Quando Alexandre percebeu que eu tinha ido embora, eu já estava dentro de um avião médico particular a caminho de Belo Horizonte.
Os analgésicos faziam as luzes no teto parecerem borradas acima de mim, mas, pela primeira vez em três anos, o silêncio não parecia solidão.
Parecia segurança.
Clara estava me esperando quando o avião pousou, vestindo um jaleco hospitalar e com a expressão de uma mulher pronta para enfrentar um exército inteiro.
Bastou olhar uma vez para meu rosto cheio de hematomas, minha perna enfaixada e o espaço vazio onde antes ficava minha aliança.
“Minha menina”, sussurrou, apertando minha mão. “Você deveria ter me ligado antes.”
“Eu achava que casamento significava aguentar”, murmurei.
“Não”, respondeu ela com firmeza. “Casamento significa ser escolhida antes que você precise implorar.”
Aquelas palavras romperam alguma coisa dentro de mim.
Durante as cinco horas seguintes, enquanto Alexandre finalmente me procurava pelo quarto do hospital em São Paulo, eu dava entrada na clínica usando meu nome de solteira.
Sofia Ribeiro.
Não senhora Monteiro.
Não esposa de Alexandre.
Apenas eu.
Clara colocou uma pasta ao lado da minha cama.
“Liguei para o advogado da sua mãe”, disse ela. “Antes de morrer, ela deixou instruções para o caso de você algum dia precisar de proteção.”
Franzi a testa.
“Proteção contra o quê?”
A expressão de Clara ficou séria.
“Contra a família Monteiro.”
Meu coração falhou uma batida.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, meu celular, mesmo com Alexandre bloqueado, começou a receber mensagens de números desconhecidos.
Alexandre: Onde você está?
Dona Teresa: Pare de envergonhar esta família.
Mariana: Sinto muito. Por favor, não castigue o Alê por minha causa.
Então chegou uma foto enviada por Artur.
Minha aliança estava na palma da mão de Alexandre.
A mensagem logo abaixo dizia:
Agora ele finalmente entendeu.
Soltei uma risada curta, amarga e exausta.
Não. Ele não tinha entendido.
Ele apenas percebeu que a cadeira estava vazia depois que a mulher que sempre esteve sentada nela desapareceu.
Naquela noite, o advogado indicado por Clara, doutor Bernardo, entrou no quarto carregando um envelope lacrado.
“Isso chegou ao hospital em São Paulo cinco horas depois da sua cirurgia”, disse ele. “Seu marido viu antes que conseguíssemos recuperar o envelope.”
Meu nome estava escrito na frente com a letra da minha mãe.
Minhas mãos tremiam quando o abri.
Dentro havia uma carta, um documento bancário e uma fotografia.
Na foto, minha mãe aparecia ao lado do pai de Alexandre.
No verso, ela havia escrito:
Se algum dia os Monteiro fizerem você sofrer, lembre-se: a empresa que eles tanto valorizam foi construída com o dinheiro da família Ribeiro.
Então o doutor Bernardo disse em voz baixa:
“Sofia, você não tem apenas algumas ações. Você controla a maioria.”







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