A ligação caiu, mas ninguém no apartamento se mexeu.
A última frase de minha mãe continuava ecoando dentro de mim.
**Adrian não é o homem que Conrad estava tentando colocar no trono.**
Olhei para Alistair.
“Quem mais poderia ser?”
Ele permaneceu em silêncio.
Dessa vez, não porque estivesse escondendo uma resposta.
Porque parecia genuinamente não tê-la.
“Se Elara está certa”, disse ele finalmente, “então passamos anos olhando para a direção errada.”
Peguei o telefone novamente.
“Tente rastrear a chamada”, pedi ao agente.
“Já estamos fazendo isso.”
“E o arquivo Rosa Branca?”
Alistair ergueu os olhos.
“Eu conheço esse nome.”
Meu coração acelerou.
“O que é?”
“Não sei exatamente.”
“Você acabou de dizer que conhece.”
“Conheço a expressão.”
Ele caminhou até a janela.
“Minha esposa costumava chamar Elara de Rosa Branca quando ela era criança.”
Minha mão apertou o medalhão.
“Sua esposa?”
“Rainha Marianne.”
“Onde ela está?”
“Morreu dezessete anos atrás.”
A resposta veio sem hesitação.
Mais um morto.
Mais uma pessoa que talvez tivesse levado respostas consigo.
“E havia algum arquivo com esse nome?”
“Não oficialmente.”
“Então por que minha mãe saberia dele?”
Alistair virou-se.
“Talvez porque ela o tenha criado.”
Olhei novamente para as anotações encontradas no livro de orações.
17-04.
08-11.
22-06.
Valença.
“Precisamos entender essas datas.”
Um dos agentes aproximou o notebook.
“Encontramos referências cruzadas.”
Ele digitou rapidamente.
“Dezessete de abril é o ataque ao comboio, como já sabemos.”
“E oito de novembro?”
“Há vinte e nove anos, a princesa Elara participou de uma missão comercial em São Paulo nessa data.”
Alistair assentiu lentamente.
“Foi quando ela conheceu Daniel.”
Meu pulso acelerou.
“E vinte e dois de junho?”
O agente fez outra busca nos arquivos apreendidos.
“Não aparece nos documentos de Preston.”
Alistair franziu a testa.
“Mas eu conheço essa data.”
Todos olharam para ele.
“Foi o dia em que Elara me disse que pretendia se casar com Daniel.”
Minha mãe não havia anotado datas aleatórias.
Era um caminho.
O início.
A promessa.
O ataque.
“Ela disse para procurar onde a primeira promessa foi feita.”
Levantei o livro.
“A primeira promessa talvez não seja o ataque. É vinte e dois de junho.”
Alistair ficou imóvel.
“Eles não se casaram no palácio.”
“Então onde?”
“Eu proibi a união inicialmente.”
A culpa atravessou o rosto dele.
“Elara ficou furiosa. Saiu da residência diplomática e desapareceu por quase um dia.”
“Para onde foi?”
“Quando voltou, disse que Daniel havia prometido que nunca permitiria que a política decidisse quem eles seriam.”
Senti um arrepio.
“Onde?”
Alistair demorou alguns segundos.
Então olhou diretamente para o medalhão em meu pescoço.
“A Igreja de Santa Inês.”
A mesma igreja onde eu havia sido encontrada.
O silêncio mudou.
De repente, aquilo não parecia coincidência.
Parecia um círculo.
Menos de uma hora depois, estávamos a caminho do interior.
Desta vez fui com os agentes brasileiros.
Alistair veio em outro veículo.
Não confiei nele completamente.
Mas também não o afastei.
Minha mãe tinha medo dele.
Eu precisava descobrir se aquele medo vinha de algo que ele fizera ou de algo que alguém a fizera acreditar.
Durante o trajeto, analisamos os arquivos de Preston.
Quanto mais procurávamos, mais claro ficava que a pasta P-28 não era apenas um registro de pagamentos.
Era uma operação organizada.
Havia códigos ligados a pessoas, instituições e deslocamentos.
C.A.
Conrad Ashcroft.
A.V.
Adrian Valmont.
P.W.
Preston Whitmore.
Mas também havia uma sequência que aparecia dezenas de vezes.
**R.B.**
“Rosa Branca”, murmurei.
O agente assentiu.
“Possivelmente.”
Só que havia algo estranho.
Os pagamentos marcados com R.B. não eram saídas.
Eram entradas.
Dinheiro chegava à rede de Conrad vindo de uma conta identificada com esse código.
“Então Rosa Branca estava financiando Conrad?”
Perguntei.
O agente ampliou a planilha.
“Ou alguém usava esse nome para esconder a verdadeira origem do dinheiro.”
Um pagamento chamou minha atenção.
Datava de apenas dois meses antes.
O destinatário era uma empresa ligada à campanha institucional que impulsionara a nomeação de Preston para o cargo no governo estadual.
Olhei para ele por alguns segundos.
“Meu marido foi promovido com dinheiro dessa operação.”
“Parece que parte do apoio veio dela.”
Tudo começou a encaixar de uma maneira que me deixou enjoada.
Preston não chegara àquele palco sozinho.
Conrad financiara sua ascensão.
A rede ligada ao desaparecimento de minha mãe ajudara a colocar meu marido numa posição de influência internacional.
E Preston havia me descartado justamente naquela noite.
Talvez aquela separação nunca tivesse sido apenas sobre Lydia.
Talvez fosse a última etapa de alguma coisa.
Chegamos à Igreja de Santa Inês pouco depois das duas da manhã.
Era pequena.
Muito menor do que eu imaginara durante toda a vida.
Paredes claras.
Portas de madeira antigas.
Uma torre simples.
Foi ali que alguém me deixara embrulhada numa manta, com um medalhão no pescoço e nenhuma explicação.
Fiquei parada diante da entrada.
Por vinte e oito anos eu pensara naquele lugar como o início do meu abandono.
Agora talvez fosse o lugar onde meus pais haviam tentado me salvar.
O padre responsável pela paróquia havia sido avisado pelas autoridades.
Era um homem de quase setenta anos chamado padre Miguel.
Quando me viu, não perguntou quem eu era.
Seus olhos foram direto para o medalhão.
“Então finalmente aconteceu”, disse.
Meu coração disparou.
“O quê?”
Ele olhou para os agentes.
Depois para Alistair.
Ao reconhecer o rei, seu rosto endureceu.
“Ela voltou?”
“Quem?”, perguntei.
“Elara.”
Aproximei-me.
“O senhor conhecia minha mãe?”
“Não como deveria.”
“Eu fui encontrada aqui.”
“Eu sei.”
Minha respiração parou.
“O senhor estava aqui?”
“Era seminarista.”
Alistair avançou um passo.
“Por que nunca informou às autoridades?”
Padre Miguel lançou a ele um olhar duro.
“Porque fui instruído a não confiar nas autoridades.”
Senti o olhar de Alistair sobre mim.
“A senhora que trouxe o bebê naquela madrugada estava coberta de sangue”, continuou o padre. “Disse que homens ligados a diplomatas estavam procurando uma criança.”
“Era Elara?”
“Não.”
Aquilo me pegou de surpresa.
“Então quem?”
“Ela nunca disse o nome.”
Mais um fragmento.
Mais uma pessoa anônima.
Mas ele continuou antes que eu pudesse perguntar.
“Ela deixou três coisas.”
Meu coração acelerou.
“Eu só recebi duas.”
“A manta e o medalhão.”
“Qual era a terceira?”
Padre Miguel virou-se e caminhou até o altar lateral.
Abaixou-se diante de um antigo armário de madeira.
Retirou uma caixa metálica.
“Uma carta.”
Minhas mãos começaram a tremer.
“Por que nunca me deram?”
“Porque havia uma instrução.”
Ele colocou a caixa diante de mim.
“A carta só deveria ser entregue se alguém algum dia aparecesse perguntando pelo cervo branco e pela Rosa Branca.”
Olhei para Alistair.
Ele parecia tão surpreso quanto eu.
Padre Miguel abriu a caixa.
Dentro havia um envelope envelhecido.
Na frente, escrito à mão:
**Para minha filha, quando finalmente puder escolher em quem confiar.**
Reconheci a letra.
Era a mesma do bilhete deixado no quarto de Helena.
Minha mãe.
Abri o envelope com cuidado.
Havia apenas uma página.
Comecei a ler.
**Claire, se você recebeu isto, significa que falhamos em manter o passado enterrado. Não aceite uma coroa antes de compreender por que ela foi oferecida. Não aceite uma versão da história apenas porque vem de alguém que ama você.**
Meu olhar foi instintivamente para Alistair.
Continuei.
**Seu pai descobriu que o ataque não tinha como objetivo matar nossa família. O objetivo era fazer o mundo acreditar que nós havíamos morrido.**
Meu coração martelou.
**Depois do ataque, descobrimos que documentos de sucessão haviam sido alterados meses antes. Alguém precisava que eu desaparecesse, mas precisava ainda mais que minha filha permanecesse viva e invisível.**
Parei.
“Viva?”, murmurei.
Alistair aproximou-se.
“Continue.”
**Uma herdeira morta poderia encerrar perguntas. Uma herdeira viva, sem identidade, poderia ser usada quando chegasse a hora certa.**
Meu estômago virou.
Lembrei do computador de Preston.
Monitoramento.
Casamento.
Controle.
A carta continuava.
**Daniel encontrou a prova num arquivo financeiro chamado Rosa Branca. Ele descobriu quem pagava Conrad e quem seria colocado ao lado de você quando sua identidade finalmente fosse revelada.**
Minha mão começou a tremer tanto que precisei apoiar o papel sobre a mesa.
A linha seguinte parecia escrita mais forte.
**O homem não precisava nascer príncipe. Bastava casar-se com a herdeira.**
O salão do Hotel Imperial voltou à minha memória.
Preston.
Meu marido.
Seis anos ao meu lado.
Aproximando-se de mim por ordem de Conrad.
Controlando documentos.
Fotografando meu medalhão.
Construindo uma carreira internacional.
Meu corpo ficou gelado.
“Preston”, sussurrei.
Alistair fechou os olhos.
Tudo fazia sentido agora.
Conrad não estava tentando colocar Adrian no trono.
Estava preparando Preston para chegar até ele através de mim.
Mas havia uma contradição.
“Então por que ele anunciou a separação?”
O agente respondeu antes de Alistair.
“Talvez porque o plano tivesse mudado.”
Olhei para a carta.
Ainda havia um último parágrafo.
**Se o homem escolhido tentar abandonar você antes de sua origem ser revelada, significa que encontraram outra maneira de controlar a sucessão. Nesse caso, procure quem estiver ao lado dele.**
Senti meu coração parar.
Quem estava ao lado de Preston quando ele anunciou nossa separação?
Lydia Ashcroft.
A filha de Conrad.
Peguei imediatamente o telefone.
“Precisamos encontrar Lydia.”
O agente já estava fazendo uma ligação.
Segundos depois, seu rosto mudou.
“O hotel informou que ela saiu quinze minutos depois de vocês.”
“Com quem?”
Ele ouviu a resposta.
Depois olhou para mim.
“Sozinha.”
“Para onde?”
“Não sabem.”
Meu celular vibrou.
Uma nova mensagem.
Número desconhecido.
Abri.
Era uma fotografia.
Minha mãe estava sentada numa cadeira.
Viva.
Assustada.
Ao lado dela estava Lydia.
Mas Lydia não parecia estar mantendo-a prisioneira.
Parecia estar chorando.
Abaixo da imagem havia uma mensagem.
**Claire, seu marido mentiu para nós duas. Não procure Preston até ouvir o que eu descobri sobre meu pai.**
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