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Meu Marido Exigiu O Divórcio Na Frente De Toda A Família — Mas Quando Descobri O Verdadeiro Motivo, Um Segredo De 30 Anos Veio À Tona

Fiquei olhando para a fotografia no celular de Leandro por tempo demais. O homem de terno cinza estava um pouco mais velho do que na imagem que eu guardava na memória, os cabelos agora quase completamente brancos, mas não havia dúvida. Dr. Álvaro Siqueira. Durante meses depois da morte do meu pai, ele aparecera na casa da minha mãe carregando pastas grossas e falando sobre inventário, impostos e documentos que eu, mergulhada no luto, mal conseguia compreender.

— Eu conheço esse homem.

Leandro franziu a testa.

— De onde?

— Ele cuidou do inventário do meu pai.

A expressão dele mudou.

— Marcelo sabia disso?

A pergunta me fez encará-lo.

Claro que sabia.

Marcelo estivera comigo durante todo aquele período. Sentara ao meu lado no escritório de Álvaro. Acompanhara reuniões. Segurara minha mão quando eu precisava assinar documentos e dizia que não conseguia me concentrar.

Na época, aquilo parecera cuidado.

Agora, pela primeira vez, parecia acesso.

— Sabia — respondi.

Leandro guardou o celular.

— Então precisamos descobrir por que eles estavam juntos.

Saímos do restaurante alguns minutos depois. Célia e Marcelo já tinham ido embora. No estacionamento, meu celular mostrava quatro chamadas perdidas do meu marido e duas mensagens.

A primeira dizia: “Vamos conversar em casa.”

A segunda chegou enquanto eu lia a primeira.

“Não envolva Leandro nisso.”

Mostrei a tela ao meu cunhado.

— Ele está com medo de você.

— Não. — Leandro balançou a cabeça. — Está com medo do que eu descobri.

Eu deveria ter ido para casa. Parte de mim queria fazer exatamente isso, sentar Marcelo diante de mim e exigir a verdade. Mas outra parte, mais fria, começou a perceber que durante onze anos eu sempre reagira depois dele. Marcelo explicava, eu acreditava. Marcelo decidia, eu tentava compreender. Se voltasse para casa naquele momento, ele teria tempo para preparar uma versão.

— Você sabe onde fica o escritório do Álvaro? — perguntou Leandro.

Eu sabia.

Quarenta minutos depois estávamos diante do mesmo edifício onde eu estivera sete anos antes. A recepcionista disse que Álvaro estava em reunião, mas quando mencionei meu nome completo, ela levantou os olhos do computador.

Foi rápido.

Quase nada.

Mas percebi.

— Ele sabe que estou vindo?

— Não, senhora.

— Então por que meu nome pareceu familiar?

Ela abriu a boca, mas uma porta se abriu no corredor.

Álvaro apareceu.

Parou assim que me viu.

— Fernanda.

Não houve surpresa suficiente naquela voz.

— Doutor Álvaro.

Ele olhou para Leandro.

— Podemos conversar em particular?

Entramos no escritório. A sala continuava quase igual à que eu lembrava: estantes escuras, diplomas na parede, uma fotografia da família sobre a mesa. Álvaro fechou a porta.

Não sentei.

— O senhor encontrou meu marido recentemente.

Ele tirou os óculos.

— Fernanda...

— Não pergunte como descobri. Só responda.

Álvaro permaneceu calado.

— O senhor encontrou Marcelo?

— Sim.

Senti um aperto no peito.

— Por quê?

— Ele me procurou para esclarecer algumas questões antigas.

— Sobre o inventário do meu pai?

O silêncio dele respondeu antes das palavras.

— Em parte.

Leandro se aproximou.

— Que outra parte?

Álvaro ignorou a pergunta.

— Fernanda, existem regras de confidencialidade.

— Confidencialidade com meu marido sobre o patrimônio da minha família?

— Não é tão simples.

— Então simplifique.

Ele suspirou e caminhou até a janela.

— Quando seu pai morreu, havia bens cuja situação jurídica ainda não estava totalmente definida.

Eu lembrava vagamente disso. Meu pai possuíra imóveis e participações em pequenas empresas. Minha mãe ficara com a maior parte, enquanto alguns ativos tinham sido divididos entre mim e meu irmão, Gustavo, que morava em Portugal havia quase dez anos.

— O inventário foi encerrado.

— O processo principal, sim.

A palavra “principal” fez meu estômago apertar.

— Existia outro?

Álvaro voltou-se para mim.

— Existia uma participação empresarial que seu pai pediu que fosse mantida separada até que determinadas condições fossem cumpridas.

— Que condições?

— Não posso entrar nisso agora.

Ri, incrédula.

— Meu marido está tentando se divorciar de mim, criou uma empresa escondida e se encontrou com o senhor. Acho que “agora” é exatamente o momento.

Álvaro pareceu genuinamente desconfortável.

— Marcelo veio aqui perguntando se essa participação já poderia ser transferida.

— Transferida para quem?

Ele hesitou.

— Para você.

A resposta me confundiu.

— Então por que Marcelo se importaria?

— Foi a mesma pergunta que fiz a ele.

— E o que respondeu?

— Disse que estava organizando o patrimônio do casal antes de uma possível separação.

Leandro soltou uma risada amarga.

— Possível? Ele já tinha preparado os papéis.

Álvaro me observou por alguns segundos.

— Fernanda, você assinou alguma procuração recentemente?

— Não.

— Algum documento bancário?

— Não.

— Alteração societária?

— Eu nem sabia que havia sociedade.

O rosto dele ficou sério.

— Então temos um problema.

Meu coração acelerou.

Álvaro abriu uma gaveta, retirou uma pasta e colocou sobre a mesa.

— Há vinte e três dias, recebi uma solicitação formal relacionada à participação deixada por seu pai.

— De Marcelo?

— Não diretamente.

Ele abriu a pasta e virou uma folha em minha direção.

Havia meu nome completo no topo.

Meu CPF.

Meu endereço.

E uma assinatura.

Minha assinatura.

Ou algo praticamente idêntico a ela.

— Eu nunca assinei isso.

Leandro aproximou-se.

— O que esse documento autoriza?

Álvaro respondeu devagar:

— A abertura de procedimentos para transferência de direitos patrimoniais.

Senti as pernas enfraquecerem e finalmente sentei.

— Quanto vale essa participação?

Álvaro fechou a pasta.

— Quando seu pai morreu, não muito.

— E hoje?

Ele demorou.

— A empresa foi incorporada a um grupo maior há dois anos. Houve valorização.

— Quanto?

Álvaro pegou uma calculadora, mas não digitou nada. Parecia apenas precisar de alguma coisa nas mãos.

— A estimativa mais recente ultrapassa oito milhões de reais.

O número pareceu absurdo.

Oito milhões.

Pensei imediatamente na MCR Participações.

— Marcelo sabia?

— Ele perguntou especificamente sobre a valorização.

Meu estômago revirou.

— Quando?

— Há aproximadamente três meses.

Exatamente quando pedira demissão.

Leandro e eu nos entreolhamos.

As peças começavam a formar alguma coisa terrível.

Mas ainda faltava entender o desenho completo.

— Quero uma cópia de tudo.

Álvaro assentiu.

Enquanto ele fazia as cópias, meu celular vibrou.

Marcelo.

Dessa vez era uma mensagem de áudio.

Coloquei o aparelho no ouvido.

A voz dele estava estranhamente calma.

— Fernanda, volta para casa. A gente conversa. Você está entendendo tudo errado.

Apaguei a tela sem responder.

Quando Álvaro voltou, entregou-me um envelope grosso.

— Procure um advogado independente antes de assinar qualquer coisa.

— Inclusive o divórcio?

— Principalmente o divórcio.

Saímos do escritório perto das seis da tarde. No elevador, Leandro estava inquieto.

— Tem alguma coisa que não fecha.

— O quê?

— Se Marcelo queria colocar as mãos nesses oito milhões, por que pedir o divórcio antes?

Era exatamente a pergunta que eu não conseguia responder.

Cheguei em casa pouco depois das sete.

A porta estava destrancada.

Entrei devagar.

— Marcelo?

Nenhuma resposta.

A sala estava vazia.

No quarto, encontrei o armário dele aberto.

Algumas roupas tinham desaparecido.

Sobre a cama havia apenas um envelope branco com meu nome.

Abri.

Dentro havia uma cópia de um extrato bancário.

Nossa conta conjunta.

Observei os lançamentos dos últimos meses e finalmente encontrei aquilo que nunca tinha procurado porque nunca tivera motivo para desconfiar.

Todos os meses, desde que Marcelo perdera o emprego, entravam exatamente R$ 18.500.

Sempre da mesma origem.

MCR Participações.

Mas havia algo ainda mais estranho.

O primeiro depósito não tinha ocorrido três meses antes.

Voltei algumas páginas.

Seis meses.

Um ano.

Continuei procurando.

Os pagamentos começaram quase dois anos antes.

Marcelo recebia dinheiro daquela empresa muito antes de supostamente criá-la.

Meu celular vibrou novamente.

Desta vez não era Marcelo.

Era minha mãe.

Atendi imediatamente.

— Mãe?

Ela estava chorando.

— Fernanda, seu marido acabou de sair daqui.

Levantei-me num salto.

— O que ele queria?

Houve alguns segundos de silêncio.

— Ele queria a caixa que seu pai deixou para você.

Minha mão apertou o telefone.

— Que caixa?

Minha mãe respirou fundo.

— A que seu pai me fez prometer que só entregaria quando você descobrisse a verdade sobre Marcelo.

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