Fiquei olhando para a imagem até os contornos começarem a se desfazer diante dos meus olhos.
A bolsa vermelha.
Couro vinho, alça curta, uma pequena fivela dourada na lateral.
Eu a tinha escolhido pessoalmente porque Patrícia passara semanas admirando uma parecida numa vitrine. No Natal, quando abriu a caixa, ela me abraçou tão forte que quase derrubou nossas taças sobre a mesa.
Agora aquela mesma bolsa aparecia numa gravação feita minutos antes de eu quase morrer.
— Não — murmurei.
Camila não tentou me convencer de nada.
— A imagem ainda está sendo analisada.
— Essa bolsa é dela.
Helena apertou minha mão.
Só então percebi que minha filha ainda estava ali.
Olhei para Camila.
Ela entendeu imediatamente.
— Helena, você pode acompanhar a assistente social por alguns minutos?
— Eu quero ficar com a minha mãe.
— Eu sei, querida — falei, tentando sorrir. — Mas preciso conversar com a inspetora. Depois você volta.
Helena hesitou antes de beijar meu rosto.
Quando a porta se fechou, parei de fingir que estava bem.
— Mostre o resto.
Camila puxou uma cadeira para perto da cama.
— A câmera não registra o ponto exato do impacto. Mas temos imagens de aproximadamente quarenta minutos antes.
Ela deslizou o dedo pela tela.
Patrícia aparecia entrando no estacionamento.
Depois, caminhava entre os carros.
Em outra imagem, estava parada ao lado do meu veículo.
— Quanto tempo ela ficou ali?
— Aproximadamente seis minutos.
— Fazendo o quê?
— A câmera não tem ângulo suficiente.
Engoli em seco.
— E o carro que me atingiu?
— Foi localizado. O motorista está colaborando. Até agora, não encontramos ligação entre ele, seu marido ou sua irmã.
Aquilo me confundiu.
— Então foi realmente um acidente?
— A colisão pode ter sido. O que aconteceu antes dela talvez não tenha sido.
Camila explicou que o motorista afirmava ter perdido o controle ao tentar evitar outro veículo. A investigação inicial tratara tudo como uma colisão comum.
Mas havia uma informação nova.
Meu carro tinha sido levado para um depósito após a perícia inicial.
Agora seria examinado novamente.
— Por quê?
— Porque uma das mensagens fala em fazer alguma coisa parecer consequência do acidente.
Meu estômago revirou.
— Vocês acham que Patrícia mexeu no meu carro.
— Eu acho que precisamos descobrir o que ela fez durante aqueles seis minutos.
Fechei os olhos.
Então uma lembrança surgiu.
Na manhã do acidente, eu tinha ligado para Patrícia.
Estava nervosa porque meu carro parecia estranho.
— Os freios — falei.
Camila ergueu a cabeça.
— O que tem eles?
— Naquele dia... antes de sair do estacionamento, achei o pedal diferente.
— Diferente como?
— Mais baixo. Mole.
Eu tinha comentado com Carlos naquela manhã.
Ele nem levantara os olhos do celular.
“Você sempre inventa um problema quando precisa dirigir sozinha.”
A frase voltou inteira.
Senti náusea.
— Eu contei isso ao Carlos.
Camila anotou rapidamente.
— Mais alguém sabia?
Pensei.
— Patrícia.
— Como?
— Liguei para ela do carro. Eu estava indo encontrar uma amiga para almoçar. Disse que talvez passasse numa oficina primeiro.
— E o que sua irmã respondeu?
Minha boca ficou seca.
— Ela disse que eu estava exagerando.
Camila ficou em silêncio.
— Depois sugeriu que eu pegasse a avenida principal porque seria mais rápido.
A mesma avenida onde o acidente aconteceu.
Naquela noite, quase não dormi.
A cada vez que fechava os olhos, via Patrícia inclinada perto do meu carro.
Depois via Carlos levantando o punho.
Depois a mensagem.
Ela perdeu o bebê como a gente planejou?
Mas havia uma pergunta que não me deixava em paz.
Se eu nem sabia que estava grávida, como eles sabiam?
Na manhã seguinte, Dr. Paulo entrou acompanhado por uma médica que eu ainda não conhecia.
— Renata, esta é a Dra. Lívia Sampaio, obstetra.
Lívia sentou-se ao meu lado.
— Revisei seus exames antigos e os exames realizados desde sua internação.
— Meu bebê está bem?
— Neste momento, sim.
Soltei o ar.
Mas ela não sorriu.
— Existe algo estranho no seu prontuário.
Meu coração apertou novamente.
— O quê?
Ela colocou duas folhas sobre a mesa.
— Você disse ao Dr. Paulo que, depois do nascimento de Helena, foi informada de que não poderia engravidar novamente.
— Foi o que meu médico disse.
— Qual médico?
— Dr. Augusto Vieira. Carlos sempre ia comigo às consultas.
Lívia trocou um olhar com Paulo.
— Encontramos os registros dessa época.
— E?
— Não existe nenhum exame que indique infertilidade permanente.
Demorei alguns segundos para compreender.
— Mas eu fiz vários exames.
— Fez. E eles não mostram o que você acredita que mostravam.
Senti minhas mãos começarem a tremer.
— Eu vi os resultados.
— Você recebeu cópias?
Pensei em onze anos atrás.
Carlos sentado ao meu lado no consultório.
O médico falando devagar.
Carlos segurando minha mão.
Depois, em casa, Carlos guardando todos os documentos numa pasta porque dizia que eu já tinha preocupações demais com Helena.
— Carlos cuidava disso.
Lívia respirou fundo.
— Renata, não estou dizendo que sabemos exatamente o que aconteceu. Mas precisamos investigar se você recebeu informações falsas sobre sua própria saúde.
Fiquei olhando para a parede.
Onze anos.
Onze anos acreditando que Helena seria minha única filha porque meu corpo tinha falhado.
Onze anos agradecendo a Carlos por nunca me culpar.
A porta se abriu.
Camila entrou.
Pela expressão dela, soube imediatamente que havia mais alguma coisa.
— Encontramos Patrícia.
— Onde?
— Na casa dela.
— Ela confessou?
— Não.
Camila colocou uma fotografia sobre minha mesa.
Era uma caixa transparente de medicamentos.
— Isso estava no banheiro dela.
Olhei para os rótulos.
Não reconheci os nomes.
— O que é isso?
— Ainda estamos confirmando.
Ela colocou outra fotografia.
Desta vez reconheci imediatamente o objeto.
Meu porta-comprimidos azul.
O mesmo que eu usava em casa.
— Esse é meu.
— Tem certeza?
— Helena colocou aquele adesivo de estrela na tampa.
A pequena estrela prateada ainda estava ali.
Minha garganta se fechou.
— Por que Patrícia estava com isso?
Camila puxou a cadeira.
— Ela afirma que você deixou na casa dela meses atrás.
— É mentira.
— Foi o que imaginamos.
Olhei para a fotografia novamente.
Então me lembrei das vitaminas que Carlos começou a colocar para mim naquele porta-comprimidos cerca de quatro meses antes.
“Você vive esquecendo.”
Todas as manhãs havia dois comprimidos.
Um branco.
Um pequeno e amarelo.
Eu nunca perguntava quais eram.
Confiava nele.
— Meu Deus.
Camila percebeu.
— O que foi?
Contei sobre os comprimidos.
Sobre Carlos prepará-los.
Sobre como, algumas vezes, Patrícia tinha trazido uma nova caixa quando ele dizia estar ocupado.
A expressão da inspetora ficou ainda mais séria.
— Precisamos analisar tudo.
— Eles estavam me dando alguma coisa?
— Ainda não sabemos.
Meu celular, que Elena havia colocado sobre a mesa, começou a tocar.
Olhei para a tela.
Patrícia.
Camila viu o nome.
— Não atenda.
A ligação parou.
Segundos depois, chegou uma mensagem.
“Renata, por favor. Carlos mentiu para nós duas.”
Outra.
“Eu não sabia que ele faria isso com você.”
E então uma terceira:
“Se você quer saber por que ele precisava que esse bebê desaparecesse, pergunte quem realmente controla o dinheiro da família Almeida.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Eu tinha passado onze anos acreditando que dependia financeiramente de Carlos.
Mas, pela primeira vez, percebi que talvez a pergunta nunca tivesse sido quanto dinheiro ele gastava comigo.
Talvez fosse quanto dinheiro ele perderia se eu descobrisse a verdade.
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







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