A gravação continuou rodando, mas durante alguns segundos eu não ouvi mais nada. A última frase do meu pai parecia ter ocupado todo o espaço dentro daquela sala.
“Quando souber quem Marcelo realmente é.”
Olhei para Célia.
— Quem é Marcelo?
Ela abriu os olhos devagar.
— Seu marido.
— Não brinque comigo.
— Eu não estou brincando.
— Meu pai sabia alguma coisa sobre ele antes de eu saber?
Célia segurou a borda da mesa.
— Fernanda, algumas coisas começaram muito antes do seu casamento.
Meu coração batia tão forte que mal conseguia respirar.
— Então começa do início.
Ela olhou para o gravador.
— Primeiro escuta.
Pressionei novamente o botão.
A voz de Roberto voltou:
— Você está usando o rapaz.
Meu pai respondeu:
— Estou dando uma oportunidade.
— Sem contar quem está pagando?
— Quanto menos Marcelo souber, melhor.
— E se ele descobrir?
Meu pai demorou.
— Até lá, espero que tenha escolhido minha filha em vez do dinheiro.
A gravação terminou.
Fiquei imóvel.
— Meu pai pagava Marcelo?
Célia assentiu lentamente.
— No começo.
Senti náusea.
— Desde quando?
— Antes de vocês se casarem.
Aquilo foi pior do que qualquer traição que eu imaginara.
— Meu casamento foi comprado?
— Não.
— Você acabou de dizer que meu pai pagava meu marido!
— Não para ficar com você.
— Então para quê?
Célia puxou a cadeira e sentou.
— Marcelo tinha vinte e seis anos quando conheceu Roberto. Estava endividado. O pai dele tinha morrido deixando dívidas, e eu estava prestes a perder nossa casa.
Eu sabia das dificuldades financeiras da família de Marcelo, mas sempre ouvira uma versão simples: o pai morrera, Célia reconstruíra a vida e os filhos trabalharam cedo.
— Roberto ofereceu dinheiro para Marcelo conseguir informações sobre empresários com quem ele queria negociar.
— Inclusive meu pai.
— Sim.
— E você deixou seu filho fazer isso?
Ela abaixou a cabeça.
— Eu apresentei os dois.
A confissão saiu quase inaudível.
— Então meu pai descobriu que Marcelo o espionava.
— Descobriu antes de vocês ficarem noivos.
Levantei-me.
— E não me contou?
— Porque decidiu testar Marcelo.
Ri, sem acreditar.
— Meu pai transformou minha vida num teste?
— Ele queria descobrir se Marcelo estava com você por interesse ou se realmente te amava.
— E como ele faria isso?
Célia apontou para os documentos.
— Oferecendo mais dinheiro.
Senti um frio percorrer minhas costas.
— Meu pai continuou pagando Marcelo para ver se ele me trairia?
— Não exatamente. Augusto fez Marcelo acreditar que Roberto ainda estava por trás de alguns pagamentos. Em troca, pediu informações falsas, pequenos serviços, coisas sem importância. Queria saber até onde ele iria.
— Isso é absurdo.
— Eu disse a ele a mesma coisa.
— E qual foi o resultado?
Célia me encarou.
— Marcelo recusou o último pagamento.
Minha raiva encontrou uma fresta de confusão.
— Quando?
— Uma semana antes do casamento de vocês.
Fiquei em silêncio.
— Ele disse que não queria mais participar daquilo — continuou Célia. — Disse que ia contar tudo para você.
— Mas não contou.
— Porque seu pai o impediu.
— Por quê?
— Augusto disse que, se Marcelo te contasse, você descobriria também que seu próprio pai tinha armado tudo.
A imagem que eu guardava do meu pai começou a rachar.
Não porque ele deixara de me amar.
Talvez justamente porque me amara de uma maneira controladora demais.
— Então Marcelo entrou no casamento carregando esse segredo.
— Sim.
— E depois voltou a trabalhar para Roberto.
Célia fechou os olhos.
— Anos depois.
— Portanto ele fez uma escolha.
— Fez.
Aquilo importava.
Marcelo podia ter sido manipulado quando jovem. Podia ter sido colocado numa situação criada por Roberto e depois alimentada pelo meu pai. Mas os últimos anos eram responsabilidade dele.
Peguei o envelope escrito por Célia.
— O que tem aqui?
— Minha confissão.
— Para quê?
— Augusto me obrigou a escrever.
Abri.
Célia admitia participação nas primeiras movimentações financeiras feitas para Roberto. Havia datas, valores e contas. No final, uma frase chamou minha atenção:
“Concordo em manter meu nome como responsável formal pelo mecanismo MCR até que Augusto consiga recuperar o controle das participações desviadas.”
— Participações desviadas?
Célia assentiu.
— Roberto não roubou apenas dinheiro. Usou os dois milhões para comprar ações e direitos empresariais que deveriam pertencer ao seu pai.
Olhei os documentos novamente.
— E são essas participações que hoje valem oito milhões?
— Não.
Meu coração apertou.
— Então quanto estamos falando?
Ela hesitou.
— Não sei o valor atual.
— Estimativa.
— Augusto acreditava que, se o plano desse certo, poderia valer dezenas de milhões.
Foi então que entendi a frase de Marcelo na noite anterior.
A empresa de oito milhões era só uma parte.
— Meu pai conseguiu recuperar?
— Parte.
— E o resto?
Célia apontou para um contrato dentro do envelope.
Havia uma empresa chamada Horizonte Desenvolvimento S.A.
— Nunca ouvi falar.
— Porque mudou de nome duas vezes. Hoje faz parte de um grupo imobiliário enorme.
Passei os olhos pelas páginas.
Meu pai possuía direitos sobre 12,5% de uma holding ligada à empresa.
— Isso passou para mim?
— Deveria.
— Deveria?
— Roberto contestou a origem dos direitos depois que Augusto morreu. Álvaro manteve tudo bloqueado.
De repente, o encontro entre Marcelo, Patrícia e Álvaro começou a fazer sentido.
— E agora?
— Agora existe um prazo.
— Que prazo?
— Não sei.
Peguei o celular e liguei para Álvaro.
Desligado.
Outra vez.
Nada.
Então liguei para Patrícia.
Ela atendeu.
— Você abriu?
— Sim.
— Encontrou a Horizonte?
Olhei para Célia.
— Como você sabe?
— Porque era isso que meu pai investigava antes de morrer.
— Quanto vale?
Patrícia respirou fundo.
— A participação discutida? Pela última avaliação que encontrei, algo entre quarenta e cinquenta milhões.
Sentei.
Oito milhões já pareciam irreais.
Quarenta milhões eram outra realidade.
— Por que Marcelo queria o divórcio antes disso aparecer?
— Talvez porque casados sob comunhão parcial, qualquer discussão sobre quando esse direito patrimonial efetivamente entrou no seu patrimônio poderia arrastá-lo para o processo. Mas acho que existe outro motivo.
— Qual?
— Encontrei o pedido de demissão dele.
— E?
— Marcelo não pediu demissão.
Meu corpo ficou tenso.
— Leandro disse que ele saiu da empresa.
— Saiu. Mas foi demitido.
— Por quê?
— A empresa descobriu que ele acessou arquivos confidenciais de um cliente.
Fechei os olhos.
— Roberto?
— Não. Horizonte Desenvolvimento.
A informação mudou tudo outra vez.
— O que Marcelo estava procurando?
— Documentos sobre os 12,5%.
Célia levantou-se.
— Ele estava tentando recuperar para Fernanda.
Patrícia respondeu:
— Talvez.
A palavra ficou pesada.
— Talvez?
— Porque encontrei outra coisa.
— O quê?
— Um e-mail enviado por Marcelo três meses atrás, dois dias antes de ser demitido.
— Para quem?
— Roberto.
Meu estômago afundou.
— O que dizia?
Patrícia ficou em silêncio.
— Patrícia.
— “Encontrei o documento original. Augusto estava certo. Fernanda é a beneficiária. Precisamos terminar isso antes que ela descubra.”
Fechei os olhos.
Aquilo parecia condená-lo.
Mas havia algo errado.
— “Precisamos terminar isso” pode significar qualquer coisa.
— Exatamente — disse Patrícia. — Por isso procurei os anexos.
— Encontrou?
— Um.
Ouvi teclas do outro lado.
Meu celular vibrou.
Um arquivo chegou.
Abri.
Era uma cópia de um contrato assinado por meu pai.
No topo aparecia meu nome.
Mais abaixo, o de Marcelo.
E uma cláusula destacada:
“Em caso de dissolução do casamento por iniciativa de Marcelo Carvalho antes da liberação definitiva das participações, quaisquer direitos econômicos atribuídos ao cônjuge serão automaticamente renunciados.”
Li três vezes.
Meu peito apertou.
Se aquilo fosse válido, Marcelo não estava tentando ganhar dinheiro com o divórcio.
Estava abrindo mão dele.
— Ele queria sair do casamento antes que os milhões fossem liberados — murmurei.
Célia levou a mão à boca.
Patrícia permaneceu em silêncio.
De repente, lembrei do aniversário.
A pressa.
A agressividade.
“Assina.”
Ele precisava que o divórcio acontecesse.
Mas por quê?
Meu celular tocou.
Leandro.
Atendi.
— Fernanda, onde você está?
— No banco.
— Não volta para casa.
Levantei imediatamente.
— O que aconteceu?
— Estou no apartamento.
Ouvi passos e gavetas sendo abertas.
— Marcelo sumiu.
— Como assim?
— O celular dele está aqui. Carteira também. O carro continua na garagem.
Meu sangue gelou.
— Você chamou a polícia?
— Ainda não. Porque encontrei uma coisa no escritório dele.
— O quê?
Leandro respirou fundo.
— Um segundo conjunto de papéis do divórcio.
Fechei os olhos.
— E daí?
— Esses são diferentes dos que ele colocou na sua frente ontem.
— Diferentes como?
— A data.
— Que data?
A resposta de Leandro fez Célia se levantar devagar diante de mim.
— Marcelo assinou esses documentos há sete meses.
Sete meses.
Muito antes de perder o emprego.
Muito antes de descobrir oficialmente a participação milionária.
— Tem mais — disse Leandro.
— Fala.
— Há uma carta junto.
Ouvi o papel sendo aberto.
A voz dele mudou quando começou a ler.
— “Se Fernanda estiver lendo isto, significa que eu não consegui sair antes que Roberto entendesse por que Augusto me colocou na vida dela.”
Meu coração parou por um instante.
— Continua.
Silêncio.
— Leandro?
Quando ele respondeu, estava quase sussurrando.
— A próxima frase é: “Fernanda nunca soube como nos conhecemos de verdade. Eu também não, até sete meses atrás.”
Apertei o telefone.
— O que vem depois?
Ouvi Leandro virar a página.
Então ele parou.
— Meu Deus.
— O quê?
— Fernanda... a última página foi arrancada.
E naquele exato instante, Célia deixou cair a segunda chave do cofre.
Olhei para ela.
Seu rosto estava completamente branco.
— Você sabe o que estava escrito.
Ela negou, mas os olhos entregaram antes da voz.
Aproximei-me.
— Quem é Marcelo?
Célia começou a chorar.
— Eu devia ter contado há muitos anos.
— Contado o quê?
Ela respirou fundo.
— Que Roberto não conheceu Marcelo por minha causa.
O silêncio ficou absoluto.
— Foi Augusto quem encontrou Marcelo primeiro.







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