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Meu Filho Colocou Minha Mala Na Porta E Disse Que Eu Não Morava Mais Ali — Então Descobri Por Que Ele Precisava Tanto Da Minha Casa

O nome de Lúcia trouxe de volta uma lembrança que eu havia passado onze anos tentando transformar em algo sem importância. Três dias depois do enterro de Augusto, ela aparecera na minha porta usando um casaco escuro, os olhos inchados, segurando uma caixa com uma calculadora, duas canetas, alguns documentos sem valor e a velha caneca que ele mantinha no trabalho. Ficara menos de dez minutos. Antes de sair, porém, segurara meu braço e fizera aquele pedido estranho sobre Paulo e Renato. Na época, achei que fosse consequência do luto, talvez algum conflito profissional que eu desconhecia. Agora, diante da imagem da câmera de segurança, percebi que Lúcia sabia muito mais do que dissera.

— Onde ela está? — perguntei.

Renato continuava olhando para a tela.

— Eu não sei.

— Você disse que conhece.

— Conheci. Ela entrou em contato comigo no começo do negócio com Eduardo.

Camila virou-se lentamente para ele.

— Claro. Sempre existe mais alguma coisa que você esqueceu de contar.

Renato suportou a acusação sem responder.

— O que Lúcia queria? — perguntei.

— Me alertar.

— Sobre Eduardo?

— Sobre todo mundo.

Ele contou que Lúcia telefonara aproximadamente vinte meses antes, pouco depois de Eduardo lhe oferecer o apartamento. Disse apenas que soubera que Renato estava “mexendo em coisas antigas” e aconselhou que desistisse. Renato perguntou como ela sabia. Lúcia desligou. Depois enviou uma mensagem com um endereço e pediu um encontro. Ele não foi.

— Por quê?

Renato abaixou os olhos.

— Eduardo disse que ela tinha roubado dinheiro da empresa do pai.

— E você acreditou nele.

— Naquele momento, sim.

Senti uma tristeza funda. Renato havia passado meses escolhendo acreditar em qualquer pessoa que prometesse dinheiro rápido, desde que essa pessoa não fosse a própria família.

Sérgio imprimiu a imagem da câmera e nos mostrou o registro da visita. Lúcia estivera ali seis meses antes, exatamente na época em que Camila começara a perceber os primeiros saques estranhos nas contas do casal.

— Ela levou alguma coisa? — perguntei.

— Não vi — Sérgio respondeu. — Disse que procurava documentos que pertenciam ao Augusto. Não permiti que abrisse o armário.

— Então quem esvaziou a caixa?

— É isso que não entendo.

Sérgio acessou novamente as gravações. Os arquivos mais antigos eram apagados automaticamente, mas ele guardara alguns trechos porque houvera uma tentativa de arrombamento naquela mesma semana.

— Três noites depois da visita dela, alguém entrou pelos fundos.

A gravação mostrava apenas uma figura encapuzada atravessando rapidamente o corredor. Não dava para reconhecer o rosto. O invasor permaneceu menos de sete minutos no prédio.

— E o armário? — Renato perguntou.

— Não parecia mexido. Por isso achei que não tinham levado nada.

Olhei para a caixa vazia.

Quem entrara sabia exatamente o que procurar.

Saímos dali com mais perguntas do que respostas. Dentro do carro, Camila pesquisou o nome de Lúcia. Encontrou um endereço comercial antigo, um telefone desativado e, finalmente, uma pequena empresa de contabilidade registrada em São José dos Pinhais.

Liguei.

Uma mulher atendeu.

— Gostaria de falar com Lúcia Menezes.

Silêncio.

— Quem gostaria?

— Helena Duarte.

A ligação ficou muda por alguns segundos.

— Dona Helena... espere.

Ouvi passos e uma porta fechando.

Então uma voz que eu não escutava havia onze anos surgiu do outro lado.

— Helena?

Reconheci imediatamente.

— Lúcia.

Ela respirou fundo.

— Augusto deixou alguma coisa para você, não deixou?

Não respondi.

— Precisamos conversar — falei.

— Não pelo telefone.

Combinamos um encontro em uma cafeteria movimentada. Lúcia insistiu que Renato não fosse.

Ele ouviu.

— Eu vou.

— Não — respondi.

— Mãe, ela pode estar envolvida.

— E você também está. Mesmo assim continuo conversando com você.

A frase o calou.

Camila decidiu me acompanhar. Renato ficaria esperando no carro, contra sua vontade.

Lúcia chegou dez minutos atrasada. Estava mais velha, naturalmente, mas reconheci o mesmo jeito cauteloso. Antes de sentar, olhou duas vezes para a rua.

— Você encontrou a carta?

— Encontrei.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Então Augusto estava certo.

— Sobre o quê?

— Que Paulo voltaria quando precisasse das assinaturas.

Coloquei a fotografia de 1992 sobre a mesa.

Lúcia ficou pálida ao ver Álvaro Ferraz.

— Onde conseguiu isso?

— Augusto guardou.

Ela passou o dedo pela borda da foto.

— Esses três começaram juntos. Mas Augusto foi o primeiro a perceber que Paulo e Álvaro estavam usando a empresa para movimentar patrimônio sem registrar tudo corretamente.

— Meu marido descobriu uma fraude?

— Várias.

Segundo Lúcia, Augusto passara o último ano de vida reconstruindo operações antigas. Descobrira que Paulo transferira imóveis da empresa para sociedades controladas por terceiros. Álvaro produzia contratos aparentemente legais. Quando Augusto ameaçou denunciar tudo, surgiu o documento afirmando que ele vendera suas cotas.

— Ele tentou provar que a assinatura era falsa — Lúcia disse. — Eu ajudei.

— Por que nunca me contou?

Ela me encarou com culpa.

— Porque Augusto me fez prometer.

— Meu marido morreu e você sabia que alguém tinha falsificado a assinatura dele.

— Eu também estava com medo.

A raiva que senti não era apenas contra ela. Era contra todos aqueles anos em que outras pessoas haviam decidido o que eu deveria ou não saber.

— E a fita de vídeo?

Lúcia ficou imóvel.

Camila percebeu.

— Você sabe da fita.

— Como vocês descobriram?

Contei sobre a caixa vazia.

Lúcia apertou as mãos.

— Augusto gravou uma reunião.

— Com Paulo?

— Com Paulo e Álvaro.

Meu coração acelerou.

— O que havia na gravação?

— Uma discussão sobre as transferências. Paulo admitia que algumas assinaturas tinham sido feitas sem autorização. Álvaro dizia que poderia “corrigir os papéis depois”. Augusto escondeu a fita porque sabia que, se eles descobrissem, destruiriam.

— Você pegou?

— Não.

— Então por que foi à oficina seis meses atrás?

Ela hesitou.

— Porque alguém me procurou.

— Quem?

— Eduardo Ferraz.

Camila e eu nos entreolhamos.

— O que ele queria?

— A fita.

— Por quê?

Lúcia respirou fundo.

— Porque Eduardo não está trabalhando com o pai.

Aquilo contrariava tudo que imaginávamos.

— Álvaro ainda está vivo? — perguntei.

— Está. E Eduardo passou anos tentando provar o que ele fez.

— Então por que envolveu Renato?

Lúcia olhou pela janela. Renato estava dentro do carro, observando.

— Porque Eduardo acreditava que Renato sabia onde Augusto tinha escondido os documentos.

— E quando percebeu que ele não sabia?

— Continuou usando o negócio do apartamento para mantê-lo por perto.

Camila ficou indignada.

— Ele levou Renato a uma dívida de quase trezentos e cinquenta mil reais para encontrar uma fita?

— Não. Essa dívida não é com Eduardo.

— Então com quem?

Lúcia olhou novamente para Renato.

— Paulo.

Meu estômago afundou.

— Renato disse que o credor era outra pessoa.

— Talvez porque ainda não saiba.

Lúcia abriu a bolsa e retirou uma pasta fina.

— Paulo usa intermediários. Empresas diferentes, contratos diferentes. Mas o dinheiro termina no mesmo lugar.

Dentro havia registros de transferências bancárias e nomes de empresas. Uma delas era exatamente a empresa que aparecia na cobrança encontrada por Camila.

— Então Paulo emprestou dinheiro ao próprio sobrinho sem que ele soubesse? — perguntei.

— E colocou a casa como objetivo final.

A peça se encaixou de forma assustadora.

Paulo não queria apenas receber dinheiro.

Queria alguma coisa ligada à propriedade.

— Por quê?

Lúcia retirou outro documento.

— Porque Augusto cometeu um erro quando tentou proteger você.

Era uma cópia de uma alteração contratual da Duarte Participações, datada poucas semanas antes da morte dele.

— Augusto percebeu que poderiam falsificar outra transferência. Então registrou uma proteção.

Li lentamente.

Em caso de morte de Augusto, determinados direitos sobre as cotas e sobre um conjunto de imóveis não seriam transferidos diretamente a Renato.

Seriam vinculados a mim.

— Eu herdei a participação dele?

— Tecnicamente, mais do que isso — Lúcia respondeu. — Augusto vinculou a recuperação das cotas a uma condição. Enquanto você mantivesse a propriedade da casa, Paulo não poderia consolidar certas transferências antigas sem contestar judicialmente seus direitos.

Camila entendeu primeiro.

— Por isso Renato precisava vender a casa.

— Sim.

Senti o sangue gelar.

— Então meu filho estava sendo usado para me fazer abrir mão da única coisa que impedia Paulo de concluir o que começou onze anos atrás.

Lúcia assentiu.

Olhei pela janela para Renato.

Ele estava falando ao telefone.

De repente, levantou a cabeça e olhou diretamente para nós.

Lúcia empalideceu.

— Com quem ele está falando?

Meu celular vibrou.

Era uma mensagem de Renato.

“Não saiam daí. Paulo está aqui.”

Olhei para a rua.

Do outro lado, um homem de cabelos grisalhos acabava de sair de um carro preto.

Mesmo depois de onze anos, reconheci meu cunhado imediatamente.

Paulo não atravessou a rua. Apenas ficou parado junto ao carro, olhando para a cafeteria.

Então meu telefone tocou.

O nome de Renato apareceu.

Atendi.

— Mãe, escuta e não interrompe. Paulo acabou de me contar por que a fita desapareceu.

Olhei para Lúcia.

Ela também parecia assustada.

— Ele disse que não foi ele quem pegou.

— Então quem foi?

Houve alguns segundos de silêncio.

Quando Renato respondeu, sua voz estava diferente.

— Segundo Paulo, foi meu pai.

— Renato, seu pai morreu há onze anos.

— Eu sei.

— Então isso é impossível.

— A fita que estava naquela caixa desapareceu seis meses atrás. Mas Paulo não está falando dessa fita.

Meu coração acelerou.

— Do que ele está falando?

— Ele disse que Augusto fez uma segunda cópia antes de morrer.

Olhei para Lúcia.

Toda a cor desapareceu do rosto dela.

Renato continuou:

— E disse que você sabe onde ela está.

Não precisei perguntar a quem ele se referia.

Lúcia já estava se levantando da cadeira.

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