Nathan continuou olhando para os três meninos como se o movimento ao redor do aeroporto tivesse desaparecido. Pessoas passavam com malas, carros buzinavam na área de embarque, vozes se misturavam sob o teto de vidro, mas ele não parecia ouvir nada. Carolina conhecia aquele silêncio. Durante o casamento, Nathan ficava assim quando tentava organizar um problema que se recusava a caber em sua lógica. Só que, daquela vez, não havia planilha, advogado ou reunião capaz de resolver o que estava diante dele. O menino mais velho, desconfortável com a atenção daquele estranho, apertou ainda mais a mão da mãe.
— Mãe, nós vamos para casa agora?
Carolina baixou os olhos e sorriu, embora seu peito estivesse apertado.
— Vamos, Gabriel. O tio Marcelo já está esperando.
Nathan reagiu ao nome imediatamente.
— Gabriel?
O menino virou o rosto.
— Sim.
Nathan respirou pela boca, lentamente. Gabriel era o nome de seu avô, o homem que o criara durante grande parte da infância e que morrera dois anos antes do divórcio. Carolina percebeu o momento exato em que ele entendeu que aquilo dificilmente poderia ser coincidência. Então o segundo menino deu um pequeno puxão na blusa dela.
— E eu estou com fome.
— Você sempre está com fome, Lucas.
O terceiro, menor e mais inquieto, ergueu as duas mãos.
— Eu também!
Nathan fechou os olhos por um segundo. Gabriel. Lucas. Miguel. Três nomes que ele e Carolina haviam escrito anos atrás, numa folha amassada guardada dentro de um livro, quando ainda viviam em Campinas e mal tinham dinheiro para pagar aluguel. Eles brincavam sobre como chamariam os filhos se algum dia tivessem uma família. Carolina havia esquecido que Nathan talvez ainda se lembrasse. Pelo modo como ele a encarava agora, ficou claro que lembrava.
— Você usou os nomes.
A voz dele saiu rouca.
Carolina ficou imóvel.
— Não faça isso aqui.
— São meus filhos?
Ela olhou rapidamente para os meninos. Gabriel observava tudo com atenção demais para uma criança de quatro anos. Lucas parecia confuso. Miguel havia perdido o interesse e brincava com a alça da mala. Carolina sentiu a raiva subir, não explosiva, mas antiga, pesada, construída durante cinco anos de noites em claro, consultas médicas, febres infantis, primeiros passos e aniversários em que três cadeiras ficavam ocupadas e uma quarta nunca existia.
— Você não tem o direito de fazer essa pergunta na frente deles.
Nathan pareceu receber as palavras como um golpe.
— Então me responda em outro lugar.
— Não.
Ele piscou.
— Não?
— Você teve sua oportunidade há cinco anos.
O motorista do Bentley, um homem grisalho chamado Marcelo, finalmente se aproximou. Carolina o conhecia desde que começara a trabalhar em Brasília, três anos antes. Mais do que motorista, ele se tornara uma espécie de avô adotivo para os meninos. Ao perceber a tensão, colocou-se discretamente ao lado de Gabriel.
— Está tudo bem, doutora?
Nathan olhou para ele.
Doutora.
A palavra pareceu surpreendê-lo quase tanto quanto as crianças.
Carolina assentiu.
— Está. Vamos embora.
Nathan deu um passo à frente.
— Carolina, por favor.
Ela parou.
Talvez fosse o tom. Nathan nunca dizia por favor quando estava assustado. Ele negociava. Ordenava. Argumentava. Mas naquele momento havia algo diferente em seu rosto, algo próximo de desespero.
— Quem era André Collins?
Carolina sentiu o sangue esfriar.
Por cinco anos, esperara que ele finalmente fizesse aquela pergunta.
Cinco anos tarde demais.
— Meu médico.
Nathan franziu o cenho.
— Médico de quê?
Ela sustentou o olhar dele.
— Fertilidade.
O silêncio entre eles ficou brutal.
Nathan abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Carolina continuou antes que perdesse a coragem.
— Nós tentávamos ter filhos havia quase dois anos. Você lembra disso, certo? Lembra das consultas que nunca podia acompanhar porque tinha reuniões? Lembra dos exames que eu dizia que precisava fazer?
O rosto de Nathan começou a mudar.
Claro que lembrava.
Carolina havia insistido durante meses para que ambos procurassem ajuda. Nathan dizia que fariam isso depois da próxima rodada de investimentos, depois da expansão para Minas Gerais, depois da viagem a Londres. Sempre depois.
— André estava acompanhando meu tratamento — continuou ela. — Naquela semana, eu descobri que estava grávida.
Nathan levou uma das mãos à boca.
— As mensagens...
— “Você já contou para ele?” — Carolina repetiu. — “Não espere mais.” “Ele merece saber.” Era sobre você. Sobre a gravidez.
Nathan ficou pálido.
Os olhos dele se encheram de algo que Carolina não conseguia suportar olhar por muito tempo.
— Você estava grávida quando eu pedi o divórcio?
— Sim.
— Por que não me contou?
Carolina soltou uma risada curta, sem humor.
— Eu tentei.
Nathan balançou a cabeça rapidamente.
— Não. Você disse que precisava conversar.
— E você gritou que não queria ouvir mais nenhuma mentira.
A lembrança pareceu atingir os dois ao mesmo tempo. A tempestade naquela noite. A luz dos relâmpagos entrando pelas janelas. Margarida parada no corredor. Nathan jogando o celular sobre a mesa. Carolina com uma pequena caixa branca escondida dentro da bolsa, onde havia colocado três sapatinhos minúsculos depois que o médico lhe explicara que havia algo incomum na ultrassonografia inicial.
Naquela época, ainda não sabia que seriam três meninos.
Só sabia que estava grávida.
— No dia seguinte — disse Carolina — seus advogados apareceram.
Nathan abaixou a cabeça.
— Eu não sabia.
— Porque não quis saber.
A frase foi baixa, mas definitiva.
Gabriel puxou a mão da mãe novamente.
— Mãe, quem é ele?
Dessa vez Carolina não conseguiu responder imediatamente.
Nathan ergueu o rosto.
Seus olhos estavam vermelhos.
Carolina percebeu que precisava encerrar aquilo antes que os filhos começassem a compreender mais do que deveriam. Segurou Gabriel e Lucas pelas mãos enquanto Marcelo pegava Miguel no colo.
— Nós vamos embora.
Nathan não tentou impedi-la.
Mas, quando Carolina abriu a porta do Bentley, ele falou atrás dela.
— Eu quero fazer um teste de DNA.
Ela congelou.
Devagar, virou-se.
— Não porque eu ache que você está mentindo — acrescentou Nathan rapidamente. — Eu preciso... eu preciso ter certeza antes de fazer qualquer coisa.
Carolina sentiu uma velha decepção atravessar seu peito.
Cinco anos haviam passado.
E Nathan ainda precisava de provas antes de confiar nela.
— É claro que precisa.
Ela entrou no carro.
A porta começou a fechar, mas Nathan colocou a mão na parte superior sem tocá-la diretamente.
— Carolina, existe mais alguma coisa que eu deveria saber?
Por um segundo, ela pensou em dizer não.
Então lembrou-se do envelope guardado dentro do cofre de seu escritório. O resultado de um exame feito quando os meninos tinham seis meses. O documento que jamais tivera coragem de enviar.
Porque o teste de DNA já havia sido realizado.
E não era a paternidade de Nathan que tornava aquele documento perigoso.
Era o nome da pessoa que havia solicitado o exame às escondidas.
Carolina encarou Nathan.
— Existe.
Ele ficou imóvel.
— O quê?
Ela puxou a porta lentamente.
— Pergunte à sua mãe por que ela já sabia da existência dos meninos antes mesmo de você me encontrar hoje.







No comments yet