Apertei o celular contra o ouvido e olhei para Camila. Ela percebeu pela minha expressão que alguma coisa havia mudado. Marcelo não parecia apressado. Isso me assustou mais do que se estivesse gritando.
— O que acontece na sexta-feira? — perguntei.
— Antes de responder, preciso saber uma coisa. Renato está aí?
— Não.
— Tem certeza?
Olhei instintivamente para a porta.
— Ele saiu há poucos minutos.
Marcelo soltou o ar devagar.
— Então não deixe que ele saiba que falei com a senhora.
— Meu filho falsificou minha assinatura?
Do outro lado, silêncio.
— Senhor Marcelo?
— Eu não sabia que era falsa.
Camila se aproximou, tentando ouvir.
— Que documento é esse? — perguntei.
— Uma garantia particular. Renato apresentou documentação suficiente para convencer as pessoas envolvidas de que tinha autorização sobre o imóvel.
— “As pessoas envolvidas” quem?
— Isso é mais complicado.
Minha paciência terminou.
— O senhor ligou para minha casa, está cobrando meu filho, meu nome aparece num documento que nunca assinei e agora diz que é complicado? Quero saber o que acontece sexta-feira.
A voz dele ficou mais baixa.
— O prazo vence. Se Renato não apresentar o valor combinado, o credor vai executar a garantia.
— Não pode executar uma casa que não pertence ao devedor.
— Legalmente, talvez não. Mas Renato criou uma situação que pode levar meses para ser desfeita. E há outro problema.
Fechei os olhos.
Sempre havia outro problema.
— Qual?
— O documento que a senhora encontrou provavelmente não é o único.
Meu corpo esfriou.
— Quantos existem?
— Eu não sei.
— Como assim não sabe?
— Porque eu não sou o credor, dona Helena.
Camila e eu nos entreolhamos.
— Então quem é o senhor?
— Eu intermediei o negócio original do apartamento. Depois tentei ajudar Renato quando percebi onde ele tinha se metido.
— E onde ele se meteu?
Marcelo hesitou.
— Pergunte a ele sobre Eduardo Ferraz.
Antes que eu pudesse insistir, ele acrescentou:
— E não assine nada. Mesmo que Renato diga que é apenas para cancelar a venda.
A ligação terminou.
Fiquei olhando para a tela.
Camila repetiu o nome lentamente.
— Eduardo Ferraz.
— Você conhece?
Ela demorou alguns segundos.
— Talvez.
A resposta me surpreendeu.
— Como assim?
Camila pegou o próprio celular e começou a procurar mensagens antigas. Seus dedos tremiam.
— No ano passado, Renato começou a sair algumas noites dizendo que encontraria um cliente. Uma vez, ele deixou o celular carregando e apareceu uma mensagem na tela. Eu não abri. Só vi o nome.
Ela levantou os olhos.
— Eduardo.
— E você nunca perguntou?
— Perguntei. Renato disse que era fornecedor.
Encontramos poucas referências ao nome nas conversas dela com o marido. Nenhuma esclarecia nada. Ainda assim, uma mensagem enviada por Camila oito meses antes chamou minha atenção: “O Eduardo ligou novamente. Disse que você sabe por quê.”
Renato havia respondido apenas: “Bloqueia.”
Senti uma mistura dolorosa de raiva e tristeza. Meu filho não havia começado a mentir naquela semana. Ele vinha construindo aquilo havia meses, talvez anos.
— Precisamos descobrir o que ele fez — Camila disse.
Fui até o escritório novamente.
Dessa vez não procurei documentos. Procurei qualquer coisa que Renato pudesse ter esquecido na pressa de esconder os papéis. Revirei pastas antigas, caixas, recibos. Camila verificava uma estante quando encontrou uma pequena chave presa com fita adesiva atrás de uma fotografia.
Reconheci a foto imediatamente. Renato, ainda adolescente, ao lado do pai.
— Isso sempre esteve aqui? — ela perguntou.
— Não.
A chave era pequena demais para uma porta.
Começamos a procurar.
Demoramos quase vinte minutos até Camila perceber uma caixa metálica no alto do armário. Eu nunca a tinha visto. A chave serviu.
Dentro havia extratos, contratos e um celular antigo.
Camila ligou o aparelho. Ainda tinha bateria.
— Tem senha.
Olhei para a fotografia.
Digitei a data de nascimento do pai de Renato.
O telefone abriu.
Camila me encarou.
Eu não soube se aquilo deveria me confortar ou me destruir.
Havia dezenas de mensagens com Eduardo. Começamos pelas mais recentes.
“Você tem até sexta.”
“Não me interessa de quem é a casa.”
“Você garantiu que Helena assinaria.”
Depois apareceu uma mensagem de Renato:
“Minha mãe não pode descobrir antes de sair.”
Minha garganta fechou.
Continuei descendo.
A história começou a surgir aos pedaços. Renato havia comprado um pequeno apartamento havia quase dois anos, aparentemente esperando revendê-lo rapidamente com lucro. Pegara dinheiro emprestado para completar a compra. O negócio fracassara. Depois tentara recuperar a perda entrando em outro investimento.
Perdera novamente.
Então fizera novos empréstimos para pagar os anteriores.
Camila sentou-se no chão.
— Ele estava tentando cobrir uma dívida com outra.
— Sim.
Mas havia algo estranho.
Os valores não batiam.
Mesmo somando os investimentos mencionados nas mensagens, não chegávamos perto dos R$ 347.600 da cobrança.
Continuei procurando.
Foi então que encontrei uma fotografia enviada por Eduardo.
Era a imagem de um contrato.
Ampliei.
No documento aparecia um valor de R$ 220.000 e, abaixo, uma descrição que fez meu coração disparar:
“Capital destinado à aquisição de participação societária.”
— Participação em quê? — Camila perguntou.
Procurei mensagens anteriores.
Renato escrevera:
“Quando a empresa for vendida, pago tudo.”
Empresa.
Não apartamento.
Havia outro negócio.
E Renato havia escondido isso até de Marcelo.
Antes que conseguíssemos descobrir o nome da empresa, ouvimos um carro parar diante da casa.
Camila correu até a janela.
— É Renato.
Fechei a caixa metálica.
— Não diga que encontramos isso.
— Por quê?
— Porque quero ouvir a versão dele antes que saiba o quanto sabemos.
Colocamos tudo de volta rapidamente. Camila guardou o celular antigo no bolso do casaco.
Renato entrou poucos segundos depois.
Parecia diferente. Mais abatido. O cabelo estava molhado pela garoa e ele carregava uma pasta preta.
Seus olhos foram imediatamente para a mesa.
O documento com minha assinatura falsa ainda estava ali.
Ele parou.
— Onde vocês encontraram isso?
— No seu escritório — respondi.
Renato fechou a porta.
Camila cruzou os braços.
— Quem é Eduardo Ferraz?
O rosto dele perdeu a cor.
— Quem falou esse nome?
— Responde.
Renato colocou a pasta sobre a mesa.
— Eduardo não é o problema.
— Um homem cobrando quase trezentos e cinquenta mil reais não é o problema? — Camila perguntou.
Renato olhou para mim.
— Mãe, eu preciso que você confie em mim só mais uma vez.
Quase ri.
— Foi exatamente isso que fiz durante sessenta e quatro anos.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu nunca quis tomar sua casa.
Apontei para minha assinatura.
— Então explique isso.
Renato puxou uma cadeira e sentou-se.
Pela primeira vez naquela manhã, meu filho parecia não ter forças para continuar mentindo.
— Eu precisava mostrar uma garantia temporária. Achei que resolveria antes que qualquer coisa acontecesse.
— Você falsificou minha assinatura.
— Eu sei.
— Diga olhando para mim.
Ele levantou os olhos.
— Eu falsifiquei sua assinatura.
Ouvir a confissão doeu mais do que descobrir o documento.
Camila virou o rosto, contendo as lágrimas.
— E o apartamento?
— Eu perdi.
— Como?
Renato permaneceu calado.
— Eduardo tomou?
— Não.
— Então quem tomou?
Ele apertou as mãos.
— O apartamento nunca foi realmente meu.
Camila franziu a testa.
— Você disse que comprou.
— Eu achei que tinha comprado.
A frase deixou a sala em silêncio.
Renato abriu a pasta preta e retirou alguns documentos.
— Há quase dois anos, entrei num negócio com Eduardo e mais duas pessoas. Comprávamos imóveis com problemas judiciais, regularizávamos e revendíamos. O apartamento foi o primeiro.
— E deu errado — falei.
— Não exatamente. Descobri depois que Eduardo já sabia que aquele imóvel tinha uma disputa que não poderia ser resolvida no prazo que ele prometeu.
— Então ele enganou você?
Renato me olhou.
— No começo, achei que sim.
— E agora?
Ele empurrou um documento em minha direção.
— Agora acho que alguém queria que eu entrasse naquele negócio.
Peguei o papel.
Era uma cópia de um contrato societário. Havia três nomes.
Eduardo Ferraz.
Renato Duarte.
E um terceiro que eu conhecia.
Demorei alguns segundos para aceitar o que estava vendo.
Camila percebeu.
— Dona Helena?
Não respondi.
O terceiro nome era Paulo Duarte.
Meu cunhado.
O irmão mais velho do meu falecido marido.
Um homem que não via havia quase onze anos.
— Isso é impossível — murmurei.
Renato abriu a boca, mas o celular antigo vibrou dentro do bolso de Camila.
Todos ouvimos.
Renato ficou imóvel.
Camila percebeu tarde demais.
— Que telefone é esse?
Ela não respondeu.
Renato se levantou.
— Camila, onde você encontrou esse celular?
Ela o retirou lentamente.
Uma nova mensagem havia acabado de chegar.
Não era de Eduardo.
O remetente estava salvo apenas como “P”.
Camila abriu.
Havia uma fotografia tirada naquela mesma manhã.
Eu aparecia nela, diante da minha própria casa, ao lado da mala que Renato colocara na porta.
Abaixo da foto havia uma única frase:
“Ela ainda não sabe que a casa nunca esteve totalmente no nome dela.”







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