatamente quem Juliano era.
— Eu também vi os documentos financeiros — disse ela. — Extratos antigos, transferências, empresas que eu nunca tinha ouvido falar.
— Empresas? — perguntei.
Ela assentiu.
— Algumas existiam só no papel.
A investigadora começou a fazer anotações.
— Nomes.
Camila recitou três.
Nenhum me era familiar.
— O dinheiro da sua mãe não foi simplesmente colocado na conta de Juliano — continuou. — Ele fazia transferências menores, passava por empresas e depois mandava para outras contas.
Meu estômago se contraiu.
Isso explicava a confiança dele.
Se estivesse apenas roubando diretamente, seria simples demais seguir o rastro.
— Quanto?
— Não sei exatamente.
— Estimativa.
Camila me encarou.
— Muito mais do que você encontrou até agora.
— Quanto, Camila?
Ela sussurrou:
— Talvez alguns milhões.
A investigadora parou de escrever.
— E você consegue provar isso?
Camila assentiu lentamente.
— Existe um caderno.
Juliano mantinha um caderno físico porque não confiava em registros digitais para certas movimentações.
Datas.
Valores.
Contas.
Nomes.
Ele chamava aquilo de “controle paralelo”.
— Onde está?
Camila mordeu o lábio.
— Não estava no box quando vocês chegaram?
— Não.
O medo retornou imediatamente ao rosto dela.
— Então ele tirou de lá.
— Quando?
— Eu não sei.
Pensei nos registros de acesso.
Dezessete entradas em dois meses.
Precisávamos cruzar cada uma delas com as câmeras.
— Onde mais ele esconderia?
Camila hesitou.
— Na casa.
— Já estamos fazendo busca.
Ela balançou a cabeça.
— Não. Não naquela casa.
Meu corpo ficou rígido.
— Onde?
Camila me encarou.
— Na casa da represa.
— Ela foi vendida.
— Oficialmente.
A palavra ficou suspensa no ar.
A investigadora levantou a cabeça.
— Explique.
Camila passou a mão pelo rosto.
— Juliano disse à sua mãe que havia vendido a casa para um casal de São Paulo.
— E não vendeu?
— Houve venda.
— Então?
— O comprador foi uma empresa.
O silêncio pesou.
— Qual empresa? — perguntei.
Camila disse um dos três nomes que acabara de mencionar.
Minha respiração parou por um instante.
— Você está dizendo que Juliano vendeu a propriedade da minha mãe para uma empresa que ele próprio controlava?
— Indiretamente.
A investigadora soltou o ar devagar.
Se aquilo fosse comprovado, a fraude patrimonial era muito maior do que imaginávamos.
— Ele ainda tem acesso à casa? — perguntei.
Camila assentiu.
— Uma chave.
Eu me lembrei de algo.
Durante anos, meu pai mantivera um pequeno escritório naquela propriedade.
Um cômodo que quase ninguém usava.
Quando éramos crianças, Juliano e eu éramos proibidos de entrar.
Meu pai dizia que ali guardava “coisas que não podiam ser perdidas”.
— O escritório — falei.
Camila me olhou surpresa.
— Você sabe?
Levantei-me.
— Sei onde devemos procurar.
A investigadora também se levantou.
Mas, antes que chegássemos à porta, Camila falou:
— Helena.
Parei.
— Se encontrarem o caderno, não olhem apenas para as transferências da sua mãe.
Voltei-me lentamente.
— O que quer dizer?
Ela estava chorando outra vez.
— Juliano tinha outros nomes.
— Que nomes?
— Pessoas idosas.
A investigadora ficou completamente imóvel.
— Quantas?
Camila respondeu quase sem voz:
— Pelo menos quatro.
Meu sangue gelou.
— O que ele fez com elas?
— Eu não sei tudo.
Ela apertou as mãos.
— Mas sei que sua mãe talvez não tenha sido a primeira.
Naquele instante, aquilo deixou de ser apenas uma história sobre a destruição da minha família.
Se Camila estivesse dizendo a verdade, Juliano não havia criado um esquema para roubar apenas nossa mãe.
Ele havia aperfeiçoado um método.
E talvez existissem outras famílias que ainda nem soubessem que tinham sido vítimas.
Continua — toque na Parte 6 para continuar lendo.







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