O nome na tela era major-general Eduardo Sampaio.
Durante quinze anos, Eduardo havia estado ao meu lado em reuniões, operações e cerimônias.
Quando minha esposa morreu, anos antes, ele fora uma das poucas pessoas do Exército que apareceu em minha casa sem uniforme, sem discursos e sem perguntas.
Sentara-se comigo na cozinha enquanto minha filha, ainda muito pequena, dormia no quarto.
Eu confiava nele.
E talvez fosse exatamente por isso que funcionara por tanto tempo.
Henrique ampliou os registros.
O aparelho criptografado conectado às mensagens de Marcelo havia entrado no prédio da audiência às sete e cinquenta e seis.
Eduardo chegara às sete e cinquenta e quatro.
O dispositivo permanecera ativo até poucos minutos depois do desaparecimento da minha filha.
— Pode ser um aparelho colocado perto dele — disse Henrique.
Eu sabia por que estava dizendo aquilo.
Ele queria ter certeza.
Eu também.
— Cruze com as câmeras internas.
A equipe levou menos de três minutos.
Eduardo aparecia entrando em uma sala reservada no corredor lateral às oito e onze.
Às oito e doze, a mensagem para Marcelo fora enviada.
“Se Carlos insistir, retire a menina. Ferraz pode ser descartado.”
Meu peito ficou pesado.
Não havia mais coincidência.
— Onde ele está agora?
Uma analista verificou o sistema.
— Saiu do prédio quinze minutos depois da suspensão da audiência.
— Destino?
— Veículo oficial entrou no Quartel-General do Comando às dez e quarenta e dois.
Henrique me encarou.
— Ele sabe que Marcelo foi capturado?
Olhei para o telefone apreendido.
— Ainda não necessariamente.
Marcelo não havia conseguido enviar nenhuma mensagem depois da invasão.
Eduardo poderia acreditar que sua operação continuava intacta.
Aquilo nos dava uma única vantagem.
Minha filha estava segura.
Essa era a condição para que eu pudesse pensar novamente como militar.
Acompanhei-a até a equipe médica.
Antes que entrasse na ambulância, ela segurou minha mão.
— Você vai embora?
— Preciso resolver uma coisa.
Ela abaixou os olhos.
— Por minha causa?
Ajoelhei-me.
— Escuta bem. Nada disso aconteceu por sua causa.
— Mas eles me pegaram porque você trabalha no Exército.
— Eles fizeram escolhas erradas porque estavam com medo da verdade.
Passei a mão pelo rosto dela.
— E você foi mais corajosa do que todos eles juntos.
Ela me abraçou.
Só depois que as portas da ambulância fecharam eu me levantei.
— Vamos buscar Eduardo.
Não fomos diretamente prendê-lo.
Primeiro, precisávamos saber quanto ele controlava.
Durante a hora seguinte, os investigadores copiaram o conteúdo do telefone de Marcelo e rastrearam uma rede de comunicações escondida atrás de números descartáveis.
Eduardo não aparecia pelo nome.
Usava apenas uma identificação:
“E1”.
Ferraz era “E2”.
Renato, “E4”.
Marcelo, “Operacional 3”.
Havia centenas de mensagens.
Pagamentos.
Ordens de vigilância.
Instruções para destruir relatórios.
Transferências entre empresas.
E nomes de pessoas que nunca haviam aparecido na investigação original.
O Grupo Vértice não era apenas beneficiário dos contratos.
Era o caixa.
Empresas fantasmas recebiam dinheiro de contratos superfaturados, enviavam parte dos valores ao exterior e devolviam outra parte por meio de consultorias e investimentos.
Ferraz protegia o esquema dentro das comissões.
Renato alterava registros.
Marcelo cuidava da pressão.
Eduardo coordenava tudo.
Mas uma mensagem me chamou a atenção.
Ela havia sido enviada por Eduardo a Ferraz três meses antes.
“Carlos não aceita dinheiro. Não procure fraqueza financeira. A filha é o único caminho.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Henrique percebeu que eu havia parado de respirar normalmente.
— Carlos.
— Ele conhecia minha família.
— Eu sei.
— Entrou na minha casa.
Henrique não respondeu.
— Segurou minha filha no colo quando ela tinha quatro anos.
Minha voz quase falhou.
Fechei a tela.
— Agora temos prova suficiente.
A Corregedoria Militar, o Ministério Público Militar e os investigadores estaduais concordaram em conduzir a abordagem conjuntamente.
Eduardo estava em uma sala de reuniões no terceiro andar quando chegamos.
Do lado de fora, parecia um dia comum.
Soldados caminhavam pelos corredores.
Telefones tocavam.
Documentos eram entregues.
Ninguém imaginava que uma das maiores operações internas daqueles anos estava prestes a atingir um oficial-general dentro do próprio quartel.
Entramos sem aviso.
Eduardo estava sozinho diante de uma mesa.
Quando me viu, levantou as sobrancelhas.
— Carlos.
Então percebeu quem estava atrás de mim.
Corregedoria.
Ministério Público.
Polícia.
Seu rosto não mudou.
— Aconteceu alguma coisa?
Coloquei sobre a mesa uma impressão da mensagem enviada a Marcelo.
Ele olhou.
Nenhuma reação.
— Não reconheço isso.
Coloquei a segunda página.
O registro do aparelho.
Depois a filmagem.
Depois as mensagens assinadas como E1.
Eduardo permaneceu calado.
— Minha filha está viva — falei.
Pela primeira vez, seus olhos se moveram rápido demais.
Foi mínimo.
Mas eu vi.
— Fico feliz.
— Não parece surpreso.
— Soube que havia uma operação de busca.
— Não havia comunicado oficial.
Silêncio.
A promotora militar colocou diante dele a ordem de busca e apreensão.
— General Sampaio, seus dispositivos e documentos funcionais serão recolhidos imediatamente.
Ele finalmente recostou-se na cadeira.
— Vocês não fazem ideia do que estão destruindo.
Essa frase eu já tinha ouvido antes.
— Foi o que todos disseram quando perceberam que tinham perdido o controle.
Eduardo olhou diretamente para mim.
— Você acha que isso é sobre dinheiro?
— Então diga sobre o que é.
Ele sorriu lentamente.
— Poder.
Os investigadores começaram a recolher os equipamentos.
Eduardo continuou me encarando.
— Empresas mudam. Oficiais se aposentam. Governos passam. Mas sistemas sobrevivem.
— Não este.
Ele quase riu.
— Ainda acredita que eu sou o topo?
Meu estômago endureceu.
Henrique parou de mexer numa das gavetas.
— O que quer dizer?
Eduardo não respondeu.
Nesse instante, um investigador encontrou um compartimento falso atrás de um armário.
Dentro havia três discos criptografados e uma pasta física marcada apenas com uma letra.
“R”.
A promotora abriu a pasta.
A primeira página continha registros de transferências internacionais.
A segunda, uma lista de reuniões.
A terceira fez todos na sala ficarem em silêncio.
Era uma relação de pagamentos autorizados durante oito anos.
No final, havia uma coluna intitulada:
“Destinatário final.”
O nome não era o de Eduardo.
Nem de Ferraz.
Era de alguém que eu conhecia apenas pela reputação.
Um homem que nunca deveria aparecer em um esquema daquele tipo.
Eduardo observou meu rosto e entendeu que eu tinha encontrado.
— Agora percebe? — perguntou.
Fechei a pasta.
— Percebo que você acabou de nos entregar a pessoa que acreditava nunca poder ser alcançada.
Pela primeira vez, Eduardo perdeu o sorriso.
Meu telefone tocou.
Era a promotora responsável pela equipe que analisava os documentos originais.
Atendi.
— General Carlos, encontramos uma ordem de transferência internacional programada para hoje à meia-noite.
— Quanto?
Ela respirou fundo.
— Quase quatrocentos milhões de reais.
— Destino?
— Uma sequência de contas no exterior.
Fiz uma pausa.
— Cancelem.
— Já solicitamos o bloqueio.
— E o destinatário final?
Silêncio.
— É o mesmo nome da pasta que o senhor acabou de encontrar.
Olhei para Eduardo.
A rede ainda não tinha terminado.
Mas agora ela tinha um centro.
E, pela primeira vez desde que encontrei minha filha chorando naquele depósito escuro, nós finalmente sabíamos onde atacar.
Continua — clique na Parte 9 para continuar lendo.







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