Por alguns segundos, ninguém falou. A frase na tela parecia ter retirado o ar da sala.
“Ela ainda não sabe que a casa nunca esteve totalmente no nome dela.”
Li outra vez, esperando que as palavras mudassem. Não mudaram. Aquela casa havia sido comprada por mim e por meu marido, Augusto, quando Renato ainda era criança. Eu lembrava do financiamento, das prestações que apertaram nosso orçamento durante anos, das reformas feitas aos poucos, do dia em que Augusto chegou segurando o documento de quitação como se fosse um troféu. Depois da morte dele, eu havia passado pelo inventário. Nunca ninguém mencionara outro proprietário.
— Isso é mentira — falei.
Renato estendeu a mão para o celular.
— Me dá.
Camila recuou.
— Não.
— Camila, esse telefone é meu.
— E aparentemente contém metade da vida que você escondeu de mim.
Ele respirou fundo.
— A mensagem pode ser uma provocação.
— De quem é “P”? — perguntei.
Renato olhou novamente para o contrato sobre a mesa.
Não precisava responder.
— Paulo? — perguntei.
Meu filho permaneceu em silêncio.
— Seu tio está mandando essas mensagens?
— Eu não sei.
— Você acabou de mostrar um contrato com o nome dele.
— Porque foi assim que descobri que ele estava envolvido.
Sentei-me. As lembranças de Paulo voltaram com uma nitidez desagradável. Ele e Augusto haviam sido próximos na juventude, mas alguma coisa mudara poucos anos antes da morte do meu marido. As visitas diminuíram. Depois houve uma discussão que Augusto nunca quis explicar. Paulo desapareceu de nossas vidas. No funeral, ficou menos de vinte minutos.
— Quando você falou com ele pela última vez? — perguntei.
— Há uns oito meses.
— Então você sabia onde ele estava.
— Sabia.
— E escondeu de mim.
— Porque ele pediu.
A raiva subiu pelo meu peito.
— Desde quando você aceita pedidos de um homem que seu pai não queria dentro desta casa?
Renato me encarou.
— Como você sabe que o pai não queria?
A pergunta me fez parar.
Eu nunca havia contado a Renato sobre a última discussão entre os irmãos.
— Eu ouvi seu pai mandar Paulo embora daqui.
— Quando?
— Alguns meses antes de ele morrer.
Renato passou a mão pelos cabelos.
— Mãe, isso muda muita coisa.
— Então explique.
Ele se sentou novamente.
— Quando comecei o negócio do apartamento, Eduardo disse que havia um investidor que preferia não aparecer. Só descobri depois que era o tio Paulo. Quando confrontei os dois, Paulo disse que queria me ajudar porque tinha uma dívida antiga com meu pai.
— Que dívida?
— Ele nunca explicou.
Camila colocou o celular sobre a mesa, mas manteve a mão sobre ele.
— E você continuou fazendo negócios com eles mesmo assim?
Renato desviou os olhos.
— Eu já tinha colocado dinheiro demais.
Era a mesma lógica que o levara até minha assinatura falsa: cada erro precisava de outro erro para parecer corrigível.
— E a empresa? — perguntei. — Aquela participação societária de duzentos e vinte mil?
Renato ficou tenso.
— Era a segunda etapa.
— Segunda etapa de quê?
— Paulo disse que existia uma empresa familiar antiga que seria vendida. Se eu comprasse parte das cotas antes da venda, conseguiria recuperar tudo que tinha perdido.
— Empresa familiar de quem?
Ele não respondeu imediatamente.
Foi Camila quem percebeu.
— Da família Duarte?
Renato assentiu.
Senti um arrepio.
Augusto nunca tivera empresa alguma. Trabalhara durante quase trinta anos como contador. Pelo menos era o que eu sabia.
— Qual é o nome?
Renato abriu a pasta e retirou outra folha.
“Duarte Participações Ltda.”
Eu nunca tinha ouvido aquele nome.
— Foi aberta há mais de trinta anos — Renato explicou. — Paulo aparece nos registros atuais, mas a empresa originalmente tinha dois sócios.
— Paulo e Augusto.
— Sim.
Olhei para o documento.
Meu marido havia morrido sem jamais mencionar que possuía uma empresa.
— Por que isso não apareceu no inventário?
— É exatamente o que eu comecei a investigar.
Renato contou que, meses antes, descobrira que as cotas de Augusto haviam sido transferidas pouco antes de sua morte. Segundo os registros apresentados por Paulo, Augusto vendera toda sua participação ao irmão.
— Seu pai nunca me contou isso.
— Talvez porque não tenha vendido.
A frase me atingiu.
— O que está dizendo?
— A assinatura da transferência é estranha.
Renato retirou uma cópia amarelada.
Reconheci imediatamente a assinatura de Augusto, mas alguma coisa parecia errada. O traço era quase perfeito, só que rígido demais.
— Você acha que falsificaram?
— Não sei. Por isso procurei documentos antigos dele para comparar.
De repente compreendi por que Renato guardara aquela fotografia do pai junto da chave da caixa.
Camila soltou uma risada amarga.
— Então você suspeitou que alguém falsificou a assinatura do seu pai e, para resolver o problema, falsificou a assinatura da sua mãe?
Renato fechou os olhos.
— Eu sei como isso parece.
— Parece exatamente o que aconteceu.
Eu deveria estar furiosa apenas com ele. Mas naquele momento uma pergunta mais antiga começava a ocupar minha cabeça.
— E a casa?
Renato levantou os olhos.
— O que tem?
Mostrei a mensagem.
— Por que alguém diria que ela nunca esteve totalmente no meu nome?
Ele demorou demais para responder.
— Porque existe um documento.
Meu coração bateu mais forte.
— Que documento?
Renato abriu outro compartimento da pasta.
Estava vazio.
Ele procurou novamente.
— Não está aqui.
— O quê?
— Uma cópia da escritura original.
— A escritura está no meu quarto.
— Não essa. Uma anterior.
Senti um frio percorrer minhas costas.
Renato explicou que encontrara, entre os arquivos ligados à empresa, referência ao terreno onde nossa casa fora construída. Antes de Augusto e eu comprarmos o imóvel, o terreno teria pertencido à Duarte Participações.
— Isso não faz sentido. Nós compramos de uma construtora.
— A construtora comprou o terreno da empresa.
— Então acabou. A empresa vendeu.
— Talvez não completamente.
Segundo Renato, existia uma cláusula antiga vinculando parte do terreno a uma garantia empresarial. Algo que deveria ter sido cancelado quando a venda ocorreu, mas cuja baixa não aparecia em determinados registros digitalizados.
— Você sabia disso quando tentou vender minha casa? — perguntei.
— Não no começo.
— E quando descobriu?
Ele ficou calado.
Levantei-me.
— Quando?
— Semana passada.
Foi como levar um golpe.
— Então você tentou me tirar daqui sabendo que poderia haver um problema na escritura.
— Eu queria resolver antes que você descobrisse.
— Não. Você queria dinheiro antes que eu descobrisse.
Renato se levantou também.
— Eu queria impedir que Eduardo e Paulo chegassem até você.
— Eles já chegaram.
Apontei para o celular.
Camila pegou o aparelho novamente.
— Tem outra mensagem.
Desta vez não havia texto, apenas um arquivo de áudio.
Ela apertou o botão.
Uma voz masculina surgiu pelo pequeno alto-falante.
Eu a reconheci antes mesmo de ouvir uma frase inteira.
Paulo.
— Helena, se você está ouvindo isso, Renato já perdeu o controle da situação. Não entregue documento nenhum a ele. Principalmente a escritura.
Renato avançou um passo.
— Desliga.
Camila continuou.
— Há coisas que Augusto decidiu esconder de você. Eu respeitei isso por onze anos. Agora não posso mais.
Minha mão começou a tremer.
A gravação prosseguiu:
— A casa não é o verdadeiro problema. O problema é o que existe ligado a ela. Augusto descobriu isso pouco antes de morrer.
Então o áudio terminou.
— Ligado à casa? — Camila murmurou.
Olhei para Renato.
Ele estava pálido.
— Você sabe o que ele quis dizer.
— Não.
— Está mentindo outra vez.
— Dessa vez, não.
Foi então que me lembrei de uma coisa que não pensava havia anos.
Poucas semanas antes de morrer, Augusto passara três noites mexendo sozinho no porão. Quando perguntei o que fazia, respondeu que estava consertando uma infiltração. Depois colocou um armário pesado contra uma das paredes e me pediu que nunca o movesse porque havia canos antigos atrás dela.
Na época, não questionei.
Agora, pela primeira vez em onze anos, percebi algo estranho naquela lembrança.
Nossa casa nunca tivera canos naquela parede.
Fui até o corredor.
— Mãe, onde você vai? — Renato perguntou.
— Ao porão.
Descemos os três. O cheiro de madeira úmida e caixas antigas tomou o ambiente. O armário ainda estava exatamente onde Augusto o deixara.
Renato me ajudou a afastá-lo.
Atrás dele não havia canos.
Havia uma pequena abertura retangular coberta por uma placa de madeira pintada da mesma cor da parede.
Camila aproximou a lanterna do celular.
Retiramos quatro parafusos antigos. Renato puxou a placa.
Atrás dela havia um compartimento estreito.
Dentro, apenas uma caixa de metal envolvida por plástico.
Reconheci imediatamente a letra de Augusto numa frase escrita sobre o plástico:
“Para Helena. Somente se Paulo voltar.”
Minhas mãos ficaram geladas.
Abri a caixa.
Havia documentos, uma pequena chave e um envelope lacrado.
Na frente do envelope, meu marido escrevera uma segunda frase.
“Helena, se você está lendo isto, não acredite em nenhum dos dois.”
Olhei para Renato.
Ele também havia lido.
— Nenhum dos dois quem? — Camila perguntou.
Virei o envelope.
No verso, Augusto havia escrito dois nomes.
Paulo.
E Eduardo.







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