Fiquei olhando para o bilhete até as palavras começarem a perder o sentido.
**Não confie no homem que trouxe o cervo até você.**
O rei Alistair permanecia a poucos passos de mim.
Atrás dele, bordado no uniforme de gala do capitão Moreau, estava o mesmo cervo branco coroado.
Meu estômago se contraiu.
“Claire”, disse Alistair com cuidado, “eu sei o que isso parece.”
“Não.”
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
“O senhor sabe o que quer que pareça.”
O capitão Moreau deu um passo para trás, como se compreendesse que qualquer aproximação naquele momento seria um erro.
A enfermeira que chorava perto da recepção limpou o rosto com as duas mãos.
“Quem entrou no quarto dela?”, perguntei.
A mulher me encarou.
“Senhora, eu...”
“Quem entrou?”
Ela olhou para o capitão.
Depois para o rei.
Então novamente para mim.
“Um homem da segurança.”
Meu coração acelerou.
“Segurança de quem?”
“Ele apresentou credenciais diplomáticas.”
O capitão Moreau ficou rígido.
“Que credenciais?”
“Da Embaixada da Ardênia.”
O silêncio caiu sobre o corredor.
Alistair se virou imediatamente.
“Fechem todas as saídas. Ninguém deixa este prédio até a chegada da Polícia Federal.”
Moreau levou a mão ao comunicador.
Eu ergui a voz.
“Não.”
Todos me olharam.
“Claire...”, começou Alistair.
“Acabaram de me dizer para não confiar no homem que trouxe o cervo até mim, e a primeira coisa que o senhor faz é ordenar que seus homens controlem quem entra e quem sai?”
O rosto dele endureceu.
“Estou tentando impedir que levem outra pessoa.”
“Ou impedir que alguém fale?”
A pergunta doeu nele.
Eu vi.
Mas não retirei.
Durante anos eu havia engolido perguntas para manter Preston confortável.
Eu não faria isso novamente por causa de uma coroa.
“Quero a polícia brasileira aqui”, disse eu. “E quero que qualquer câmera de segurança seja entregue diretamente a eles.”
Moreau olhou para Alistair.
O rei não hesitou.
“Faça exatamente o que ela pediu.”
Aquilo me surpreendeu.
Mais ainda quando ele acrescentou:
“E nenhum membro da minha equipe tocará nas gravações antes das autoridades.”
Moreau assentiu e se afastou.
Passei pela recepção.
“Mostre-me o quarto.”
A enfermeira me conduziu por um corredor estreito até uma ala mais antiga da clínica.
O quarto de Helena Duarte ficava no final.
A porta estava aberta.
A cama desarrumada.
Um copo de água ainda pela metade.
Uma manta caída no chão.
Nenhum sinal evidente de luta.
Entrei devagar.
Ali dentro havia cheiro de lavanda e remédio.
Era absurdo, mas tentei imaginar minha mãe vivendo naquele quarto.
Sentando naquela cadeira.
Olhando pela janela.
Repetindo a frase gravada em meu medalhão sem saber se algum dia eu a ouviria.
Minha garganta fechou.
Sobre a mesa de cabeceira havia um livro de orações.
Peguei-o.
A enfermeira se aproximou.
“Ela lia isso todas as noites.”
“Ela falava sobre família?”
“Quase nunca.”
“Sobre uma filha?”
A mulher hesitou.
“Às vezes.”
Meu coração bateu mais forte.
“O que ela dizia?”
“Não dizia nome.”
“Então o quê?”
A enfermeira fechou os olhos, tentando lembrar.
“Ela dizia que havia feito a única coisa que uma mãe podia fazer quando todos os caminhos eram perigosos.”
Olhei para ela.
“Que coisa?”
“Entregar a criança a alguém que não soubesse quem ela era.”
O ar desapareceu dos meus pulmões.
Voltei a olhar o quarto.
Se Helena fosse Elara, então eu talvez não tivesse sido abandonada.
Talvez tivesse sido escondida.
A diferença entre as duas coisas era tão grande que quase me derrubou.
Abri o livro de orações.
Algumas páginas estavam marcadas.
Em uma delas encontrei números escritos a lápis.
Não pareciam versos.
Nem datas.
Eram sequências.
17-04.
08-11.
22-06.
Depois uma única palavra:
**Valença.**
“Alistair.”
Ele entrou no quarto.
Mostrei.
Ao ver o nome, sua expressão mudou.
“Daniel.”
“Meu pai.”
“Talvez.”
“Chega de talvez.”
Virei o livro para ele.
“Esses números significam alguma coisa?”
Ele analisou.
“Datas.”
“De quê?”
“Não sei.”
“Você reconhece alguma?”
Alistair apontou para 17-04.
“O ataque ao comboio aconteceu em 17 de abril.”
Senti um arrepio.
“E as outras?”
Ele balançou a cabeça.
“Não reconheço.”
Peguei meu celular.
A mensagem de Preston ainda estava aberta.
**Pergunte ao rei o que Elara descobriu três dias antes do ataque.**
“Ele sabe alguma coisa”, eu disse.
Alistair me encarou.
“Preston?”
“Talvez Conrad tenha contado.”
“Ou talvez Preston estivesse envolvido.”
Eu queria negar.
Mas não consegui.
Lembrei de quantas vezes ele fizera perguntas sobre meu passado quando começamos a namorar.
Na época, aquilo parecera carinho.
Onde me encontraram?
Quem administrava a igreja?
Quem me criou?
Eu ainda tinha os papéis antigos?
O medalhão sempre esteve comigo?
Depois que nos casamos, ele insistiu para que eu colocasse todos os meus documentos numa caixa no escritório dele.
Disse que queria organizar nossa vida.
Um pensamento horrível surgiu.
“Preciso voltar para casa.”
Alistair franziu a testa.
“Agora?”
“Tenho documentos antigos.”
“Podemos mandar alguém buscá-los.”
“Não.”
Olhei para ele.
“Eu vou.”
Meia hora depois, duas viaturas da Polícia Federal já estavam na clínica.
Prestei depoimento rapidamente e entreguei uma cópia da mensagem de Preston.
O celular dele seria tratado como possível evidência.
Quanto às câmeras da clínica, um agente informou que parte do sistema havia sido desligada dezenove minutos antes do desaparecimento de Helena.
Não falha.
Desligada.
De propósito.
Aquilo bastou para transformar uma suspeita em medo real.
Fui para casa acompanhada por dois agentes brasileiros.
Recusei o carro do rei.
Alistair não protestou.
Antes de eu sair, ele disse apenas:
“Claire.”
Parei.
“Se descobrir alguma coisa que faça você acreditar que eu menti, não esconda isso por medo de me ferir.”
Olhei para ele.
“Não pretendo mais proteger homens das consequências das próprias escolhas.”
Ele assentiu.
Quando cheguei ao apartamento onde Preston e eu morávamos, a porta estava destrancada.
Meu coração disparou.
Um dos agentes entrou primeiro.
Depois o outro.
Nenhum sinal de invasão.
Nada quebrado.
Nenhuma gaveta aberta.
Ainda assim, percebi imediatamente que alguma coisa estava errada.
Corri para o escritório.
A caixa cinza onde Preston guardava meus documentos tinha desaparecido.
“Estava aqui”, murmurei.
Um dos agentes começou a fotografar o cômodo.
Abri armários.
Gavetas.
Nada.
Então vi o notebook de Preston sobre a escrivaninha.
Ele raramente o deixava em casa.
A tela estava fechada.
“Posso tocar?”
O agente pediu que eu aguardasse.
Depois de registrar tudo, colocou luvas e abriu o computador.
A tela despertou.
Não havia senha.
Isso também era estranho.
Preston protegia tudo.
No centro da área de trabalho havia uma pasta.
O nome dela fez meu sangue gelar.
**C. WHITMORE — ORIGEM**
O agente me olhou.
“Reconhece isso?”
“Não.”
Ele abriu.
Dentro havia dezenas de arquivos.
Fotografias da Igreja de Santa Inês.
Cópias de registros antigos.
Fotos minhas ainda criança.
Meu casamento.
Meu passaporte.
Meu medalhão fotografado de vários ângulos.
E-mails entre Preston e alguém identificado apenas pelas iniciais C.A.
Conrad Ashcroft.
Sentei-me devagar.
O agente abriu o e-mail mais antigo.
Tinha data de seis anos antes.
Dois meses antes de Preston me pedir em casamento.
Li a primeira linha.
E o mundo pareceu se partir pela segunda vez naquela noite.
**Confirmado. A órfã de Santa Inês ainda possui o medalhão. Aproxime-se dela, case-se se necessário, mas não permita que descubra de onde veio.**
Rolei para baixo.
A resposta era de Preston.
Curta.
Objetiva.
Sem amor.
Sem dúvida.
**Entendido. Quanto vale para você que ela nunca descubra?**
Fiquei encarando a tela.
Seis anos.
Meu casamento inteiro.
Cada beijo.
Cada promessa.
Cada noite em que ele disse que eu era a única pessoa que o compreendera.
Tudo começara como um trabalho.
Mas havia mais um arquivo.
Um áudio.
Gravado três semanas antes.
O agente clicou.
A voz de Conrad Ashcroft encheu o escritório.
“Você devia ter destruído o medalhão quando teve oportunidade.”
Depois veio a voz de Preston.
“Eu tentei. Claire nunca o tira.”
“Então resolva antes da cerimônia. Quando assumir o cargo, não podemos correr o risco de alguém da Ardênia vê-la.”
Meu corpo ficou imóvel.
A gravação continuou.
Preston respondeu:
“E Elara?”
Houve um silêncio.
Então Conrad disse:
“Ela continua onde sempre esteve. Desde que ninguém diga à filha que a mãe sobreviveu ao ataque, todos nós continuamos seguros.”
Fechei os olhos.
Helena era Elara.
Minha mãe estava viva.
E Preston sabia.
Ele sempre soube.
Quando abri os olhos novamente, não havia mais nada em mim tentando salvar meu casamento.
Só restava uma pergunta.
“Se Conrad passou vinte e oito anos escondendo minha mãe”, murmurei, “por que precisou esconder a mim também?”
O agente apontou para o último arquivo da pasta.
Era um documento escaneado com o brasão da Ardênia.
No alto estava escrito:
**LINHA DE SUCESSÃO — DOCUMENTO CONFIDENCIAL**
Meu nome aparecia na segunda linha.
E abaixo dele havia uma observação feita à mão:
**Enquanto Claire estiver viva, o herdeiro atual não pode assumir legitimamente o trono.**
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