O som dos passos se aproximava pelo corredor, lento e controlado, como se a pessoa que havia entrado soubesse exatamente para onde estava indo. Apertei o bilhete do meu avô entre os dedos e encarei Augusto. Pela primeira vez, não sabia se o homem que havia me recebido naquela casa era meu aliado ou alguém que estava me conduzindo diretamente para uma armadilha.
— As crianças estão lá em cima — sussurrei.
— Então não temos tempo — respondeu ele.
— Não se mexa.
Augusto parou.
— Juliana, eu sei que você está desconfiada de mim, mas...
— Meu avô escreveu para eu não confiar em você.
A expressão dele desmoronou.
— Ele escreveu isso porque sabia que eu teria de fazer uma escolha.
— Que escolha?
Antes que ele pudesse responder, uma voz surgiu do corredor.
— Juliana?
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Era Marcelo.
Como ele havia chegado até ali?
Augusto imediatamente apagou a luz do escritório e fez sinal para que eu não falasse. Ouvi passos se aproximando. Marcelo chamou meu nome outra vez, mas desta vez havia algo diferente em sua voz. Não era o homem arrogante que havia assinado o divórcio naquela manhã. Havia medo.
— Eu sei que você está aqui.
Apertei os dentes.
Augusto apontou para uma porta estreita atrás da estante.
— Saída de serviço.
Balancei a cabeça.
— Meus filhos.
— Eu vou buscá-los.
— Não.
Segurei seu braço.
— Você não vai chegar perto deles sozinho.
Ele me encarou por um instante e então assentiu.
Subimos pelas escadas dos fundos. Meus filhos estavam no quarto, assustados com os barulhos que vinham do andar inferior. Minha filha segurava o irmão pela mão.
— Mamãe, é o papai?
Engoli em seco.
— Fiquem perto de mim.
Marcelo apareceu no corredor antes que pudéssemos sair.
Ele estava sozinho.
Sem motorista, sem familiares, sem a arrogância habitual. Sua camisa estava amassada, os cabelos desarrumados e havia uma pequena pasta nas mãos.
Quando seus olhos encontraram os meus, ele parou.
— Juliana, precisamos conversar.
— Você não deveria estar aqui.
— Eu sei.
— Como descobriu onde eu estava?
Ele olhou para Augusto.
— Ele me contou.
O silêncio foi imediato.
Virei-me para Augusto.
— Você disse que não tinha contato com ele.
— Eu não contei nada.
Marcelo apertou a pasta.
— Ele não contou. Eu descobri sozinho.
— Então explique.
Marcelo respirou fundo.
— Depois do ultrassom, Patrícia desapareceu da clínica.
— E daí?
— Antes de sair, ela deixou uma coisa para mim.
Ele abriu a pasta e retirou uma fotografia.
Era a mesma fotografia que minha filha havia encontrado.
Marcelo colocou-a sobre o aparador.
— Patrícia me disse que meu relacionamento com ela começou muito antes de você imaginar.
Meu estômago se contraiu.
— O que isso significa?
— Significa que ela não se aproximou de mim por acaso.
Minha filha começou a chorar baixinho.
Passei o braço ao redor dela.
— Não fale disso na frente das crianças.
Marcelo baixou a voz.
— Juliana, eu não vim atrás de você para pedir que volte. Eu sei que não tenho esse direito.
— Finalmente percebeu.
Ele aceitou o golpe sem reagir.
— Eu vim porque descobri que fui usado.
Ri sem humor.
— Você usou a mim durante anos. Agora está descobrindo como é estar do outro lado?
Ele abaixou os olhos.
— Eu mereço isso.
Aquelas palavras me surpreenderam mais do que qualquer justificativa.
— O que Patrícia queria de você?
Marcelo ficou alguns segundos em silêncio.
— Acesso.
— Acesso a quê?
— Aos documentos da sua família.
Augusto fechou os olhos.
Eu senti uma pressão no peito.
— Então era isso.
— Eu não sabia de tudo no começo — continuou Marcelo. — Quando nos casamos, eu sabia que sua família tinha dinheiro. Sabia que seu avô possuía empresas e propriedades. Mas Patrícia começou a aparecer depois. Ela dizia conhecer pessoas que poderiam me ajudar nos negócios.
— E você acreditou?
— Eu era ambicioso.
— Não. Você era ganancioso.
Ele assentiu.
— Sim.
Marcelo retirou outro documento da pasta.
— Patrícia precisava de alguém dentro da família. Eu era perfeito.
Olhei para o papel.
Era um contrato antigo da Vértice.
Mas havia algo que me fez gelar.
O nome de Patrícia aparecia como diretora financeira.
— Ela estava na Vértice?
— Desde a fundação.
Augusto finalmente falou:
— Isso explica muita coisa.
— Você sabia? — perguntei.
— Eu sabia que ela trabalhava lá. Não sabia que Marcelo estava envolvido.
Marcelo olhou para ele.
— Você sabia mais do que está dizendo.
Augusto permaneceu em silêncio.
Eu me aproximei dele.
— O segundo cofre. Onde fica?
Ele demorou para responder.
— Não sei.
Marcelo soltou uma risada amarga.
— Mentira.
Augusto o encarou.
— Você não entende o que está acontecendo.
— Então explique!
Os dois começaram a discutir, e naquele momento percebi algo estranho. Marcelo estava com medo de Augusto. Não era raiva. Era medo.
Foi quando meu filho puxou minha mão.
— Mãe...
Ele apontou para a fotografia sobre o aparador.
Havia algo atrás dela.
Retirei a fotografia da moldura e encontrei uma pequena folha dobrada.
Abri.
Era uma lista escrita pela mão do meu avô.
Havia nomes.
Datas.
Valores.
E ao lado de cada nome, uma palavra.
Quando cheguei ao último nome, meu coração parou.
Marcelo.
Mas ao lado do nome dele não havia valor.
Havia apenas uma frase:
“Ele não sabe quem realmente é.”
Levantei os olhos lentamente.
Marcelo percebeu minha expressão.
— O que foi?
Não respondi.
Meu olhar voltou para o documento.
— Você conhece seu pai biológico? — perguntei.
Marcelo ficou imóvel.
— Claro que conheço.
Augusto deu um passo para trás.
— Marcelo...
— O que você sabe? — Marcelo exigiu.
Augusto fechou os olhos.
— Seu pai não morreu no acidente que sua família contou.
Marcelo ficou completamente pálido.
— O quê?
— Ele desapareceu há vinte e cinco anos.
— Isso é impossível.
— Seu avô descobriu onde ele estava.
Marcelo respirou com dificuldade.
— Onde?
Augusto olhou para mim.
Depois para Marcelo.
— Dentro da Vértice.
Ninguém conseguiu dizer mais nada.
Então meu celular vibrou.
Uma nova mensagem havia chegado do mesmo número desconhecido.
“Agora você entende por que seu avô não confiava em Marcelo. Mas ainda não descobriu quem assinou a sua falsa procuração.”
Abaixo havia uma fotografia.
Era uma imagem recente.
Na foto, um homem idoso saía de um carro diante de um prédio.
Eu nunca tinha visto aquele homem.
Mas Marcelo reconheceu imediatamente.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— Meu pai...







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