— Patrícia!
Gritei o nome dela para um telefone mudo.
Camila já estava falando com a central antes mesmo de eu conseguir tentar novamente.
— Localizem a origem da chamada. Agora.
Marina fechou a porta do quarto.
Dr. Paulo chamou a segurança.
Eu olhava para a tela como se Patrícia pudesse reaparecer nela.
— Carlos está sob custódia — falei. — Como ele poderia estar lá?
Camila parou.
A mesma pergunta atravessou o rosto dela.
Fez outra ligação.
Esperamos.
Trinta segundos pareceram dez minutos.
Então ela desligou.
— Carlos continua detido.
— Então quem encontrou Patrícia?
— Não sabemos.
Meu medo mudou de forma.
Durante toda a investigação, eu tinha imaginado Carlos no centro de tudo e Patrícia ao lado dele.
Mas as empresas, a clínica e os documentos mostravam uma estrutura maior do que duas pessoas trocando mensagens.
Camila recebeu a localização aproximada da chamada.
Uma equipe foi enviada.
Eu não podia fazer nada além de esperar.
Quarenta e sete minutos depois, o telefone de Camila tocou.
Patrícia estava viva.
Tinham encontrado minha irmã escondida no banheiro de um pequeno apartamento alugado.
Um homem havia tentado entrar usando uma chave.
Ao ouvir a polícia chegando, fugira pela escada de emergência.
— Quem era ele? — perguntei.
— Patrícia acredita que trabalha para Carlos.
— Acredita?
— Ela o reconheceu da clínica.
Meu estômago afundou.
— Qual clínica?
Camila já sabia a resposta.
— A que aparece nos seus registros.
Patrícia foi levada para prestar depoimento sob proteção policial.
Dessa vez, não houve ligação.
Ela entregou tudo diretamente aos investigadores.
Inclusive a gravação.
Camila voltou ao hospital perto da meia-noite.
— Você quer ouvir?
Olhei para Helena, dormindo numa poltrona reclinável perto da janela.
— Não aqui.
A assistente social levou minha filha para outro quarto.
Então Camila colocou o aparelho sobre a mesa.
A gravação começou com ruídos de talheres.
Reconheci a cozinha de Patrícia pela acústica.
Depois ouvi a voz de Carlos.
— Se ela confirmar, eu perco a administração imediatamente.
Patrícia respondeu:
— Então conta a verdade.
Carlos riu.
— Depois de nove anos? Você acha que ela vai simplesmente aceitar?
— Eu não vou machucar minha irmã.
— Você já está envolvida.
Silêncio.
Depois Carlos:
— Os comprimidos deveriam ter resolvido.
Meu corpo ficou gelado.
Patrícia perguntou:
— E se não resolverem?
A resposta veio sem hesitação.
— Então precisamos de uma perda que ninguém questione.
A gravação terminou pouco depois.
Ninguém falou.
Eu tinha convivido onze anos com aquela voz.
Ela me desejara bom-dia.
Cantara parabéns para Helena.
Dissera “eu te amo” antes de dormir.
E naquela gravação falava sobre a morte do nosso bebê como se discutisse uma conta atrasada.
— Isso basta? — perguntei.
— É uma evidência muito importante — respondeu Camila. — Junto com o restante, muda significativamente o caso.
— E Patrícia?
— Admitiu participação nas fraudes financeiras e que interferiu no seu carro. A responsabilidade dela será determinada pela Justiça.
Assenti.
Eu não queria vingança disfarçada de justiça.
Também não queria que o medo dela apagasse as escolhas que fizera.
— E o homem que tentou entrar?
Camila colocou uma fotografia diante de mim.
Reconheci-o.
Dr. Augusto Vieira.
O médico que, onze anos antes, tinha olhado nos meus olhos e dito que provavelmente eu nunca teria outro filho.
— Ele?
— Patrícia afirma que Carlos o pagava havia anos.
Minha garganta apertou.
— Para falsificar meus exames?
— Entre outras coisas.
A polícia encontrou registros de pagamentos, alterações em prontuários e acessos indevidos aos meus dados médicos.
Augusto também estava ligado à clínica particular.
A mentira sobre minha infertilidade não tinha começado depois.
Tinha sido construída desde o início.
Na manhã seguinte, Marina e Henrique chegaram com a última parte da investigação financeira.
Henrique colocou um relatório sobre minhas pernas engessadas.
— Conseguimos estimar quanto foi desviado ou administrado irregularmente.
O número me deixou sem palavras.
— Isso é possível?
— Ao longo de nove anos, sim.
Carlos não tinha apenas usado meu patrimônio.
Criara dívidas artificiais, contratos falsos e pagamentos para empresas ligadas a Patrícia e à clínica.
— Ele sempre dizia que estávamos apertados.
Henrique assentiu.
— Era uma forma eficiente de impedir que você fizesse perguntas.
Lembrei das vezes em que devolvi roupas porque Carlos dizia que precisávamos economizar.
Das férias que nunca fizemos.
Da culpa que senti por precisar de fisioterapia depois do acidente.
— E agora?
Marina sorriu pela primeira vez.
— Agora ele não controla mais nada.
A suspensão havia sido formalizada.
Contas estavam bloqueadas.
Uma auditoria independente assumiria temporariamente a administração.
E, principalmente, nenhuma decisão poderia ser tomada sem meu consentimento.
Meu consentimento.
Uma palavra que durante anos parecera desnecessária dentro do meu próprio casamento.
— Quero o divórcio.
Marina nem piscou.
— Já preparei o pedido.
Assinei depois de ler cada página.
Todas.
No início da tarde, Dra. Lívia entrou com um aparelho portátil.
— Temos uma visita importante.
Meu coração disparou.
Ela colocou gel sobre minha barriga.
A tela ganhou vida.
Então ouvi.
Rápido.
Pequeno.
Persistente.
O coração do meu bebê.
Comecei a chorar.
Helena segurou minha mão.
— É ele?
— É.
— Está bem?
Olhei para Lívia.
Ela sorriu.
— Está resistindo muito bem.
Helena encostou a cabeça no meu ombro.
— Então ele é forte igual você.
Fechei os olhos.
Eu ainda não me sentia forte.
Mas talvez força não fosse não sentir medo.
Talvez fosse finalmente parar de obedecer a ele.
Naquela noite, Camila voltou uma última vez.
Augusto havia sido localizado.
Preso enquanto tentava sair da cidade.
Durante o interrogatório, começara negando tudo.
Depois descobrira que Patrícia entregara a gravação e que os investigadores tinham os registros financeiros.
Então mudara de estratégia.
— Ele está colaborando — disse Camila.
— E o que contou?
— Confirmou que Carlos pagou para alterar seus registros médicos.
Minha mão apertou o lençol.
— Desde quando?
Camila me encarou.
— Desde pouco depois do nascimento de Helena.
— E os comprimidos?
— Augusto forneceu parte deles.
Respirei fundo.
— E o acidente?
— Disse que não participou.
— Você acredita?
— Estamos verificando.
Ela fechou a pasta.
Mas não saiu.
— Tem mais uma coisa.
Eu já conhecia aquela expressão.
— Fala.
— Augusto afirmou que Carlos não começou a desviar dinheiro nove anos atrás.
— Como assim?
— Começou antes de conseguir a procuração.
Meu coração acelerou.
— Como?
Camila retirou uma cópia de um documento antigo.
— Usando autorizações supostamente assinadas pelo seu pai.
Olhei para a assinatura.
Roberto Almeida.
Meu pai.
— Isso é impossível.
— Por quê?
— Porque essa data...
Aproximei o papel.
Meu corpo inteiro ficou frio.
A autorização estava datada de três semanas depois da morte dele.
Camila assentiu.
— Exatamente.
A fraude não tinha começado quando Carlos assumiu o controle das minhas finanças.
Ele já estava roubando minha família enquanto eu ainda estava de luto.
E agora havia uma assinatura de um homem morto ligando diretamente meu marido ao início de tudo.
**Continua — clique na Parte 9 para continuar lendo.**







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