Li a frase três vezes.
**Enquanto Claire estiver viva, o herdeiro atual não pode assumir legitimamente o trono.**
Foi só na terceira leitura que percebi que estava prendendo a respiração.
“O que isso significa?”, perguntei.
O agente ao meu lado não respondeu.
Não porque não soubesse ler.
Porque sabia que qualquer resposta naquele momento precisava vir de alguém que entendesse a sucessão da Ardênia.
Peguei o celular.
Havia uma mensagem do rei Alistair.
**Encontramos uma pista sobre Helena. Ligue quando puder.**
Pressionei o botão de chamada.
Ele atendeu no primeiro toque.
“Claire?”
“Quem é o herdeiro atual?”
Silêncio.
A pausa foi curta.
Mas suficiente.
“Por que está perguntando?”
“Porque acabei de encontrar um documento dizendo que enquanto eu estiver viva, ele não pode assumir legitimamente o trono.”
A respiração dele mudou.
“Que documento?”
“Estava no computador de Preston.”
“Claire, não toque em mais nada.”
“Já há agentes aqui.”
Outra pausa.
Então sua voz ficou mais baixa.
“O herdeiro atual é meu sobrinho.”
“Nome.”
“Príncipe Adrian.”
Fechei os olhos.
O nome significava pouco para mim, mas eu o conhecia das notícias.
Adrian de Ardênia.
Quarenta e poucos anos.
Fotografias em cúpulas internacionais.
Discursos sobre estabilidade.
O homem que aparecia ao lado do rei nas cerimônias mais importantes.
“Por que eu estaria na frente dele?”
“Porque Elara era minha única filha.”
Abri os olhos.
“E eu seria filha dela.”
“Sim.”
“Então eu seria...”
“Primeira na linha direta depois de mim.”
Meu estômago se contraiu.
Aquilo não parecia uma descoberta.
Parecia uma sentença.
“Preston tinha esse documento.”
“Se o arquivo for autêntico, então alguém deu a ele.”
“E Conrad sabia.”
“Provavelmente.”
“E minha mãe ficou escondida por vinte e oito anos.”
Alistair demorou a responder.
“Sim.”
“Tudo porque eu podia atrapalhar uma sucessão?”
“Talvez não seja tão simples.”
“É exatamente assim que homens poderosos dizem que alguma coisa horrível é mais complicada do que parece.”
Ele ficou em silêncio.
“Claire, eu não estou tentando proteger ninguém.”
“Então me diga se Adrian sabia.”
“Não tenho prova disso.”
“Mas suspeita?”
“Suspeita não é prova.”
“Você suspeita?”
A voz dele saiu cansada.
“Agora, suspeito de todos que tinham algo a ganhar.”
Foi a resposta certa.
E justamente por isso me assustou ainda mais.
Ouvi movimento do outro lado da ligação.
“Você disse que encontraram uma pista sobre minha mãe.”
“Um carro foi identificado saindo da clínica quinze minutos depois do desaparecimento de Helena. As placas eram clonadas, mas uma câmera rodoviária registrou o veículo seguindo em direção a Santo Antônio do Pinhal.”
“Quem estava dirigindo?”
“Não conseguimos ver o rosto.”
“E minha mãe?”
“Também não.”
“Então pode ser uma pista falsa.”
“Pode.”
Olhei para a tela do notebook.
A pasta continuava aberta.
Minha vida inteira organizada por homens que tinham decidido que eu era perigosa antes mesmo de eu aprender a falar.
“Há mais uma coisa”, eu disse.
“Diga.”
“Temos uma gravação de Conrad dizendo que Elara continua onde sempre esteve.”
Alistair não respondeu.
“Ele sabia que ela estava viva.”
“Sim.”
A palavra saiu quebrada.
“Durante todo esse tempo?”
“Parece que sim.”
“Você não sabia?”
“Não.”
“Tem certeza?”
Dessa vez, a dor na voz dele pareceu real.
“Claire, eu enterrei um caixão vazio porque nunca encontraram o corpo da minha filha.”
Meu peito apertou.
Ele continuou:
“Durante vinte e oito anos, acordei todas as manhãs imaginando se deveria aceitar que ela estava morta ou odiar a mim mesmo por desistir cedo demais.”
Não respondi.
Porque aquela dor eu entendia.
Era uma versão diferente da minha.
Eu crescera acreditando que ninguém havia me procurado.
Ele envelhecera acreditando que procurara e fracassara.
Dois lados da mesma mentira.
“Venha para o apartamento”, eu disse. “Quero que veja os arquivos.”
“Vou mandar alguém.”
“Não.”
“Claire...”
“Você.”
Um silêncio.
“Eu vou.”
Quando desliguei, um dos agentes me chamou.
“Senhora Whitmore.”
Ele havia encontrado uma segunda pasta oculta.
Não estava na área de trabalho.
Estava vinculada aos arquivos recentes.
O nome era apenas:
**P-28**
Dentro havia planilhas.
Pagamentos.
Transferências.
Empresas de fachada.
Clínicas.
Motoristas.
Consultorias.
Alguns valores remontavam a quase vinte anos.
Outros eram recentes.
Um nome aparecia repetidamente.
**Fundação Saint Aurelius.**
“Conheço isso”, murmurei.
O agente me olhou.
“De onde?”
“Preston falou dessa fundação várias vezes. Disse que financiava programas de cooperação internacional.”
Abri um dos arquivos.
Havia pagamentos mensais para uma empresa chamada Duarte Assistência Médica.
Helena Duarte.
Minha mãe.
As transferências começaram vinte e sete anos antes.
E nunca haviam parado.
Alguém financiara o desaparecimento dela durante quase três décadas.
Mas uma coluna da planilha me chamou atenção.
**Autorizador secundário.**
Durante anos, apenas as iniciais C.A. apareciam ali.
Conrad Ashcroft.
Então, nove anos antes, outro conjunto de iniciais começou a surgir.
**A.V.**
“Adrian Valmont”, disse uma voz atrás de mim.
Virei-me.
O rei Alistair estava na porta.
Ele havia chegado sem que eu percebesse.
“Valmont?”
“É o sobrenome dinástico usado por parte da família real.”
Meu coração começou a bater mais rápido.
“Então é ele.”
Alistair se aproximou.
“Não necessariamente.”
Apontei para a tela.
“Essas iniciais aparecem em autorizações de pagamento ligadas à clínica onde minha mãe estava escondida.”
“Eu vejo.”
“E ainda assim você vai dizer que não é suficiente?”
“Vou dizer que precisamos saber se as autorizações são verdadeiras.”
Eu me levantei.
“Você continua defendendo-o.”
“Não.”
“É seu sobrinho.”
“E Elara era minha filha.”
A frase saiu tão fria que parei.
Alistair olhou para o documento.
“Se Adrian fez isso, não será protegido.”
A convicção na voz dele me fez acreditar, pelo menos naquele momento.
Então um dos agentes abriu outro arquivo.
Era um contrato digitalizado.
Datado de sete anos antes.
Tinha o logotipo de uma consultoria pertencente a Conrad Ashcroft.
No final, havia duas assinaturas.
Uma de Conrad.
Outra de Preston.
O objeto do contrato era vago.
**Monitoramento patrimonial e proteção reputacional.**
Mas o anexo era específico.
Meu nome.
Minha rotina.
Meu trabalho.
Meus relacionamentos.
Minhas viagens.
Até os nomes das pessoas com quem eu costumava almoçar.
Preston começara a me observar quase um ano antes de nos conhecermos oficialmente.
Senti náusea.
“Ele não se aproximou de mim por acaso.”
Ninguém respondeu.
Rolei mais.
Havia relatórios escritos por Preston.
**Sujeito demonstra forte apego ao medalhão.**
Outro.
**Não possui conhecimento aparente sobre a Ardênia.**
Outro.
**Não apresenta suspeitas quanto à própria origem.**
Depois:
**Relacionamento romântico estabelecido. Alta confiança.**
Minha visão ficou embaçada.
Não chorei.
Aquilo teria sido mais fácil.
Em vez disso, continuei lendo.
Porque precisava saber até onde a mentira chegava.
O último relatório tinha sido enviado poucos meses antes do casamento.
**Casamento recomendado. A proximidade permanente reduzirá risco de investigação externa e facilitará controle de documentos pessoais.**
Afastei a cadeira.
“Controle.”
A palavra escapou da minha boca.
O rei Alistair me olhou.
“Claire.”
“Eu passei seis anos acreditando que tinha construído uma família.”
Minha voz começou a falhar.
“E para ele era uma operação.”
Foi naquele momento que meu celular tocou.
Número desconhecido.
Todos ficaram imóveis.
O agente fez sinal para que eu atendesse no viva-voz.
Pressionei.
“Alô?”
Primeiro ouvi apenas respiração.
Depois uma voz feminina.
Fraca.
Rouca.
“Claire?”
Meu corpo inteiro congelou.
“Quem é?”
Um soluço abafado atravessou a linha.
“Meu coração retorna.”
O medalhão pareceu pesar uma tonelada contra meu peito.
“Mãe?”
Do outro lado, a mulher começou a chorar.
Não havia dúvida naquele som.
Era o choro de alguém que esperara tempo demais.
“Claire”, disse ela. “Eu tentei manter você longe deles.”
“Quem levou você da clínica?”
“Eu saí.”
Alistair se aproximou do telefone.
“Elara?”
O silêncio do outro lado mudou.
Ficou carregado de medo.
“Não deixe Alistair me encontrar.”
O rei empalideceu.
“Mãe, por quê?”
A voz dela baixou até quase desaparecer.
“Porque o ataque ao comboio não começou com Conrad.”
Meu coração disparou.
“Então com quem começou?”
Houve um ruído súbito.
Uma porta.
Passos.
Ela respirou rápido.
“Claire, escute. Existe um arquivo chamado Rosa Branca. Seu pai descobriu tudo. Foi por isso que tentaram matá-lo.”
“Quem?”
A ligação falhou.
“Mãe?”
“Procure onde a primeira promessa foi feita.”
“O que isso significa?”
“E não confie na linha de sucessão que mostraram a você.”
Ouvi um barulho forte.
Depois ela sussurrou:
“Adrian não é o homem que Conrad estava tentando colocar no trono.”
A ligação caiu.
Fiquei imóvel.
Alistair também.
Então percebi.
Se Adrian não era o beneficiário final...
havia outra pessoa.
E ela ainda não aparecera em nenhum dos arquivos.
— Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.







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