Entretenimento

“Meu marido entrou no meu quarto de hospital e tentou me tirar da cama — então ele fez algo que mudou tudo”

Li a última mensagem de Patrícia três vezes.

“Pergunte quem realmente controla o dinheiro da família Almeida.”

— Que dinheiro? — perguntei.

Camila estendeu a mão.

— Posso ver?

Entreguei meu celular.

Ela fotografou as mensagens e pediu que eu não respondesse.

— Carlos sempre cuidou das finanças — expliquei. — Eu pagava as contas da casa, mas ele controlava investimentos, seguros, impostos... tudo que considerava “importante”.

— Você assinava documentos?

— Às vezes.


— Sem ler?

A pergunta doeu porque a resposta era óbvia.

— Carlos colocava onde eu precisava assinar.

Durante anos, eu chamara aquilo de confiança.

Agora começava a parecer outra coisa.

Camila perguntou sobre meus pais.

Meu pai, Roberto Almeida, morrera quando Helena tinha quatro anos. Minha mãe, Teresa, morrera dois anos depois.

— Eles deixaram patrimônio?

— A casa foi vendida. Havia algumas aplicações. Nada que mudasse nossa vida.

— Quem cuidou do inventário?


Fechei os olhos.

— Carlos.

Camila não comentou.

Não precisava.

Naquela tarde, uma advogada chamada Marina Lopes apareceu no hospital. A assistente social havia solicitado orientação jurídica independente depois da agressão.

Marina entrou carregando uma pasta fina e um notebook.

— Antes de qualquer coisa, quero deixar algo claro — disse. — Eu represento você. Não seu marido. Não sua família.

Talvez parecesse uma frase comum.

Para mim, pareceu revolucionária.

Passei mais de uma hora respondendo perguntas.


Marina pediu autorização para verificar registros patrimoniais, procurações e documentos relacionados ao inventário dos meus pais.

No início da noite, ela voltou ao quarto.

A pasta fina tinha se transformado em uma pilha de papéis.

— Renata, encontrei uma coisa que precisamos esclarecer.

Meu coração afundou.

— Mais uma?

Ela puxou uma escritura.

— Quando seu pai morreu, parte dos bens foi transferida diretamente para você.

— Sim. Depois vendemos tudo.

— Não tudo.


Ela girou o documento.

Meu nome estava ali.

Renata Almeida.

— Existe uma participação numa empresa patrimonial criada pelo seu pai. A Almeida Participações.

Franzi a testa.

— Nunca ouvi falar.

— Ela possui imóveis e investimentos.

— Quanto?

Marina hesitou.

— Ainda estamos levantando os valores. Mas certamente não é pouco.


Senti um arrepio.

— E Carlos?

— Não é proprietário.

— Então por que Patrícia falou sobre ele perder dinheiro?

Marina abriu outro documento.

— Porque alguém apresentou uma procuração em seu nome permitindo que Carlos administrasse sua participação.

Olhei para a assinatura.

Parecia minha.

Mas alguma coisa estava errada.

— Eu não lembro disso.


— A procuração foi registrada nove anos atrás.

Nove anos.

Naquela época, Helena tinha dois anos.

Eu mal dormia.

Carlos dizia que resolveria tudo para que eu pudesse cuidar da nossa filha.

— Se eu sou proprietária, por que nunca recebi dinheiro?

— Essa é exatamente a pergunta.

Marina explicou que havia distribuições periódicas da empresa.

Valores que deveriam ter sido destinados a mim.

— Para onde foram?


— Estamos rastreando.

Antes que eu pudesse responder, Camila entrou.

— O laboratório conseguiu uma análise preliminar dos comprimidos encontrados na casa de Patrícia.

Meu corpo endureceu.

— O que eram?

— Um deles é um suplemento comum.

— E o outro?

Ela olhou para Marina antes de continuar.

— Um medicamento hormonal.

— Para quê?


— Precisamos de avaliação médica para determinar exatamente o efeito no seu caso. Mas não corresponde ao que você acreditava estar tomando.

Senti o quarto girar.

Carlos colocava aqueles comprimidos na minha mão todas as manhãs.

Às vezes até trazia um copo de água.

“Não esquece suas vitaminas.”

Uma lembrança surgiu.

Quatro meses antes, eu tinha encontrado uma caixa diferente na cozinha.

Perguntei o que era.

Carlos tirou da minha mão rápido demais.

Disse que era medicamento para gastrite.


Naquela noite, Patrícia veio jantar.

Os dois ficaram quase vinte minutos sozinhos na cozinha enquanto eu ajudava Helena com a lição.

Eu nunca perguntei sobre o que conversavam.

— Quero falar com Patrícia — disse.

Camila balançou a cabeça.

— Não sozinha.

— Então fique aqui.

Patrícia ligou novamente menos de uma hora depois.

Desta vez, com autorização da polícia, atendi.

— Renata?


Ela estava chorando.

Fiquei em silêncio.

— Eu preciso explicar.

— Começa pelos comprimidos.

Do outro lado, ouvi sua respiração falhar.

— Carlos disse que eram para regular seus hormônios.

— E você acreditou?

— No começo.

— No começo?

Silêncio.

— Patrícia.

— Depois eu percebi que tinha alguma coisa errada.

— Quando?

— Quando você me contou das náuseas.

A lembrança da cozinha voltou.

O olhar dela para minha barriga.

— Você sabia que eu estava grávida.

— Eu suspeitei.

— E contou para Carlos.

Ela começou a chorar mais forte.

— Sim.

Fechei os olhos.

— Por quê?

— Porque eu achei que ele precisava saber.

— E o plano?

Silêncio.

Camila fez um gesto para que eu continuasse.

— Que plano era esse para eu perder meu bebê?

— Renata, eu nunca concordei em machucar você.

— A mensagem está no telefone dele.

— Eu sei.

— Então explica.

Patrícia respirou fundo.

— Carlos disse que a gravidez colocaria tudo em risco.

— Tudo o quê?

— O acordo.

Marina se inclinou para frente.

— Que acordo?

Patrícia ficou quieta.

— Responde — falei.

— O dinheiro do papai.

Minha mão apertou o telefone.

— Que dinheiro?

— Carlos descobriu anos atrás uma cláusula nos documentos da Almeida Participações.

Marina abriu rapidamente os arquivos no notebook.

— Qual cláusula?

— Eu não sei os termos jurídicos. Só sei o que Carlos me contou.

— E o que ele contou?

A voz de Patrícia ficou quase inaudível.

— Que enquanto Renata tivesse apenas Helena como descendente, ele conseguia manter o controle por meio dos documentos que ela assinou.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— E se eu tivesse outro filho?

Patrícia começou a soluçar.

— A estrutura mudava.

Marina digitava freneticamente.

— Mudava como?

— Carlos disse que uma nova gestação podia obrigar uma revisão dos beneficiários e da administração do patrimônio.

Olhei para Marina.

Ela parou de digitar.

— Isso é possível?

— Preciso ver o documento original.

Na linha, Patrícia disse:

— Foi por isso que ele entrou em pânico quando percebeu que você podia estar grávida.

— Então ele queria que eu perdesse o bebê.

— Ele disse que precisava impedir que a gravidez avançasse.

Minha garganta queimou.

— E você ajudou.

— Eu achei que ele ia resolver de outra forma.

— Você levou meus comprimidos para sua casa.

Silêncio.

— Você foi ao meu carro.

Patrícia parou de chorar.

Camila ergueu os olhos.

— Renata...

Mas eu continuei.

— Temos as imagens.

Do outro lado da linha, ouvi um ruído.

Depois, a voz de Patrícia mudou.

— Carlos disse que você já sabia demais.

Meu sangue gelou.

— Sabia o quê?

— Sobre as transferências.

— Eu não sabia de transferência nenhuma.

— Então...

Ela parou.

— Então o quê?

A respiração dela ficou rápida.

— Então ele mentiu para mim também.

A ligação foi interrompida.

— Patrícia?

Nada.

Camila tentou retornar.

O telefone estava desligado.

Marina, porém, continuava olhando para o notebook.

— Encontrei a cláusula.

Todos olharam para ela.

— O que diz?

Ela leu em silêncio durante alguns segundos.

Então levantou os olhos.

— Patrícia estava errada em uma coisa.

Meu coração quase parou.

— Qual?

— O nascimento de outro filho não é necessário para mudar o controle.

Ela apontou para uma linha do documento.

— Basta uma gestação clinicamente confirmada.

O quarto ficou imóvel.

— E o que acontece quando isso ocorre?

Marina respirou fundo.

— A procuração de administração concedida ao cônjuge é automaticamente suspensa até uma revisão independente.

Olhei para minha barriga.

Doze semanas.

Carlos não estava tentando impedir apenas o nascimento de um bebê.

Ele estava tentando impedir que alguém descobrisse o que vinha fazendo com meu patrimônio havia nove anos.

**Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.**

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