Durante alguns segundos, ninguém falou.
Meu nome continuava diante de mim, escrito pela mão de Juliano.
“Plano alternativo — carreira.”
“Se ela interferir, usar Marcelo.”
Eu conhecia meu irmão o suficiente para saber que aquilo não era uma ameaça vazia. Juliano podia ser impulsivo quando perdia o controle, mas seus golpes financeiros eram metódicos.
— Fotografe tudo — disse a investigadora ao perito. — E ninguém entra em contato com Marcelo ainda.
Ela se virou para mim.
— Helena, a partir de agora você precisa se afastar formalmente de qualquer decisão desta investigação que possa envolver você.
Eu sabia.
Ser promotora não me colocava acima das regras. Pelo contrário.
— Concordo.
— Você agora também pode ser vítima ou alvo de tentativa de intimidação.
Ouvi aquelas palavras sem responder.
Naquele momento, meu telefone vibrou.
Número desconhecido.
A investigadora viu a tela.
— Não atenda aqui.
Entreguei o aparelho a ela.
Segundos depois, chegou uma mensagem.
“Dra. Helena Vasconcelos, precisamos conversar antes que determinados documentos sejam enviados.”
Outra mensagem apareceu.
“Pergunte ao seu irmão quem é Marcelo Siqueira.”
A investigadora fotografou a tela.
Então veio a terceira.
Uma imagem.
Era uma captura de tela de um documento com meu nome no cabeçalho.
Abaixo, apareciam palavras suficientes para fazer meu estômago se fechar:
“conduta funcional”.
“uso indevido de influência”.
“benefício pessoal”.
Eu entendi imediatamente o plano.
— Eles querem construir uma denúncia contra mim.
A investigadora assentiu.
— E talvez já tenham começado.
Meu telefonema para a desembargadora Torres naquela noite poderia ser distorcido para parecer que eu usara meu cargo numa disputa familiar. Se Juliano tivesse preparado documentos falsos com antecedência, poderia tentar transformar a proteção da minha mãe em prova de abuso de autoridade.
Era perverso.
E inteligente o suficiente para causar estrago antes que a verdade aparecesse.
— Não responda — disse ela.
— Não vou responder.
O telefone vibrou outra vez.
“Você tem até o meio-dia.”
A investigadora verificou o horário.
E sorriu sem humor.
— Ótimo.
Olhei para ela.
— Ótimo?
— Agora sabemos que alguém está preocupado.
Ela solicitou imediatamente a preservação dos registros relacionados ao número e comunicou a nova tentativa de intimidação à equipe responsável pelo caso.
Enquanto os peritos continuavam examinando o caderno, surgiu outra descoberta.
Ao lado de várias transferências havia pequenas iniciais.
“M.S.”
Marcelo Siqueira.
Em outras páginas, aparecia a expressão “laudo pronto”.
E, ao lado do nome de minha mãe, uma data marcada para a semana seguinte.
— Eles já tinham programado alguma coisa — falei.
A investigadora comparou a anotação com os documentos encontrados no compartimento.
— Uma avaliação.
Ela retirou uma folha.
Era um agendamento em nome da minha mãe com uma clínica particular.
O profissional indicado não era Marcelo.
Mas o endereço da clínica aparecia também em documentos ligados a duas das outras vítimas.
A estrutura estava começando a se revelar.
Primeiro, Juliano e Camila conquistavam acesso.
Depois vinham procurações e documentos.
Quando havia resistência, apareciam avaliações sobre capacidade cognitiva.
E então o patrimônio começava a mudar de mãos.
Meu pai descobrira apenas o início daquilo anos antes.
Juliano aparentemente transformara o próprio método com o tempo.
Um dos investigadores se aproximou.
— Localizamos Marcelo Siqueira.
— Onde? — perguntou a investigadora.
— Aeroporto.
Ela se virou imediatamente.
— Tentando sair do país?
— Ainda não sabemos. Mas comprou uma passagem nesta madrugada.
O horário da compra foi lido em voz alta.
Dezessete minutos depois da entrada da polícia na casa da minha mãe.
Não era coincidência.
A investigadora começou a dar instruções.
Eu permaneci junto à mesa, observando meu próprio nome no caderno.
Então percebi uma coisa.
— Espere.
Apontei para as datas.
A anotação sobre mim havia sido feita antes de eu decidir visitar minha mãe.
— Como Juliano sabia que eu viria?
Todos ficaram em silêncio.
Eu não havia contado a ele.
Era uma surpresa de aniversário.
Minha mãe também não sabia.
Só três pessoas sabiam que eu faria aquela viagem.
Eu.
Uma colega do trabalho.
E...
Meu coração acelerou.
— Camila.
A investigadora franziu a testa.
— Por quê?
— Ela me mandou uma mensagem semanas atrás perguntando se eu pretendia visitar minha mãe no aniversário. Eu disse que talvez aparecesse de surpresa.
A lembrança mudou tudo.
Camila sabia.
E provavelmente contara a Juliano.
Mas havia algo ainda mais estranho.
Se eles sabiam que eu poderia chegar, por que minha mãe ainda estava coberta de hematomas?
Por que deixariam as cordas?
Por que manteriam documentos comprometores tão perto?
Talvez porque Juliano acreditasse que conseguiria controlar a situação.
Ou porque tivesse outro plano.
Meu telefone tocou novamente.
Dessa vez era a policial que estava com minha mãe.
— Helena, preciso que volte.
Meu peito apertou.
— O que aconteceu?
— Sua mãe está segura. Mas apareceu uma mulher no portão.
— Quem?
— Lúcia Ferraz.
Reconheci imediatamente o primeiro nome do caderno.
Uma das quatro possíveis vítimas.
— Como ela descobriu onde minha mãe mora?
— Ela disse que viu a prisão de Juliano quando estava passando de carro ontem à noite.
Aquilo não fazia sentido.
— E o que ela quer?
Houve uma pausa.
— Falar com sua mãe.
— Sobre quê?
A resposta fez meu corpo inteiro gelar.
— Ela diz que conhece Juliano há quase três anos. E afirma que Camila não era apenas testemunha das procurações.
Fechei os olhos.
— O que mais?
— Segundo Lúcia, Camila foi a pessoa que se aproximou dela primeiro.
Quando voltei para casa, Lúcia estava sentada na sala, segurando uma bolsa contra o peito.
Devia ter pouco mais de setenta anos.
Minha mãe estava ao lado dela.
As duas pareciam assustadas, mas havia reconhecimento no modo como se olhavam.
Lúcia se levantou quando entrei.
— A senhora é Helena?
— Sim.
Ela começou a chorar.
— Sua mãe me contou que vocês encontraram meu nome.
Assenti.
— Precisamos conversar com a investigadora antes de qualquer depoimento formal.
— Eu vou contar tudo.
Lúcia abriu a bolsa.
De dentro, retirou um envelope grosso.
— Guardei isso porque alguma coisa dentro de mim dizia que um dia eu precisaria provar que não estava louca.
Colocou sobre a mesa extratos bancários, mensagens impressas e uma fotografia.
Na imagem, Camila estava sentada ao lado de Lúcia em uma cafeteria.
No verso havia uma data de quase três anos antes.
— Foi ela quem ganhou minha confiança — disse Lúcia. — Camila dizia que ajudava idosos a organizar documentos depois que o marido dela resolveu os problemas financeiros.
Olhei para minha mãe.
Ela estava tão chocada quanto eu.
— Depois Camila apresentou Juliano — continuou Lúcia. — Ele disse que poderia proteger meus bens dos meus parentes.
Minha garganta ficou seca.
— A senhora perdeu dinheiro?
Lúcia assentiu.
— Quase tudo.
Então retirou o último papel do envelope.
Era uma cópia de uma transferência.
No campo do beneficiário aparecia uma das empresas encontradas no caderno.
Mas, abaixo dela, havia um nome vinculado à conta.
Camila.
Minha mãe levou a mão à boca.
Naquele instante, compreendi o erro que eu quase cometera.
Camila podia realmente ter medo de Juliano.
Ele podia realmente tê-la ameaçado.
Mas isso não significava que ela tivesse entrado naquele esquema como vítima.
Talvez tivesse ajudado a construí-lo.
Lúcia segurou minha mão.
— Tem mais uma coisa que você precisa saber.
— O quê?
Ela olhou para minha mãe antes de responder.
— Quando comecei a fazer perguntas sobre meu dinheiro, Camila me disse exatamente a mesma frase que disse à sua mãe.
Senti um arrepio.
— Qual frase?
Lúcia respirou fundo.
— Que ninguém acreditaria numa velha que esquece as coisas.
A sala ficou completamente silenciosa.
Naquele momento, ficou claro que o medo de Camila podia ser verdadeiro.
Mas sua culpa também era.
E, se Lúcia conseguisse provar como tudo começara, Camila talvez não fosse a cúmplice apavorada que tentara parecer na delegacia.
Talvez ela tivesse sido a primeira peça do esquema de Juliano.
Continua — toque na Parte 8 para continuar lendo.







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