Entretenimento

“Meu marido entrou no meu quarto de hospital e tentou me tirar da cama — então ele fez algo que mudou tudo”

Marina não perdeu tempo.

Na manhã seguinte, entrou no meu quarto acompanhada por um homem de cabelos grisalhos que se apresentou como Henrique Bastos, auditor forense.

Sobre a mesa, colocou três pastas.

— A confirmação da gravidez ativou a cláusula — explicou. — A autoridade de Carlos sobre sua participação está suspensa.

— Desde quando?

— Tecnicamente, desde que a gestação foi clinicamente confirmada.

Olhei para o relógio.

— Então ele não controla mais nada?

— Não deveria.

A forma como ela pronunciou aquelas duas palavras me deixou alerta.


— O que aconteceu?

Henrique abriu a primeira pasta.

— Alguém tentou movimentar uma das contas vinculadas à Almeida Participações às 7h16 desta manhã.

— Carlos?

— As credenciais utilizadas eram as dele.

— Quanto?

Henrique me mostrou o valor.

Precisei contar os zeros duas vezes.

— Isso é meu?

— Parte disso.


Por onze anos, Carlos reclamara quando eu comprava sapatos para Helena sem avisá-lo.

Discutira comigo por causa de uma conta de supermercado vinte por cento acima do normal.

No hospital, tentara me arrancar de uma cama porque dizia estar cansado de desperdiçar dinheiro comigo.

Enquanto isso, milhões ligados ao patrimônio que meu pai deixara estavam sendo administrados em meu nome.

— A transferência foi concluída?

— Não — disse Marina. — A suspensão bloqueou a operação.

Soltei o ar lentamente.

Henrique abriu a segunda pasta.

— Mas encontramos movimentações anteriores.

Havia empresas com nomes que eu nunca tinha visto.


Consultorias.

Prestadoras de serviço.

Fundos privados.

— Essas empresas receberam dinheiro?

— Sim.

— De mim?

— De estruturas que pertencem, direta ou indiretamente, à Almeida Participações.

— Quem são os donos?

Henrique empurrou uma folha.

Um nome apareceu repetidamente.


Patrícia Almeida.

Minha irmã.

Fechei os olhos.

Não chorei.

Aquela parte de mim parecia ter secado.

— Então ela não foi enganada.

— Ainda precisamos determinar o grau de participação dela — disse Camila, entrando no quarto. — Mas já sabemos que recebeu dinheiro.

— Quanto?

— O suficiente para tornar difícil acreditar que não fazia perguntas.

A porta se fechou atrás dela.


— Encontraram Patrícia?

— Ainda não.

— E Carlos?

— Continua sob custódia enquanto as medidas relacionadas à agressão e às novas evidências são analisadas.

— Ele sabe da investigação financeira?

Camila me encarou.

— Agora sabe.

Senti medo.

Não o medo antigo, silencioso, que me fazia escolher palavras antes de falar com meu marido.

Era diferente.


Carlos estava perdendo o controle.

E eu sabia o que ele fazia quando perdia o controle.

— Helena fica comigo.

— Já estamos tomando providências para que ninguém não autorizado tenha acesso a ela.

A frase me acalmou apenas parcialmente.

Naquela tarde, Dr. Paulo autorizou que eu fosse transferida para um quarto mais reservado.

Minhas pernas continuavam imobilizadas.

Cada movimento ainda doía.

Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado.

Pela primeira vez em anos, comecei a fazer perguntas antes que alguém decidisse por mim.


Queria cópias dos meus exames.

Queria saber quais medicamentos recebia.

Queria cada documento antes de assinar.

Marina percebeu.

— Seu pai tinha uma frase nos documentos da empresa — comentou.

— Qual?

Ela abriu uma das páginas antigas.

No rodapé, escrito à mão, havia uma observação.

“Controle nunca deve substituir consentimento.”

Reconheci a letra imediatamente.


Meu pai.

Passei o dedo sobre a cópia.

Carlos tinha feito exatamente o contrário.

No início da noite, Camila voltou.

Desta vez, trouxe uma notícia sobre o carro.

— A perícia encontrou sinais de intervenção no sistema de freios.

Meu estômago afundou.

— Então Patrícia tentou me matar.

— Ainda não podemos afirmar isso.

— Ela estava ao lado do carro.


— Sim. Mas encontramos outra coisa nas imagens.

Camila colocou um tablet diante de mim.

O vídeo começou.

Patrícia surgiu caminhando até meu carro.

Olhou ao redor.

Abaixou-se perto da roda.

Seis minutos depois, levantou.

Mas não foi embora imediatamente.

Ela pegou o telefone.

Fez uma ligação.


Camila avançou o vídeo.

Três minutos depois, outro carro entrou no estacionamento.

Carlos saiu.

Parei de respirar.

— Ele estava lá?

— Sim.

No vídeo, Carlos caminhou diretamente até Patrícia.

Os dois discutiram.

Sem áudio, não era possível saber o que diziam.

Então Patrícia entregou alguma coisa a ele.

Uma pequena ferramenta metálica.

Carlos se abaixou perto do meu carro.

Quando se levantou, limpou as mãos com um lenço.

Meu peito apertou.

— Por que isso não apareceu antes?

— A gravação veio de uma câmera de um estabelecimento do outro lado da rua. Só conseguimos acesso hoje.

— Quanto tempo depois eu saí?

— Onze minutos.

Olhei para Camila.

— Carlos sabia exatamente quando eu sairia.

— Parece que sim.

Minha memória voltou àquela manhã.

Carlos me mandara uma mensagem às 17h53.

“Você já está indo?”

Eu respondera:

“Saindo agora.”

Às 18h42, eu estava sendo registrada no hospital.

— Ele verificou se eu estava indo embora.

Camila assentiu.

— Encontramos essa conversa.

— Então prendam Patrícia.

— Estamos procurando por ela.

— Ela pode estar com medo dele.

— Pode.

— Ou pode estar fugindo porque ajudou.

— Também pode.

A honestidade de Camila doeu, mas eu precisava dela.

Mais tarde, Helena chegou acompanhada pela assistente social.

Sentou-se ao meu lado e começou a desenhar.

Depois de alguns minutos, perguntou:

— Mãe, o papai está bravo comigo?

Meu coração se partiu.

— Por que ele estaria?

Ela não levantou os olhos do papel.

— Porque eu mexi na gaveta dele.

Fiquei imóvel.

— Que gaveta?

— A do escritório.

— Quando?

— Antes do seu acidente.

Ela continuou desenhando.

— Eu estava procurando o carregador do tablet.

— E encontrou alguma coisa?

Helena assentiu.

— Uma pasta com seu nome.

Marina, que revisava documentos perto da janela, parou.

— O que tinha dentro?

— Papéis.

— Você leu?

— Não tudo.

Helena finalmente olhou para mim.

— Mas tinha uma foto sua.

— Que foto?

— Você estava dormindo.

Senti um arrepio percorrer meus braços.

— Onde?

— Na sua cama.

— Tinha mais alguma coisa?

Helena pensou.

— Um papel do laboratório.

Marina se aproximou.

— Você lembra de alguma palavra?

Minha filha franziu a testa.

— Tinha seu nome.

Depois apontou para minha barriga.

— E uma palavra que eu não entendia.

— Qual?

— Gravidez.

O quarto ficou em silêncio.

— Helena — perguntei —, quando você viu esse papel?

— Antes do acidente.

— Quanto tempo antes?

— Acho que dois dias.

Meu coração disparou.

Carlos possuía um resultado confirmando minha gravidez antes mesmo de eu saber.

— O que você fez depois?

Helena abaixou a cabeça.

— O papai entrou.

— Ele viu você?

Ela assentiu.

— Ficou muito bravo.

— Ele fez alguma coisa com você?

— Não.

Respirei.

— Só mandou eu sair. Depois ligou para a tia Patrícia.

Camila precisava saber daquilo imediatamente.

Mas antes que Marina pudesse pegar o telefone, Helena acrescentou:

— Mãe?

— Sim?

— Eu peguei uma coisa da pasta.

Ela abriu a pequena mochila que trouxera.

De dentro de um caderno escolar, retirou um envelope dobrado.

Meu nome estava escrito na frente.

Renata.

A letra era de Carlos.

Dentro havia uma cópia de um exame laboratorial.

Data: dois dias antes do acidente.

Resultado: gravidez positiva.

Mas havia também uma anotação manuscrita na margem.

Três palavras.

“Confirmado. Agir amanhã.”

Marina ficou pálida.

Eu olhei para Helena.

Minha filha tinha carregado por semanas, dentro de um caderno escolar, a primeira prova de que meu acidente talvez nunca tivesse sido apenas um acidente.

**Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.**

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