Entretenimento

Voltei para o aniversário da minha mãe de 78 anos — quando tirei seu casaco, descobri o que meu irmão fazia a portas fechadas

A casa da represa parecia menor do que eu lembrava.

Talvez porque, na infância, aquele lugar tivesse representado liberdade.

Agora parecia apenas uma cena de crime esperando para ser aberta.

Chegamos pouco depois do amanhecer, acompanhados por dois investigadores e uma equipe responsável por cumprir a ordem de busca. O portão estava trancado, mas os documentos obtidos durante a madrugada já eram suficientes para autorizar a entrada.

A placa com o nome da empresa compradora ainda estava presa ao lado da garagem.

Uma das três empresas citadas por Camila.

Fiquei olhando para aquilo por alguns segundos.

Minha mãe acreditava ter perdido aquela casa.

Na verdade, Juliano simplesmente a havia deslocado de uma mão para outra.

Do patrimônio dela para uma estrutura que ele controlava.


— Tudo será documentado antes de qualquer coisa ser tocada — avisou a investigadora.

Assenti.

Eu conhecia aquele procedimento.

Mas conhecer profissionalmente era diferente de observar a própria história familiar sendo lacrada em sacos de prova.

Entramos.

O cheiro de madeira antiga ainda era o mesmo.

Os móveis principais haviam desaparecido, mas alguns objetos menores continuavam exatamente onde estavam anos antes.

A fotografia do meu pai perto da janela.

Um relógio parado na parede.

Uma pequena marca de lápis no batente da cozinha mostrando minha altura aos doze anos.


Por um instante, precisei desviar os olhos.

— O escritório fica no fundo — falei.

Seguimos pelo corredor.

A porta estava fechada.

A fechadura, diferente daquela que eu lembrava.

Nova.

Um perito fotografou tudo antes de abri-la.

Quando a porta cedeu, encontramos um cômodo quase vazio.

Mesa.

Estante.


Um armário de metal.

Nada de caderno.

A investigadora começou a examinar o espaço.

— Juliano saberia que este seria o primeiro lugar que alguém procuraria?

— Se soubesse que Camila falou, sim.

Passei os olhos pelas paredes.

Meu pai era metódico.

Quando éramos crianças, ele escondia documentos importantes em lugares absurdamente simples porque dizia que as pessoas procuravam cofres antes de olharem para a madeira sob os próprios pés.

A lembrança veio tão clara que quase ouvi sua voz.

Aproximei-me da antiga estante.


Ela havia sido deslocada alguns centímetros.

— Esperem.

Todos pararam.

Apontei para o chão.

Havia marcas recentes no piso.

O perito se ajoelhou.

Depois de fotografar, pediu ajuda para afastar a estante.

Atrás dela existia um pequeno painel de madeira, pintado da mesma cor da parede.

Eu nunca o tinha visto.

Quando foi retirado, revelou um compartimento estreito.


Dentro havia uma caixa metálica.

Meu coração disparou.

O perito abriu a caixa.

Não era o caderno.

Mas talvez fosse algo ainda pior.

Havia dezenas de cópias de documentos de identidade.

Extratos bancários.

Procurações.

Relatórios médicos.

Quatro nomes diferentes apareciam repetidamente.


Todos pertenciam a pessoas com mais de setenta anos.

Os mesmos “outros nomes” mencionados por Camila.

— Meu Deus — murmurei.

A investigadora começou a separar os documentos.

Uma das pastas continha registros de transferência de uma senhora chamada Lúcia Ferraz.

Outra, de Antônio Meireles.

Na terceira, documentos de um homem chamado Renato Prado.

Na quarta, de uma mulher chamada Beatriz Nogueira.

Nenhum deles tinha qualquer ligação aparente com nossa família.

— Como Juliano conhecia essas pessoas? — perguntei.


A resposta apareceu minutos depois.

Em vários formulários havia o nome de uma empresa de consultoria patrimonial.

A mesma empresa que havia “comprado” a casa da represa.

— Ele não estava apenas escondendo dinheiro — disse a investigadora. — Isso parece uma estrutura usada para entrar na vida financeira dessas pessoas.

Um investigador ergueu outra folha.

— Temos procurações.

Olhei.

As assinaturas estavam lá.

Mas havia algo estranho.

As mesmas duas testemunhas apareciam repetidamente.


Uma delas eu conhecia.

Camila.

Senti uma mistura amarga de raiva e confirmação.

Ela podia estar com medo de Juliano agora.

Mas participara.

Ativamente.

— E a segunda testemunha? — perguntei.

A investigadora leu o nome.

— Marcelo Siqueira.

Nunca tinha ouvido falar dele.


Mas, abaixo do nome, havia uma função.

“Consultor financeiro.”

A investigadora pegou o telefone.

— Precisamos localizar esse homem imediatamente.

Enquanto ela fazia a ligação, continuei olhando o compartimento.

Algo não fazia sentido.

Meu pai provavelmente escondera aquele espaço muitos anos antes.

Mas aqueles documentos eram recentes.

Juliano havia descoberto o esconderijo e transformado o lugar em arquivo próprio.

Então onde estava o caderno?


Examinei a caixa novamente.

No fundo havia um envelope menor.

Sem nome.

Dentro, uma fotografia.

Juliano estava ao lado de um homem que eu não reconhecia.

Atrás deles, uma faixa de evento dizia:

“Planejamento Patrimonial e Proteção Familiar”.

No verso da foto havia uma data de dois anos antes.

E uma frase escrita à mão:

“Marcelo consegue os laudos.”

Meu estômago afundou.

Mostrei à investigadora.

Ela leu duas vezes.

— Se isso significar o que parece significar...

— Juliano tinha alguém para conseguir avaliações médicas favoráveis.

Ela assentiu.

De repente, a ameaça de internar minha mãe deixou de parecer apenas intimidação.

Talvez houvesse um mecanismo pronto para tornar aquilo possível.

Meu telefone tocou.

Era a policial que acompanhava minha mãe.

Atendi imediatamente.

— Ela está bem?

— Está. Mas lembrou de outra coisa.

Olhei para os investigadores.

— Pode falar.

— Sua mãe disse que, cerca de dois meses atrás, Juliano levou um homem até a casa. Ele se apresentou como médico.

Meu corpo ficou rígido.

— Nome?

— Ela não lembra. Mas disse que ele fez várias perguntas, quase todas sobre memória, contas bancárias e datas. Juliano permaneceu na sala durante toda a conversa.

Fechei os olhos.

— E depois?

— Sua mãe ouviu Juliano perguntar quanto tempo demoraria para “ter o papel”.

A investigadora estava perto o suficiente para ouvir.

Nos encaramos.

A peça seguinte acabara de encaixar.

Poucos minutos depois, um dos investigadores surgiu da garagem.

— Encontramos uma coisa.

Seguimos com ele.

Atrás de um painel lateral havia um pequeno armário trancado.

Dentro, finalmente, estava o caderno.

Capa preta.

Sem identificação.

O perito o colocou sobre uma mesa e começou a fotografar página por página.

As primeiras folhas continham datas e valores.

Transferências.

Empresas.

Percentuais.

Os quatro idosos.

Minha mãe.

E ao lado de cada nome havia uma sequência semelhante.

“Confiança.”

“Procuração.”

“Avaliação.”

“Controle.”

“Transferência.”

Senti frio.

Não era improviso.

Era um procedimento.

Uma fórmula.

Juliano transformara vulnerabilidade em negócio.

Então chegamos à última página preenchida.

Havia uma lista de cinco nomes.

Quatro já conhecíamos.

O quinto fez minha respiração parar.

“Helena Vasconcelos.”

Meu próprio nome.

Ao lado dele, Juliano havia escrito apenas três palavras:

“Plano alternativo — carreira.”

A investigadora me encarou.

— Você sabe o que isso significa?

Balancei a cabeça lentamente.

Mas outra anotação aparecia logo abaixo.

“Se ela interferir, usar Marcelo.”

Naquele instante, entendi que Juliano não havia passado meses apenas roubando nossa mãe.

Ele também vinha se preparando para mim.

E qualquer que fosse o plano envolvendo minha carreira, ele já havia começado antes mesmo de eu chegar àquela casa.

Continua — toque na Parte 7 para continuar lendo.

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