Marcelo ficou olhando para a fotografia como se o rosto daquele homem pudesse desaparecer se ele piscasse. Durante alguns segundos, não houve nenhuma palavra. Apenas o ruído distante do vento batendo contra as janelas da casa e a respiração acelerada das crianças atrás de mim.
— Não pode ser ele — murmurou Marcelo.
Augusto não respondeu.
— Meu pai morreu quando eu tinha sete anos — insistiu Marcelo. — Minha mãe esteve no enterro. Eu vi o caixão.
— Você viu um caixão fechado — respondeu Augusto.
Marcelo recuou um passo.
— Por que ninguém me contou?
— Porque seu avô tentou descobrir a verdade antes que você estivesse preparado.
— Preparado para quê?
Augusto olhou para mim.
— Para descobrir que o homem que você chamava de pai passou anos trabalhando justamente para as pessoas que tentaram destruir a família da Juliana.
Meu coração apertou. Até aquele momento, eu pensava que a história de Marcelo era apenas a história de um homem ganancioso que havia escolhido outra mulher. Agora começava a perceber que havia algo muito mais antigo por trás daquele casamento.
Marcelo segurou a fotografia com força.
— Quero encontrá-lo.
— Não — disse Augusto.
— Você não decide isso.
— Seu pai desapareceu porque sabia que estava sendo procurado. Se ele realmente voltou agora, não apareceu por acaso.
Marcelo virou-se para mim.
— Você recebeu a mesma mensagem que eu?
— Não sei.
Mostrei a fotografia no meu celular.
Ele comparou as duas imagens. Eram praticamente idênticas, mas haviam sido tiradas de ângulos diferentes.
— Quem está nos observando? — perguntei.
Nenhum dos dois respondeu.
Meu filho apareceu na porta do corredor.
— Mãe, por que todo mundo está com medo?
A pergunta dele me atingiu mais forte do que qualquer revelação naquela noite. Ajoelhei-me diante dele e segurei seus ombros.
— Não estamos com medo. Só estamos tentando resolver algumas coisas de adultos.
— O papai vai embora?
Olhei para Marcelo.
Ele abaixou a cabeça.
— Vai — respondi. — E nós vamos ficar juntos.
Meu filho assentiu, mas não pareceu convencido.
Depois que as crianças voltaram para o quarto, fechei a porta e encarei Marcelo.
— Você precisa ir embora.
— Juliana...
— Não porque eu queira proteger você. Quero proteger meus filhos.
Ele ficou em silêncio.
— Se alguém realmente está nos observando, sua presença aqui coloca todos nós em risco.
Marcelo concordou lentamente.
Antes de sair, porém, colocou a pasta sobre a mesa.
— Tem uma coisa que você precisa saber.
Abriu uma pequena divisória interna e retirou um pen drive.
— Eu encontrei isso na clínica.
— Onde?
— No armário de Patrícia.
Peguei o dispositivo.
— O que tem aqui?
— Não consegui abrir. Está criptografado.
— Por que entregar para mim?
Marcelo me encarou.
— Porque o arquivo exige uma senha que só você pode conhecer.
Meu coração acelerou.
— Como sabe?
— Patrícia disse uma coisa antes de desaparecer.
Ele se aproximou.
— Ela disse que seu avô não deixou a chave do cofre para você. Deixou uma memória.
Franzi a testa.
— Uma memória?
— Uma lembrança da sua infância.
Aquilo me deixou inquieta.
Eu havia passado horas naquela casa procurando documentos, contratos e qualquer coisa relacionada à Vértice. Nunca imaginei que a senha pudesse estar escondida em uma lembrança.
— Qual lembrança?
Marcelo balançou a cabeça.
— Ela não disse.
Ele foi embora alguns minutos depois.
Observei o carro desaparecer pelos portões e só então voltei ao escritório.
Augusto estava diante da mesa.
— Você não contou tudo.
Ele não negou.
— Não.
— Meu avô sabia que Marcelo estava sendo usado?
— Sabia.
— E sabia quem estava por trás da Vértice?
Augusto respirou fundo.
— Sim.
— Quem?
Ele tirou um envelope do bolso.
— Seu avô deixou isso comigo na noite em que percebeu que não teria muito tempo.
Abri o envelope.
Dentro havia apenas uma fotografia antiga de uma menina de aproximadamente dez anos.
Era eu.
Eu estava sentada no colo do meu avô.
Atrás de nós havia uma mulher que eu não reconhecia.
Virei a fotografia.
Havia uma frase escrita à mão:
“Ela se lembra da noite em que tudo começou.”
Fiquei arrepiada.
— Quem é essa mulher?
Augusto aproximou-se.
— A mãe de Patrícia.
Meu coração disparou.
— Isso é impossível.
— Não. É justamente o que seu avô tentou esconder de você.
— Por quê?
Augusto apontou para a fotografia.
— Porque naquela noite você viu alguém entrando no escritório dele.
Fechei os olhos.
Uma lembrança surgiu lentamente.
Eu tinha dez anos. Era noite. Lembro-me de ter acordado por causa de uma tempestade. Desci as escadas procurando meu avô. A porta do escritório estava entreaberta. Havia duas pessoas conversando.
Um homem.
E uma mulher.
Eu nunca consegui ver os rostos.
Mas havia uma coisa que jamais esqueci.
O homem usava um relógio de metal com uma pequena rachadura no vidro.
Levei a mão à boca.
— O relógio...
Augusto ficou atento.
— O quê?
— Eu me lembro do relógio.
— De quem?
Fechei os olhos novamente.
A imagem ficou mais nítida.
O homem levantava o braço enquanto discutia com meu avô.
E então eu ouvi uma frase.
Uma frase que, durante vinte anos, pensei ter esquecido.
“Quando Juliana for adulta, ela assinará tudo por nós.”
Abri os olhos.
Augusto estava completamente pálido.
— Meu Deus...
— O que foi?
Ele não respondeu.
Seu olhar estava fixo na porta.
Segui seus olhos.
Havia uma sombra do outro lado do vidro.
Alguém estava parado no jardim.
Antes que pudéssemos reagir, a figura levantou o braço.
No pulso havia um relógio antigo.
Vidro rachado.
Meu coração disparou.
Augusto correu até a janela, mas quando abriu a cortina, o jardim estava vazio.
Então meu celular recebeu uma nova mensagem.
“Você finalmente se lembrou.”
Abaixo havia outra frase.
“Agora descubra por que seu avô falsificou a própria morte.”
Fiquei imóvel.
Meu avô estava morto havia três anos.
Ou pelo menos era isso que eu sempre havia acreditado.







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