A cadeira vazia de Conrad Ashcroft parecia maior do que todas as pessoas ainda presentes no salão.
Ninguém perguntou para onde ele tinha ido.
Não era necessário.
O homem que passara a noite sorrindo ao lado da filha havia desaparecido exatamente no momento em que uma mensagem ligava seu nome ao segredo que destruíra a minha vida.
O rei Alistair estendeu a mão para o capitão Moreau.
“O telefone.”
O capitão entregou o aparelho de Preston sem desbloqueá-lo.
Preston ainda estava imobilizado por um dos guardas.
“Isso é invasão de privacidade”, disse ele, tentando recuperar a arrogância. “Vocês não têm autoridade para revistar meu telefone.”
O rei olhou para ele.
“Então não vamos revistá-lo.”
Ele entregou o celular a um dos assessores.
“Preserve exatamente como está. Nenhuma tentativa de acesso. Nenhuma exclusão. Entregue às autoridades brasileiras com registro de cadeia de custódia.”
Preston perdeu parte da cor do rosto.
Aquela reação foi pequena.
Mas eu vi.
E o rei também.
“Claire”, disse Alistair, “quero que venha comigo agora.”
Olhei novamente para a cadeira vazia.
“E Conrad?”
“Não será esquecido.”
“Ele pode estar fugindo.”
“Então nossos minutos são mais valiosos do que nossas perguntas.”
O rei virou-se para o capitão Moreau.
“Informe à Polícia Federal que há uma possível ligação entre um cidadão brasileiro e o desaparecimento de uma integrante da Casa Real da Ardênia. Quero cooperação formal, não espetáculo.”
“Sim, Majestade.”
Lydia finalmente falou.
“Meu pai não fez nada.”
Sua voz tremia.
Todos olharam para ela.
Ela parecia menor sem a confiança que exibia quando Preston me humilhava.
“O senhor está interpretando uma mensagem sem contexto”, continuou. “Meu pai conhece centenas de pessoas. Ele pode estar falando de qualquer coisa.”
Eu a encarei.
“Quantas Elaras desaparecidas seu pai conhece?”
Lydia apertou os lábios.
Preston levantou a cabeça.
“Claire, não faça isso.”
Eu me virei para ele.
“Fazer o quê?”
“Transformar uma coincidência em acusação.”
“Você recebeu a mensagem.”
“Não pedi que ele enviasse.”
“Mas entendeu o que ele quis dizer?”
Ele ficou em silêncio.
A resposta veio novamente na ausência dela.
O rei se aproximou.
“Senhor Whitmore, recomendo que escolha cuidadosamente sua próxima decisão.”
Preston riu sem humor.
“Isso é uma ameaça diplomática?”
“Não.”
O rei fitou-o com uma calma quase assustadora.
“É um conselho dado a um homem que acabou de descobrir que seu telefone pode conter provas relacionadas a um crime cometido há quase três décadas.”
Pela primeira vez naquela noite, Preston não respondeu.
Saímos do salão por uma entrada lateral.
Do lado de fora, dezenas de jornalistas já ocupavam a calçada.
Microfones foram erguidos.
Flashes explodiram.
“Claire! Claire, é verdade que você é uma princesa?”
“Majestade, a princesa Elara está viva?”
“Preston Whitmore sabia da identidade da esposa?”
“Quem é Conrad Ashcroft?”
Eu congelei quando ouvi a palavra princesa.
O rei percebeu.
“Não responda.”
“Eles já decidiram quem eu sou.”
“Eles decidiram uma manchete.”
Ele abriu a porta de um carro escuro.
“Isso não é a mesma coisa que descobrir quem você é.”
Entrei.
Durante os primeiros minutos do trajeto, ninguém falou.
São Paulo passava pelas janelas como se nada tivesse acontecido.
Semáforos.
Motocicletas.
Restaurantes ainda cheios.
Pessoas caminhando pelas calçadas.
Eu queria abrir a porta e perguntar a qualquer estranho como era possível que o mundo continuasse funcionando depois que uma pessoa descobria que toda a própria história talvez tivesse sido construída sobre uma mentira.
O rei estava sentado à minha frente.
Ele segurava a fotografia de Elara.
“Posso ver?”
Ele me entregou.
Observei o rosto da mulher.
Meus olhos.
Minha boca.
A pequena marca perto da orelha.
“Quantos anos ela tinha quando desapareceu?”
“Vinte e quatro.”
“A mesma idade em que eu me casei com Preston.”
Alistair abaixou os olhos.
“Ela também acreditava que poderia salvar alguém pelo amor.”
Levantei a cabeça.
“Quem?”
Ele demorou um pouco para responder.
“Seu pai.”
Meu peito apertou.
“Meu pai?”
“Se você realmente for filha de Elara, sim.”
“Quem era ele?”
“Essa é uma das perguntas que ainda precisamos responder com certeza.”
“Depois de vinte e oito anos?”
“Há coisas que sabemos.”
“Então me diga.”
Ele respirou fundo.
“Elara se apaixonou por um homem fora da corte. Brasileiro. Trabalhava em logística internacional e havia sido contratado durante uma missão comercial da Ardênia.”
“Nome?”
“Daniel Valença.”
O nome não despertou memória alguma.
Não havia motivo para despertar.
Eu era bebê.
Mesmo assim, repeti mentalmente.
Daniel Valença.
“Ele morreu?”
“Foi declarado morto depois do ataque ao comboio.”
“Declarado?”
Alistair assentiu.
“Nunca encontramos o corpo.”
Olhei novamente para a fotografia.
“Então minha mãe desapareceu. Eu desapareci. Meu pai também.”
“Sim.”
“E durante vinte e oito anos ninguém achou nenhum dos três.”
O rei ficou em silêncio.
“Isso não parece acaso.”
“Não.”
Finalmente tínhamos concordado sobre alguma coisa que não dependia de sangue.
Meu celular vibrou.
Mais de duzentas notificações.
Mensagens de números desconhecidos.
Jornalistas.
Colegas antigos.
Pessoas que não falavam comigo havia anos.
No topo havia onze chamadas perdidas de Preston.
Depois chegou uma mensagem.
**Não confie nele. Pergunte ao rei o que Elara descobriu três dias antes do ataque.**
Meu coração parou por um instante.
Ergui os olhos.
O rei observava a cidade pela janela.
“Alistair.”
Era a primeira vez que eu usava apenas o nome dele.
Ele se virou.
Mostrei a mensagem.
Seu rosto mudou.
Não para surpresa.
Para medo.
“Ele sabe”, murmurei.
Alistair não negou.
“Que coisa minha mãe descobriu?”
O silêncio dele durou tempo demais.
“Claire...”
“Não faça isso.”
“Há informações que ainda não foram verificadas.”
“Minha vida inteira foi escondida atrás dessa frase.”
Ele fechou os olhos por um segundo.
Então falou.
“Três dias antes de desaparecer, Elara me procurou dizendo que alguém dentro da Casa Real estava vendendo informações confidenciais sobre rotas diplomáticas.”
“Quem?”
“Ela não sabia.”
“Mas suspeitava de alguém.”
“Sim.”
“De quem?”
O carro reduziu a velocidade diante de um portão cercado por árvores.
O rei olhou para mim.
“Do homem responsável pela segurança dela.”
Antes que eu pudesse perguntar mais, o capitão Moreau falou do banco da frente.
“Majestade.”
Sua voz tinha mudado.
O portão da clínica estava aberto.
Duas viaturas estavam estacionadas perto da entrada.
Uma enfermeira chorava junto à porta.
O capitão saiu primeiro.
Correu para dentro.
Menos de um minuto depois, voltou.
Seu rosto respondeu antes que ele abrisse a boca.
“O quarto de Helena Duarte está vazio.”
Senti o sangue abandonar minhas mãos.
“Onde ela está?”
“Ninguém sabe.”
“Ela fugiu?”
Moreau balançou a cabeça.
“Não parece.”
Ele segurava algo envolvido em plástico transparente.
Um pedaço de papel.
“Isso foi deixado sobre a cama.”
Reconheci imediatamente o desenho feito à mão no centro da folha.
Um cervo branco coroado.
Abaixo dele havia uma frase escrita com letras trêmulas.
**Claire, eles descobriram que você está viva. Não confie no homem que trouxe o cervo até você.**
Levantei lentamente os olhos para o rei Alistair.
Ele estava tão pálido quanto eu.
— Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.







No comments yet