Aquelas palavras ficaram ecoando na minha cabeça.
Um ano antes da morte do meu pai.
Isso significava que a MCR não tinha surgido como uma solução improvisada depois da demissão de Marcelo. Não era uma empresa criada às pressas para esconder dinheiro durante nosso divórcio. Existia havia oito anos, silenciosamente, atravessando quase todo o período mais importante do nosso casamento.
— Patrícia, onde você está?
— No seu prédio.
— Marcelo está aí.
Houve uma pausa.
— Eu sei.
— Então saia daí.
— Não posso. Há documentos no apartamento que ele pretende retirar hoje.
Meu coração disparou.
— Que documentos?
— Os que podem provar de onde vieram os primeiros recursos da MCR.
Olhei para a caixa deixada por meu pai.
— Como você sabe que estão lá?
— Porque fui eu quem entregou uma cópia a Marcelo.
Aquilo me fez perder a paciência.
— Você acabou de dizer que estava investigando ele.
— E estou. Mas Marcelo me procurou primeiro.
— Para quê?
— Para descobrir se poderia sair da MCR sem ser responsabilizado pelo que aconteceu.
Fechei os olhos.
Cada resposta criava duas novas perguntas.
— Responsabilizado por quê?
Patrícia respirou fundo.
— Não por telefone. Venha para cá e traga tudo o que encontrou sobre Roberto Valença.
A ligação terminou.
Minha mãe segurou meu braço.
— Você não vai voltar sozinha.
— Preciso entender isso.
— Então chama a polícia.
— Com o quê, mãe? Uma empresa antiga, mensagens do meu pai e uma assinatura que pode ter sido falsificada? Eu nem sei ainda qual crime aconteceu.
Peguei a caixa.
Antes de sair, minha mãe colocou-se diante da porta.
— Fernanda, tem outra coisa.
Parei.
— Quando Marcelo veio aqui hoje, ele não perguntou apenas pela caixa.
— O que mais?
— Perguntou pelo compartimento.
Meu sangue gelou.
— Ele disse “compartimento”?
Ela assentiu.
Marcelo sabia da chave 317.
Mas, segundo a carta, apenas meu pai e Álvaro deveriam saber.
No caminho de volta, liguei para Álvaro. Três chamadas. Nenhuma resposta. Na quarta, o telefone foi desligado.
Cheguei ao prédio pouco antes das nove. Leandro estava no saguão.
— Marcelo subiu há uns vinte minutos.
— E Patrícia?
— Também.
— Você entrou?
Ele negou.
— Marcelo me viu. Disse que, se eu continuasse interferindo, nunca mais queria falar comigo.
— E você?
Leandro deu um sorriso triste.
— Disse que primeiro ele precisava voltar a ser o irmão com quem valia a pena falar.
Subimos juntos.
A porta do apartamento estava aberta.
Encontrei Marcelo no escritório, retirando pastas de uma gaveta. Patrícia estava perto da janela, segurando o celular.
— Para — eu disse.
Marcelo virou-se.
Por um instante, pareceu aliviado.
— Finalmente.
— Larga as pastas.
— São minhas.
— Então não vai ter problema em deixar eu ver.
Ele olhou para Patrícia.
— Foi você que ligou para ela?
— Foi.
— Eu mandei você não fazer isso.
Patrícia cruzou os braços.
— Você não me paga para obedecer ordens.
A frase me confundiu.
— Então ele paga você?
— Pagava.
Marcelo fechou a pasta.
— Fernanda, não confie nela.
— Interessante ouvir isso de você.
Coloquei a caixa do meu pai sobre a mesa.
O rosto de Marcelo perdeu a cor.
Foi rápido, mas todos vimos.
— Era isso que você procurava?
— Onde conseguiu?
— Você sabe exatamente onde.
Ele aproximou-se.
Leandro entrou no meio.
— Nem pensa.
Marcelo olhou para o irmão com desprezo.
— Você não entende nada.
— Então explica.
Marcelo passou a mão pelos cabelos.
— Eu estava tentando impedir que isso chegasse até ela.
— Por quê? — perguntei. — Porque meu pai descobriu a MCR?
O silêncio respondeu.
— Oito anos, Marcelo. A empresa existe há oito anos.
Ele olhou para Patrícia.
— Você contou tudo?
— Ainda não.
— Então conta — eu disse. — Agora.
Patrícia colocou uma pasta sobre a mesa.
— MCR foi criada por Roberto Valença. Célia entrou como sócia minoritária desde o início. Meu pai, Eduardo Menezes, era o contador responsável pela estruturação.
Foi então que entendi o sobrenome.
Menezes.
O M.
— Seu pai?
— Sim. Ele morreu há quatro anos. Quando organizei os arquivos dele, encontrei documentos da MCR. Alguns eram normais. Outros não.
Ela retirou três folhas.
— Havia pagamentos periódicos feitos a Marcelo sob a descrição de “consultoria”.
— Os R$ 18.500?
Patrícia me encarou.
— Você encontrou os extratos.
— Desde quando ele recebe?
— Os pagamentos nesse valor começaram há quase dois anos. Antes disso eram menores.
Virei para Marcelo.
— Você recebia dinheiro dessa empresa enquanto meu pai estava vivo?
— Não diretamente.
— Isso não é resposta.
— Fernanda, eu fiz coisas das quais me arrependo.
— Que coisas?
Ele não respondeu.
Patrícia respondeu por ele.
— Marcelo forneceu informações.
Senti o peito apertar.
— Informações sobre quê?
— Sobre Augusto.
Meu pai.
A sala ficou silenciosa.
— Que tipo de informações?
Marcelo finalmente falou:
— No começo, coisas pequenas.
— Pequenas?
— Reuniões. Negociações. Empresas com quem ele estava conversando.
— Você espionava meu pai?
— Eu não via dessa forma.
Ri de incredulidade.
— Claro que não.
— Roberto dizia que queria investir nos mesmos setores. Eu estava endividado. Ele pagava pelas informações.
— E sua mãe?
Marcelo olhou para o chão.
— Foi ela quem apresentou Roberto para mim.
Aquela resposta doeu de um jeito diferente.
Célia não apenas sabia.
Estava lá desde o começo.
— Então meu pai descobriu.
— Suspeitou.
— E deixou provas.
Olhei para a caixa.
Marcelo ficou tenso.
Peguei a chave.
— Compartimento 317. Como você sabia?
Ele demorou tanto para responder que percebi que finalmente tinha chegado a alguma coisa que ele realmente não queria revelar.
— Marcelo.
— Seu pai me contou.
— Mentira.
— Não exatamente.
— Então como?
Ele fechou os olhos.
— Eu ouvi uma conversa dele com Álvaro.
Meu coração afundou.
— Foi por isso que você procurou Álvaro agora.
— Sim.
— O que existe naquele compartimento?
— Eu não sei.
Patrícia soltou uma risada curta.
— Sabe o suficiente para estar desesperado.
Marcelo virou-se para ela.
— Você não entende o que Roberto é capaz de fazer.
Foi a primeira vez que ouvi medo verdadeiro na voz dele.
— Roberto está ameaçando você?
— Não só a mim.
Ele me encarou.
— Foi por isso que eu pedi o divórcio.
Fiquei imóvel.
— Não tente transformar isso em sacrifício.
— Não estou tentando.
— Você queria me proteger?
— Queria tirar legalmente meu nome de qualquer vínculo com o seu patrimônio antes que Roberto percebesse que você tinha direito à participação do seu pai.
— Depois de passar anos recebendo dinheiro dele?
Marcelo não respondeu.
— Por que agora?
— Porque três meses atrás eu descobri o que ele realmente queria.
— O quê?
Marcelo olhou para a caixa.
— Seu pai não deixou apenas uma participação para você.
Patrícia franziu a testa.
Aquilo parecia novidade até para ela.
— Do que você está falando? — perguntei.
Marcelo aproximou-se da mesa.
— A empresa que vale oito milhões é só uma parte.
— Uma parte de quê?
Antes que ele respondesse, o interfone tocou.
Todos nos assustamos.
Atendi.
— Senhora Fernanda? — disse o porteiro. — Tem um homem aqui perguntando pelo senhor Marcelo.
Marcelo ficou branco.
— Nome?
Houve alguns segundos enquanto o porteiro perguntava.
— Roberto Valença.
Ninguém falou.
Marcelo caminhou até mim e desligou o interfone.
— Não deixa ele subir.
— Por quê?
— Porque ele não veio falar comigo.
Marcelo olhou diretamente para a caixa sobre a mesa.
— Ele veio buscar isso.
Patrícia rapidamente fechou as cortinas.
Leandro perguntou:
— Como Roberto sabe que a caixa está aqui?
Marcelo não respondeu.
Foi meu celular que respondeu por ele.
Uma mensagem chegou de um número desconhecido.
Havia apenas uma fotografia.
Minha mãe, entrando em casa depois que eu saíra.
Fotografada da calçada.
Abaixo, uma frase:
“Compartimento 317. Amanhã, 10h. Leve a chave e venha sozinha.”
Meu corpo ficou gelado.
Então chegou uma segunda mensagem.
Uma fotografia antiga.
Meu pai estava vivo nela, sentado à mesa de um restaurante.
Do outro lado estava Roberto Valença.
No verso da fotografia, alguém havia escrito uma data.
Nove anos atrás.
Antes da criação da MCR.
E abaixo da data havia quatro palavras escritas à mão:
“Augusto aceitou o acordo.”







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