Fiquei olhando para as quatro palavras até elas perderem o sentido.
“Augusto aceitou o acordo.”
Meu pai passara anos sendo apresentado naquela história como alguém que desconfiava de Marcelo, tentava proteger meu patrimônio e percebia movimentos que eu nunca enxergara. Mas aquela fotografia dizia que ele conhecia Roberto antes de todos nós. Pior: dizia que havia aceitado alguma coisa dele.
— Isso pode ser falso — disse Leandro.
Patrícia pegou meu celular e ampliou a imagem.
— A fotografia parece antiga de verdade.
Marcelo não disse nada.
Olhei para ele.
— Você já tinha visto isso?
— Não essa foto.
— Mas sabia do acordo.
Ele desviou os olhos.
— Marcelo.
— Eu ouvi Roberto mencionar algumas vezes.
— Que acordo?
— Nunca explicou.
— Você trabalhou para esse homem durante anos e nunca perguntou?
— Perguntei. Ele dizia que era assunto entre ele e seu pai.
Meu celular vibrou novamente.
“10h. Não envolva polícia.”
Não havia ameaça explícita. Nem precisava.
A fotografia da minha mãe já tinha cumprido essa função.
— Vou encontrar Roberto amanhã.
— Não — Marcelo respondeu imediatamente.
— Você perdeu o direito de decidir qualquer coisa por mim.
— Fernanda, você não sabe com quem está lidando.
— E você sabe?
Ele ficou calado.
— Então começa a falar.
Patrícia puxou uma cadeira.
— Ele tem razão numa coisa. Antes de você ir a qualquer lugar, precisamos entender o que Roberto espera encontrar no compartimento 317.
Peguei a chave deixada por meu pai.
— Álvaro sabe onde fica.
Liguei novamente.
Dessa vez ele atendeu.
— Fernanda.
A voz estava estranha.
— Onde fica o compartimento 317?
Silêncio.
— Você abriu a caixa.
— Onde fica?
— No Banco Mercantil Paulista, agência central. Cofres privados.
Patrícia levantou os olhos.
— Precisamos chegar antes de Roberto — murmurou.
Álvaro ouviu.
— Quem está com você?
— Isso importa?
— Importa muito.
— Marcelo, Leandro e Patrícia Menezes.
A linha ficou completamente silenciosa.
— Álvaro?
Quando respondeu, a voz tinha mudado.
— Saia daí.
Olhei para Patrícia.
— Por quê?
— Fernanda, escute. Não abra o compartimento com nenhum deles presente.
Marcelo aproximou-se do telefone.
— O que você está escondendo, Álvaro?
— Mais do que você imagina.
A ligação caiu.
Tentei novamente.
Desligado.
Marcelo soltou um palavrão.
Patrícia permaneceu imóvel.
— Ele disse “nenhum deles” — falei.
Ela entendeu imediatamente.
— Inclusive eu.
— Por que meu pai não deveria confiar em você?
— Seu pai nem me conhecia.
— Mas conhecia seu pai.
O rosto dela endureceu.
— Isso não prova nada.
— Hoje eu descobri que praticamente todo mundo nesta sala escondeu alguma coisa de mim. Então, a partir de agora, ninguém ganha confiança de graça.
Peguei a caixa e fui para o quarto.
— Fernanda — Marcelo chamou.
Fechei a porta.
Não dormi.
Às sete da manhã, tomei uma decisão que ninguém esperava.
Eu não iria ao encontro de Roberto às dez.
Iria ao banco antes.
Às oito e quinze, já estava na agência central do Banco Mercantil Paulista. Não contei a Marcelo, Leandro nem Patrícia. Minha mãe era a única pessoa que sabia onde eu estava.
Apresentei meus documentos e a chave.
A funcionária digitou algumas informações.
Depois franziu a testa.
— Senhora Fernanda, preciso chamar o gerente.
Meu coração acelerou.
Um homem chamado Sérgio apareceu alguns minutos depois e me levou até uma sala reservada.
— Existe algum problema?
Ele colocou uma ficha diante de mim.
— Este compartimento possui uma condição especial de acesso.
— Qual?
— Há dois titulares autorizados.
— Meu pai e eu?
Sérgio negou.
— A senhora e outra pessoa.
Meu estômago apertou.
— Quem?
Ele girou a ficha.
Li o nome.
Célia Moreira Carvalho.
Minha sogra.
Por alguns segundos, pensei que fosse algum erro.
— Isso é impossível.
— A autorização foi registrada há oito anos.
A mesma época da criação da MCR.
— Ela pode abrir o compartimento sem mim?
— Não. O acesso exige os dois titulares.
Aquilo explicava alguma coisa.
Mas criava uma pergunta muito pior.
Por que meu pai colocaria Célia como cotitular de algo destinado a mim?
— Quem fez esse registro?
Sérgio verificou.
— Augusto Ribeiro.
Meu pai.
Senti o chão desaparecer sob meus pés.
— Quero falar com Célia.
Liguei.
Ela atendeu no quarto toque.
— Fernanda?
— Estou no banco.
Silêncio.
— Qual banco?
— Não faça isso comigo. Compartimento 317.
Ouvi a respiração dela mudar.
— Você encontrou a chave.
— E descobri seu nome.
Célia começou a chorar.
Não era a reação que esperava.
— Eu queria que isso nunca acontecesse.
— Então venha para cá.
— Fernanda...
— Agora.
Ela chegou quarenta minutos depois.
Sem maquiagem, usando roupas simples e óculos escuros. Parecia completamente diferente da mulher que, menos de vinte e quatro horas antes, mandara que eu aceitasse o divórcio “com dignidade”.
Quando ficamos sozinhas, perguntei:
— Por que meu pai colocou seu nome naquele cofre?
Ela retirou os óculos.
Os olhos estavam vermelhos.
— Porque ele não confiava em Marcelo.
— E confiava em você?
Célia soltou uma risada amarga.
— Não.
Aquilo me surpreendeu.
— Então por quê?
— Porque eu devia uma coisa ao seu pai.
— O quê?
Ela demorou.
— A verdade.
Sérgio nos conduziu até o setor de cofres. Eu inseri minha chave. Célia recebeu outra que permanecia guardada pelo banco sob instruções específicas.
As duas foram giradas.
A porta abriu.
Dentro havia um único envelope grosso e uma pequena caixa de madeira.
Nenhum dinheiro.
Nenhuma joia.
No envelope, encontrei contratos antigos, registros societários e um documento com o nome de Roberto.
Célia tocou meu braço.
— Antes que você leia, precisa entender uma coisa. Roberto e seu pai não eram inimigos no começo.
— Eram sócios?
— Quase.
Ela apontou para a fotografia que Roberto havia enviado.
— O acordo era real.
Abri o primeiro contrato.
Meu pai havia concordado em financiar uma empresa criada por Roberto.
Valor inicial: dois milhões de reais.
— Meu pai investiu nele?
— Sim.
— Então por que esconder isso?
Célia respirou fundo.
— Porque o dinheiro desapareceu.
Continuei lendo.
Havia transferências para várias empresas.
Uma delas me fez parar.
MCR Participações.
Mas a data era anterior à fundação oficial da empresa.
— Isso não faz sentido.
— Faz quando você percebe que MCR não começou como empresa.
Olhei para ela.
— O que era?
— Uma conta informal. Um código usado entre três pessoas.
Menezes.
Célia.
Roberto.
— Você roubou meu pai?
Minha voz saiu baixa.
Ela começou a chorar.
— Eu ajudei Roberto a movimentar dinheiro. Eu não sabia de onde vinha no começo. Quando descobri, já estava envolvida.
— E meu pai descobriu.
— Descobriu.
— Por que não denunciou vocês?
Célia olhou para a caixa de madeira.
— Porque Roberto tinha alguma coisa contra ele.
Meu coração acelerou.
— O quê?
— Nunca soube. Augusto só me disse que, se aquilo viesse a público, destruiria sua família.
Abri a caixa.
Dentro havia um gravador digital antigo e um cartão de memória.
Também havia outro envelope.
Desta vez, a letra não era do meu pai.
Era de Célia.
“Para Fernanda, quando não houver mais como esconder.”
Olhei para ela.
— Você escreveu isso?
— Há oito anos.
Abri.
Antes que conseguisse ler, meu celular tocou.
Marcelo.
Ignorei.
Tocou novamente.
Na terceira vez, atendi.
— Onde você está? — ele perguntou, desesperado.
— Não importa.
— Está com minha mãe?
Olhei para Célia.
— Por quê?
— Porque Roberto acabou de me ligar. Ele sabe que vocês abriram o cofre.
Meu sangue gelou.
Olhei em volta.
Aquela área era fechada. Privada.
— Como?
— Não sei. Mas ele disse uma coisa.
— O quê?
Marcelo ficou alguns segundos em silêncio.
— Disse que vocês vão encontrar uma gravação.
Meus olhos foram imediatamente para o aparelho.
— E?
A voz de Marcelo baixou.
— Fernanda, não escuta.
— Por quê?
— Porque a voz naquela gravação é do seu pai.
Desliguei.
Célia estava pálida.
Peguei o gravador e pressionei o botão.
Um chiado preencheu a pequena sala.
Depois ouvi a voz de Roberto, mais jovem:
— Se alguma coisa acontecer, todos nós caímos.
Houve alguns segundos de silêncio.
Então outra voz respondeu.
Meu pai.
Perfeitamente reconhecível.
— Não. Se alguma coisa acontecer, minha filha nunca poderá descobrir que fui eu quem colocou Marcelo dentro disso.
Célia fechou os olhos.
Minha mão começou a tremer.
Na gravação, Roberto perguntou:
— E quando Fernanda descobrir por que você escolheu o próprio genro?
Meu pai demorou alguns segundos.
Então respondeu:
— Ela vai entender quando souber quem Marcelo realmente é.







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