Por alguns segundos, ninguém se mexeu.
Todos olhavam para a carteira.
A mesma carteira que eu encontrara caída na terra debaixo de um banco enferrujado.
A mesma que continha dinheiro suficiente para impedir nosso despejo.
E, aparentemente, algo pelo qual alguém estava disposto a sequestrar minha mãe.
Graves pegou a carteira com extremo cuidado.
“Ela tem um compartimento falso.”
Harris franziu a testa.
“Você carregava isso com você?”
“Porque qualquer coisa colocada nos arquivos oficiais podia ser acessada. Depois que Emily desapareceu, eu parei de confiar nos cofres deste prédio.”
Ele pressionou dois dedos contra a costura interna.
Nada aconteceu.
Então retirou a identidade militar e passou a unha por baixo do couro.
Ouvi um pequeno estalo.
Uma parte do revestimento se soltou.
Dentro havia uma lâmina fina de metal, menor que meu polegar.
Harris prendeu a respiração.
“Um dispositivo de armazenamento.”
Graves assentiu.
“Emily me entregou os dados naquela noite.”
“Doze anos atrás?”
“Eu copiei tudo para um novo dispositivo quando o sistema antigo começou a ficar obsoleto. Nunca deixei o conteúdo tocar novamente a rede militar.”
Olhei para ele.
“Então isso pode salvar minha mãe?”
Graves fechou a mão ao redor da pequena peça.
“Pode ser a razão pela qual ela foi levada.”
Aquilo não era a resposta que eu queria.
Harris trouxe um computador isolado, sem conexão com a rede do quartel-general.
Graves inseriu o dispositivo.
A tela pediu uma senha.
Ele digitou uma sequência.
Acesso negado.
Tentou outra.
Nada.
“Você não sabe a senha?”, perguntei.
“Emily colocou a criptografia.”
Meu coração afundou.
“Então como vamos abrir?”
Graves olhou para a fotografia da minha mãe jovem, segurando um bebê.
“Ela me disse uma coisa quando entregou os arquivos.”
Harris esperou.
Graves falou lentamente:
“Se alguma coisa acontecer comigo, procure aquilo que eles jamais considerariam importante.”
“Isso pode significar qualquer coisa”, disse Harris.
Eu continuava olhando para a fotografia.
Mamãe parecia tão jovem.
Cansada.
Assustada.
Mas estava sorrindo para o bebê.
Para mim.
“Meu nome”, murmurei.
Os dois homens olharam para mim.
“Ela sempre diz que eu fui a única coisa importante que sobrou daquela época.”
Graves digitou RUBY.
Negado.
RUBY CARTER.
Negado.
Minha esperança desapareceu.
Então notei um detalhe na fotografia.
No cobertor do bebê havia uma data escrita à mão.
Graves também percebeu.
Digitou os números.
A tela mudou.
Três pastas apareceram.
**PAGAMENTOS**
**FAROL**
**SE ALGUMA COISA ACONTECER COMIGO**
Harris ficou imóvel.
Graves abriu a terceira.
Havia um arquivo de áudio.
Minha mãe começou a falar.
Mas era uma voz mais jovem.
“Meu nome é Emily Carter. Se alguém estiver ouvindo isso, significa que eu provavelmente não consegui prestar depoimento.”
Senti os olhos arderem.
Era mamãe.
Mas não a mãe que eu conhecia.
Aquela mulher falava rápido, como alguém esperando que a porta fosse arrombada a qualquer momento.
“Os desvios não são obra de uma única pessoa. Há militares, funcionários civis e intermediários externos. Eles retiram pequenas quantias de milhares de benefícios para que nenhuma família perceba imediatamente.”
Harris começou a anotar nomes que surgiam em uma planilha.
Minha mãe continuou:
“Eu cometi um erro. Contei a alguém que tinha descoberto o padrão.”
Graves se inclinou para a tela.
“Quem?”
O áudio respondeu segundos depois.
“Thomas Vale.”
Meu corpo inteiro ficou gelado.
Harris levantou a cabeça.
“O homem do saguão.”
Mamãe continuou:
“Thomas me disse que queria me ajudar. Foi ele quem me avisou que havia uma ordem para me deter.”
Graves fechou os olhos.
Era exatamente como minha mãe havia contado.
“Mas há uma coisa que não consigo explicar”, prosseguiu a gravação. “A cópia da ordem que Thomas me mostrou tinha a assinatura do General Graves. Se a assinatura for verdadeira, não posso confiar no General. Se for falsa... então Thomas sabia que eu fugiria antes mesmo de me mostrar o documento.”
O áudio terminou.
Ninguém falou.
Finalmente, Harris murmurou:
“Vale não apenas conhecia a operação de proteção.”
“Ele controlou a maneira como Emily interpretou tudo”, respondeu Graves.
Abri a pasta PAGAMENTOS.
Centenas de linhas apareceram.
Nomes.
Datas.
Contas.
Transferências.
Harris ficou mais perto.
“Meu Deus.”
“O quê?”
Ele apontou para uma coluna.
“Esses códigos são dos intermediários que recebiam os valores desviados.”
“Tem o dinheiro da Ruby aí?”
“Provavelmente.”
Começamos a descer pela lista.
Até aparecer:
**CARTER, RUBY E.**
Ao lado do meu nome havia uma sequência de contas.
Mas a última linha era diferente.
O dinheiro não tinha sido transferido para uma conta anônima.
Tinha ido para uma empresa.
**VALE CONSULTORIA ADMINISTRATIVA LTDA.**
Harris respirou fundo.
“Empresa registrada em nome de Thomas Vale.”
Minha mão apertou a borda da mesa.
“Então ele roubou nosso dinheiro.”
“Parte dele”, respondeu Graves. “Ainda precisamos provar quem mais estava envolvido.”
Meu celular vibrou novamente.
Outra mensagem do número desconhecido.
**VOCÊ ABRIU O ARQUIVO.**
Olhei ao redor.
“Como ele sabe?”
Harris verificou o computador.
“Não sabe. Está tentando fazer você reagir.”
Chegou outra mensagem.
**NÃO MOSTRE A GRAVES A PASTA FAROL.**
Meu coração bateu forte.
Olhei para a tela do computador.
Ainda não tínhamos aberto aquela pasta.
Graves ficou em silêncio.
Foi Harris quem percebeu primeiro.
“Ele sabe os nomes das pastas.”
Graves assentiu lentamente.
“Isso significa que Vale já viu este conteúdo alguma vez.”
Abri a pasta FAROL antes que alguém pudesse me impedir.
Havia mapas antigos.
Rotas de evacuação.
Endereços de imóveis usados para proteção.
Um deles estava marcado em vermelho.
**PONTO FAROL 6 — DESATIVADO**
Graves aproximou o rosto da tela.
“Conheço esse lugar.”
“O que é?”
“Um antigo imóvel de segurança fora da área central de Brasília.”
Harris abriu a fotografia que tinham enviado da minha mãe.
Parede de concreto.
Uma luminária metálica.
Parte de uma coluna atrás da cadeira.
Então colocou ao lado uma imagem antiga do Ponto Farol 6.
A mesma parede.
A mesma luminária.
A mesma coluna.
Levantei tão rápido que a cadeira caiu.
“Minha mãe está lá.”
Graves já estava dando ordens.
“Prepare uma equipe discreta. Nada de comboio. Nada de comunicação pela rede principal.”
Harris segurou seu braço.
“Se Vale realmente estiver lá, ele conhece nossos protocolos.”
“Então não vamos usar nossos protocolos.”
Graves olhou para mim.
“Ruby, você fica aqui.”
Balancei a cabeça.
“Não.”
“É perigoso.”
“Ele levou minha mãe por minha causa.”
“Não.”
A voz de Graves ficou firme.
“Ele levou sua mãe porque alguém passou doze anos tentando esconder o que ela descobriu.”
Antes que eu pudesse responder, chegou uma última mensagem.
Dessa vez não havia fotografia.
Apenas uma frase:
**GENERAL, SE VOCÊ VIER COM SOLDADOS, EMILY MORRE. SE VIER SOZINHO, ELA FALA.**
Graves leu.
Depois colocou a pequena peça de metal de volta dentro da carteira.
Harris percebeu imediatamente.
“Você não está pensando em obedecer.”
Graves pegou o casaco.
“Não.”
Olhou novamente para a mensagem.
“Estou pensando em descobrir por que Thomas Vale passou doze anos esperando que eu encontrasse Ruby.”
Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.







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