Paulo segurava a fotografia com as duas mãos, como se o papel pudesse se desfazer.
— Meu pai morreu em novembro de 1996 — repetiu. — Eu reconheci o corpo. Augusto estava comigo no enterro.
Lúcia tomou a fotografia de suas mãos.
— E Roberto escreveu 1998.
— Ele pode ter errado a data.
— Meu irmão não erraria dois anos.
Observei o homem no canto. O rosto aparecia parcialmente, mas a semelhança com Augusto e Paulo era evidente. Havia, porém, outra possibilidade.
— A fotografia pode ter sido tirada antes e revelada depois.
Renato aproximou o celular.
— Não. Olha o prédio.
Na imagem, uma placa ao fundo mostrava o nome de uma empresa instalada ali. Paulo empalideceu.
— Essa empresa só alugou o galpão em 1998.
A história de nossa família acabava de ganhar outra rachadura.
O engenheiro nos chamou. A inspeção inicial indicava que o corredor subterrâneo estava estável, mas somente duas pessoas poderiam entrar acompanhadas por ele. Lúcia insistiu. Eu fui com ela.
Descemos por uma abertura estreita atrás da parede falsa. O ar era frio e carregado de poeira. O corredor terminava numa pequena sala de concreto. Não havia móveis, apenas prateleiras enferrujadas e três nichos na parede.
Dois estavam vazios.
No terceiro havia uma caixa metálica.
“3.”
Lúcia parou.
— Meu Deus.
O engenheiro verificou o entorno antes de permitir que nos aproximássemos. Não havia nada perigoso, apenas décadas de abandono.
A caixa não estava trancada.
Dentro encontramos livros contábeis, envelopes e várias fitas cassete. Nenhum sinal de Roberto, nenhum objeto pessoal que indicasse algo pior. Senti Lúcia respirar com alívio e frustração ao mesmo tempo.
Peguei o primeiro livro.
As páginas registravam empresas, terrenos e valores. Alguns nomes já conhecíamos. Outros eram novos.
Lúcia encontrou um envelope escrito pelo irmão.
Abriu com mãos trêmulas.
“Lúcia, se isto chegar até você, significa que não consegui voltar.”
Ela precisou parar.
Continuei lendo em voz baixa.
Roberto explicava que descobrira uma estrutura criada por Álvaro Ferraz para retirar patrimônio da Duarte Participações e transferi-lo para empresas controladas indiretamente. Mas havia uma revelação inesperada: o pai de Augusto e Paulo descobrira o esquema ainda em 1996.
E não morrera quando todos acreditavam.
Segundo Roberto, a morte fora registrada enquanto o homem permanecera escondido por algum tempo, tentando reunir provas sem alertar Álvaro.
— Por que fingiria a própria morte? — perguntei.
Lúcia continuou lendo.
A resposta estava poucas linhas abaixo.
Álvaro havia ameaçado destruir financeiramente os dois filhos caso o pai denunciasse as operações. Ele decidiu desaparecer oficialmente enquanto Augusto e Paulo acreditavam que estava morto, na esperança de protegê-los.
A estratégia fracassou.
Em 1998, Roberto o encontrara.
Os dois começaram a reunir documentos.
Então algo aconteceu.
A carta terminava abruptamente:
“Se Álvaro descobrir que ele está vivo, precisamos tirar Augusto da empresa antes de sexta...”
Nada depois.
Sexta.
A mesma palavra que perseguia nossa família décadas depois.
— Helena — Lúcia chamou.
Ela havia encontrado outra coisa no fundo da caixa.
Um gravador pequeno.
Uma fita estava dentro.
Subimos levando tudo.
Paulo permaneceu em silêncio quando contamos sobre o pai. Sua expressão não era de alguém que acabara de descobrir apenas uma fraude. Era abandono.
— Ele deixou a gente acreditar que estava morto.
— Talvez achasse que estava protegendo vocês — Camila disse.
Paulo riu sem humor.
— Augusto sofreu durante anos. Eu também. Se isso for verdade, proteção não é a palavra que eu usaria.
Eu compreendia aquela amargura. Augusto também havia tentado me “proteger” escondendo verdades. O resultado estava diante de nós.
Lúcia colocou a fita no gravador. Depois de alguns ruídos, uma voz masculina começou.
Roberto.
“Dia 17 de setembro de 1998. Álvaro descobriu a sala. Precisamos transferir os documentos.”
Outra voz surgiu.
O pai de Paulo e Augusto.
“Não. Se movermos tudo agora, ele saberá.”
Paulo fechou os olhos.
A voz continuou:
“Augusto não pode descobrir que estou vivo ainda. Ele vai tentar me procurar.”
Roberto perguntou:
“E Paulo?”
Uma longa pausa.
“Paulo já está comprometido demais com Álvaro.”
Paulo virou o rosto.
Então Roberto perguntou algo que fez todos nós prestarmos atenção.
“E o menino?”
A resposta veio imediatamente.
“Renato não tem nada a ver com isso. Mantenham meu neto longe.”
Renato ficou imóvel.
A gravação prosseguiu por alguns minutos, detalhando documentos e empresas. Então ouvimos uma porta abrir.
Álvaro apareceu.
A discussão ficou confusa. Não havia violência audível, apenas acusações.
Álvaro dizia que ninguém sairia dali levando os livros.
O pai de Augusto respondeu:
— Você já roubou o suficiente.
Então Álvaro disse:
— Eu não roubei sozinho.
Silêncio.
— Pergunte ao seu filho quem assinou as primeiras transferências.
Paulo levantou-se.
— Desliga.
Lúcia não desligou.
Na gravação, o pai perguntou:
— Qual deles?
Álvaro respondeu:
— Paulo.
Todos olharam para meu cunhado.
— Eu tinha vinte e poucos anos — ele disse. — Assinei documentos sem entender.
— Você disse que entrou nisso depois — Renato respondeu.
— Porque foi assim que aconteceu.
— A fita diz outra coisa.
Paulo ficou irritado.
— Álvaro está tentando jogar a culpa em mim numa gravação de quase trinta anos!
Eu me aproximei.
— Então fica e escuta.
Ele ficou.
A gravação continuou.
Álvaro acusava Paulo de ter assinado procurações que permitiram as primeiras transferências. O pai dos irmãos parecia devastado.
Então veio uma frase inesperada:
— Foi por isso que você me pediu para declarar sua morte?
O silêncio ao nosso redor tornou-se absoluto.
Paulo olhou para o gravador.
Álvaro respondeu:
— Você queria proteger seu filho. Eu apenas mostrei como.
Portanto, a falsa morte não fora apenas uma fuga de Álvaro.
O pai de Augusto e Paulo havia aceitado um plano criado por ele.
Lúcia desligou a fita.
— Precisamos entregar tudo às autoridades.
Dessa vez Renato não protestou.
— Sim.
Ele olhou para mim.
— Inclusive o documento que falsifiquei.
Assenti.
Meu filho respirou fundo.
— Eu assumo o que fiz.
Não o perdoei naquele instante. Mas aquela foi a primeira decisão verdadeiramente adulta que ouvi Renato tomar desde o início de tudo.
Paulo permaneceu afastado.
— Se esses livros forem entregues, tudo vem à tona.
— Esse é o objetivo — respondi.
— Inclusive coisas que Augusto fez.
A frase me atingiu.
— O que meu marido fez?
Paulo demorou.
— Depois que nosso pai desapareceu de verdade, Augusto descobriu parte da história. Ele decidiu não denunciar imediatamente.
— Por quê?
— Porque encontrou o pai vivo.
Senti meu coração parar por um instante.
— Quando?
— Em 1999.
— Augusto sabia?
— Sim.
— Então por que nunca me contou?
Paulo olhou para a caixa.
— Porque nosso pai pediu.
Outra promessa. Outro segredo.
— E o que aconteceu com ele depois?
— Eu não sei.
— Mentira.
— Dessa vez não.
Meu celular tocou.
Marcelo.
Atendi.
— Dona Helena, encontrei Eduardo.
— Onde?
— Ele está vindo até vocês. Mas Álvaro também sabe que a caixa foi encontrada.
Olhei para os documentos.
— Como?
— Porque alguém daqui avisou.
A ligação terminou.
Todos nós nos encaramos.
Alguém daquele pequeno grupo estava mantendo Álvaro informado.
Renato olhou para Paulo. Paulo olhou para Lúcia.
Então Camila falou:
— Não precisamos descobrir quem agora. Vamos sair daqui e entregar tudo.
Concordei.
O engenheiro chamou a segurança do local, e Paulo contatou um advogado. Organizamos os documentos em caixas. Pela primeira vez, senti que estávamos próximos de sair do labirinto.
Foi quando Lúcia abriu o último envelope encontrado no fundo da caixa 3.
Havia apenas uma certidão e uma fotografia recente.
Ela ficou imóvel.
— Helena...
Peguei a certidão.
Era um documento emitido sete meses antes.
Li o nome uma vez.
Depois novamente.
Antônio Duarte.
Pai de Augusto e Paulo.
A certidão não era de óbito.
Era uma procuração registrada em cartório.
Sete meses antes, Antônio ainda estava vivo.
Paulo quase arrancou o papel das minhas mãos.
— Isso é impossível.
A fotografia caiu do envelope.
Mostrava um homem muito idoso sentado numa varanda, segurando um jornal. No verso havia um endereço em Curitiba.
Renato pesquisou rapidamente.
— Fica a vinte minutos daqui.
Paulo estava chorando.
— Meu pai teria mais de noventa anos.
— Noventa e quatro — respondi, olhando a data de nascimento.
Havia uma frase manuscrita abaixo do endereço.
“Augusto pediu que eu não procurasse vocês enquanto Álvaro tivesse acesso à família. Agora ele chegou a Renato.”
A letra era trêmula, mas legível.
No fim, outra frase:
“Helena precisa vir sozinha. Há uma última coisa sobre a morte de Augusto que somente eu posso contar.”
Olhei para Renato.
Depois para Paulo.
Durante onze anos, eu acreditara saber como meu marido havia morrido.
Naquele instante, percebi que talvez até isso tivesse sido apenas a versão que alguém decidira me deixar conhecer.







No comments yet