Meu olhar encontrou o de Augusto, e naquele instante a casa pareceu ficar pequena demais para nós dois. As palavras de Marcelo continuavam brilhando na tela do celular: “A pessoa que traiu seu avô está dentro da casa com você.” Senti um arrepio percorrer meus braços. Não havia mais espaço para confiança cega. Não depois de tudo que eu acabara de descobrir.
— Augusto — falei devagar. — Onde está seu telefone?
Ele franziu a testa.
— Por quê?
— Quero vê-lo.
— Juliana...
— Agora.
Ele hesitou por alguns segundos. Depois colocou o aparelho sobre a mesa.
Peguei-o e examinei as últimas chamadas. Havia apenas números conhecidos, mas uma delas havia sido apagada. Eu não sabia como recuperar a informação, porém percebi algo mais simples: a data da chamada.
Era de três noites antes.
Exatamente no dia em que eu ainda estava no Brasil, preparando o divórcio.
— Quem ligou?
— Não lembro.
— Você não lembra de uma ligação de madrugada?
— Eu estava preocupado.
— Com quem?
Augusto desviou os olhos.
Nesse momento, meu celular tocou.
Marcelo.
Atendi.
— Onde você está?
— Em um lugar seguro.
— Não está.
A voz dele estava diferente. Tensa, quase sem ar.
— Meu pai me contou coisas que eu não sabia. Juliana, você precisa sair daí.
— Seu pai está com você?
— Está.
— Quero falar com ele.
Houve silêncio.
Então uma voz masculina surgiu do outro lado.
— Juliana.
Meu coração parou.
Eu conhecia aquela voz.
Não sabia de onde, mas conhecia.
A lembrança da minha infância voltou como um clarão: chuva, a porta do escritório entreaberta, meu avô discutindo com alguém e aquele relógio rachado.
— Álvaro?
— Seu avô nunca quis que você soubesse meu nome.
— Você tentou destruir minha família.
— Não. Eu tentei recuperar algo que acreditava pertencer à minha família.
— E meu avô?
Álvaro ficou em silêncio.
— Ele está vivo? — perguntei.
— Sim.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas.
— Onde ele está?
— Não posso dizer ainda.
— Então por que está falando comigo?
— Porque você precisa entender que Marcelo não foi o único enganado.
Olhei para Augusto.
Ele estava parado perto da janela, imóvel.
— Quem falsificou minha assinatura?
A voz de Álvaro mudou.
— Você realmente não sabe?
— Não.
— Então pergunte a Augusto por que ele estava presente no escritório do seu avô na noite em que tudo começou.
A ligação caiu.
Virei-me lentamente.
Augusto não tentou fugir.
— Você estava lá naquela noite.
— Sim.
— E conhecia Álvaro.
— Sim.
— Você ajudou meu avô a desaparecer?
Ele baixou a cabeça.
— Ajudei.
Meu peito apertou.
— Você me deixou acreditar que ele estava morto durante três anos.
— Porque era necessário.
— Necessário para quem?
— Para mantê-la viva.
A raiva tomou conta de mim.
— Pare de dizer isso! Todos usam a mesma desculpa! “Foi para protegê-la.” “Era necessário.” Enquanto isso, eu vivi acreditando que meu avô havia morrido!
Augusto se aproximou.
— Seu avô queria voltar.
— Então por que não voltou?
— Porque alguém descobriu onde ele estava.
— Quem?
Augusto ficou em silêncio.
Eu entendi.
— Foi você?
Ele me encarou.
— Não.
— Então quem?
— Sua própria mãe.
Senti o mundo parar.
Minha mãe havia morrido quando eu tinha dezesseis anos. Durante toda a minha vida, meu avô dizia que ela havia sido vítima de uma doença repentina. Eu nunca questionei.
— Minha mãe não tinha nada a ver com isso.
— Tinha.
— Você está mentindo.
— Ela foi quem entregou ao seu avô os documentos da Vértice. Ela descobriu que Álvaro e Patrícia estavam usando empresas de fachada para controlar parte do patrimônio da família.
Minha respiração ficou irregular.
— Então por que ela morreu?
Augusto desviou os olhos.
— Porque tentou denunciar tudo.
Sentei-me.
Por alguns segundos, não consegui falar.
Minha mãe.
A mulher cuja morte eu havia aceitado como uma tragédia familiar talvez tivesse sido assassinada pelo mesmo esquema que agora ameaçava meus filhos.
— Meu avô sabia?
— Sabia.
— E nunca me contou.
— Ele queria que você tivesse uma vida normal.
Ri baixinho, mas havia lágrimas em meus olhos.
— Minha vida nunca foi normal.
Augusto então caminhou até a estante e retirou um pequeno livro.
— Seu avô deixou isso para você.
Abri.
Era um diário.
As primeiras páginas estavam preenchidas com anotações sobre a Vértice, nomes e datas. Mas algumas páginas haviam sido arrancadas.
— Quem arrancou?
— Eu não sei.
Continuei folheando até encontrar uma fotografia escondida entre duas páginas.
Era minha mãe.
Ao lado dela estava Patrícia.
E, atrás das duas, estava Marcelo ainda adolescente.
No verso havia uma frase:
“Os três sabem o que aconteceu naquela noite.”
Meu coração disparou.
Marcelo não podia saber.
Ou talvez soubesse muito mais do que havia contado.
Meu celular tocou novamente.
Dessa vez era uma chamada de vídeo.
Marcelo apareceu na tela.
Seu rosto estava machucado pelo cansaço, e atrás dele havia um homem idoso sentado em uma cadeira.
Álvaro.
— Juliana — disse Marcelo —, meu pai me contou onde seu avô está.
— Onde?
Marcelo olhou para o homem ao lado.
Álvaro respondeu:
— No lugar onde tudo começou.
Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, uma terceira pessoa entrou no enquadramento.
Patrícia.
Ela parecia abatida, mas estava de pé.
Olhou diretamente para a câmera.
— Juliana, eu preciso contar uma coisa antes que seja tarde demais.
Marcelo virou-se para ela.
— Patrícia, não.
Ela ignorou-o.
— Eu não estou grávida. O tumor é real. Mas existe uma razão para eu ter fingido a gravidez.
Meu coração acelerou.
— Qual?
Patrícia respirou fundo.
— Porque Marcelo não era o homem que eu precisava para entrar na sua família.
Ela fez uma pausa.
— Você era.
A chamada terminou.
Fiquei olhando para a tela apagada.
Então ouvi um ruído atrás de mim.
Augusto havia aberto a porta do escritório.
No chão, havia um envelope que não estava ali antes.
Ele o pegou e ficou completamente imóvel ao reconhecer a caligrafia.
— É do seu avô.
Arranquei o envelope das mãos dele.
Dentro havia apenas uma frase:
“Juliana, se Patrícia finalmente contou a verdade, venha sozinha à antiga estação ferroviária. Eu estarei esperando.”
Olhei para o relógio.
Faltavam exatamente duas horas para a meia-noite.
E, pela primeira vez em três anos, eu sabia que talvez estivesse prestes a reencontrar o homem que todos me fizeram acreditar que estava morto.







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