Chegamos à área industrial em silêncio.
Nenhuma sirene.
Nenhum giroflex.
Nenhum movimento que pudesse avisar quem estava dentro do galpão.
Henrique dividiu as equipes em três pontos enquanto imagens de drone eram enviadas para um tablet protegido.
O complexo parecia abandonado.
Janelas quebradas.
Paredes cobertas de ferrugem.
Portões corroídos.
Mas havia energia elétrica no sexto galpão.
E calor recente em três salas internas.
— Temos pelo menos quatro pessoas — disse Henrique. — Talvez mais.
Apontei para a planta antiga do imóvel.
— Minha filha provavelmente está longe das entradas.
— Por quê?
— Eles precisam dela viva.
Minha voz saiu mais fria do que eu esperava.
— E precisam de tempo para negociar.
Henrique assentiu.
Uma das equipes encontrou um acesso de serviço nos fundos.
Sem câmeras.
Sem sensores visíveis.
Dei a ordem.
Entramos.
O cheiro de óleo velho e concreto úmido preenchia o corredor.
Avançamos devagar.
Cada passo me obrigava a lutar contra a vontade de correr.
Eu só conseguia ouvir a voz dela.
“Pai?”
Viramos a primeira esquina.
Um homem apareceu segurando uma arma.
A equipe o dominou antes que pudesse disparar.
Henrique pressionou-o contra a parede.
— Onde está a menina?
O homem permaneceu calado.
Então olhou para mim.
Ele me reconheceu.
— Vocês não deveriam ter vindo.
— Onde ela está?
— Agora vocês pioraram tudo.
Henrique encontrou um rádio preso ao cinto dele.
Uma voz surgiu do aparelho.
— Unidade três, responda.
Ninguém falou.
Depois:
— Marcelo?
Meu olhar encontrou o de Henrique.
Então ouvimos passos no piso superior.
Marcelo Farias estava ali.
Subimos pela escada lateral.
No segundo andar havia escritórios improvisados, telas de computador e caixas com documentos.
Não era apenas um esconderijo.
Era uma central operacional.
Em uma parede havia fotografias.
Oficiais.
Promotores.
Funcionários públicos.
Empresários.
Familiares.
Ao lado de cada nome, anotações sobre vulnerabilidades.
Henrique olhou ao redor.
— Meu Deus.
Eu encontrei minha própria ficha.
Depois encontrei a da minha filha.
Havia horários da escola, fotografias dela brincando num parque e até uma anotação sobre o desenho animado de que gostava.
Por um instante, minha visão escureceu.
Não permiti que a raiva assumisse o controle.
Ainda não.
Um barulho veio do corredor.
Seguimos.
A porta no final estava trancada.
Henrique fez sinal para a equipe.
Antes que avançássemos, uma voz saiu do outro lado.
— General Carlos.
Marcelo.
— Se entrar, ela morre.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
— Quero ouvi-la.
— Já ouviu.
— Quero ouvir de novo.
Silêncio.
Então um choro baixo.
— Pai...
Minha filha estava ali.
Fechei os olhos por um segundo.
— Estou aqui.
— Não entra.
A voz dela tremia.
— Eles disseram que vão machucar você.
Minha garganta apertou.
— Ninguém vai machucar ninguém.
Marcelo riu.
— Ainda acha que controla alguma coisa?
— Se quisesse matar minha filha, já teria feito.
Nenhuma resposta.
Continuei.
— Você precisa dela porque precisa de mim.
— Finalmente entendeu.
— Então fale comigo.
Henrique apontou para uma pequena abertura na parede lateral.
A planta mostrava um depósito conectado à sala.
Duas equipes começaram a contornar o corredor.
Eu mantive Marcelo falando.
— Ferraz mandou você?
Ele soltou uma risada.
— Ferraz não manda mais em ninguém.
Aquilo confirmou minha suspeita.
— Então quem manda?
— O senhor continua achando que isso é sobre um general corrupto e meia dúzia de contratos.
— Me explique.
— O Grupo Vértice movimentou bilhões durante anos.
— E?
— E militares são apenas uma parte.
Minha expressão não mudou.
— Quem está acima de Ferraz?
Marcelo ficou em silêncio.
Ouvi alguma coisa sendo arrastada do outro lado.
— Retire suas declarações — disse ele. — Diga que os documentos foram manipulados. Depois disso, talvez sua filha volte para casa.
— Talvez?
— Não complique.
Nesse instante, uma das equipes chegou à posição.
Henrique levantou três dedos.
Depois dois.
Um.
A porta lateral foi arrombada.
Tudo aconteceu em segundos.
Gritos.
Movimento.
Uma cadeira caindo.
Entrei logo atrás da primeira equipe.
Marcelo estava segurando minha filha pelo braço.
Na outra mão havia uma arma.
— Parem!
Todos congelaram.
Minha filha chorava silenciosamente.
Marcelo encostou a arma na própria lateral, tentando usá-la como escudo.
— Eu avisei!
Olhei apenas para ela.
— Olha para mim.
Ela levantou os olhos.
— Pai...
— Lembra do que sempre fazemos quando você está com medo?
Ela respirou rápido.
— Contar.
— Isso.
— Um...
— Muito bem.
Marcelo gritou:
— Cale a boca!
Ela fechou os olhos.
— Dois...
Ele se distraiu.
Só por uma fração de segundo.
Foi suficiente.
Um dos homens da equipe avançou.
Marcelo perdeu o equilíbrio.
A arma caiu.
Eu corri.
Peguei minha filha antes que ela tocasse o chão.
Ela passou os braços pelo meu pescoço e começou a chorar de uma forma que jamais vou esquecer.
— Eu sabia que você vinha.
Apertei-a contra mim.
— Sempre.
Atrás de nós, Marcelo foi algemado.
Mas, antes que o levassem, gritou:
— Vocês acham que acabaram com alguma coisa?
Virei-me.
— Não.
Ele sorriu.
— Então sabe.
— Sei que você vai falar.
O sorriso desapareceu.
Henrique encontrou um telefone criptografado no bolso dele.
A equipe técnica conseguiu desbloquear parte do conteúdo ainda no local.
Havia mensagens enviadas naquela manhã.
Uma delas havia sido recebida às oito e doze.
Poucos minutos antes do início da audiência.
“Se Carlos insistir, retire a menina. Ferraz pode ser descartado.”
A mensagem não vinha de Ferraz.
Nem de Renato.
Nem de qualquer pessoa que já tivéssemos identificado.
Mas o número estava associado a um aparelho que, segundo os registros de localização, passara a manhã inteira dentro do mesmo prédio onde acontecera a audiência.
Henrique olhou para mim.
— Então havia alguém lá dentro acompanhando tudo.
Assenti.
Minha filha ainda estava nos meus braços.
— Alguém que sabia exatamente quando Ferraz cairia.
Voltamos à área administrativa e cruzamos os dados de acesso.
Quarenta e três pessoas haviam entrado no prédio naquela manhã.
Oficiais.
Assessores.
Advogados.
Funcionários civis.
A equipe filtrou os aparelhos conectados à rede.
Restaram seis.
Depois três.
Então um.
Henrique ampliou o nome na tela.
Fiquei olhando para ele sem dizer nada.
Era impossível.
Aquele homem não apenas participava da audiência.
Ele havia sido uma das primeiras pessoas a apoiar minha investigação.
E, durante mais de quinze anos, eu o considerara um amigo.
Continua — clique na Parte 8 para continuar lendo.







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