Célia segurou a borda da mesa como se as pernas tivessem perdido a força. Eu não conseguia tirar os olhos da tela. Henrique Carvalho estava ali, mais velho do que nas fotografias que eu conhecia, mas vivo, falando diretamente para a câmera nove anos antes — três anos depois da data em que Marcelo e Leandro acreditavam ter enterrado o próprio pai.
— Isso não pode ser verdade — Célia sussurrou.
Patrícia pausou o vídeo.
— Você não sabia?
— Eu vi o corpo dele.
A frase fez todos olharmos para ela.
— No hospital?
Célia hesitou.
— Não. O caixão chegou fechado. Disseram que o acidente tinha sido grave demais. Eu quis abrir, mas Roberto disse que Henrique tinha deixado instruções...
Ela parou.
O nome de Roberto transformou sua expressão.
— Foi ele quem organizou o funeral.
Pressionei play novamente.
Henrique continuou:
— Minha morte precisava parecer real porque Roberto já sabia que eu tinha copiado os documentos da Horizonte. Augusto me ajudou a desaparecer. Era para durar alguns meses, até reunirmos provas suficientes. Mas Roberto descobriu parte do plano.
Meu pai tomou a palavra:
— E ameaçou as famílias.
Henrique abaixou os olhos.
— Então eu permaneci morto.
Célia começou a chorar.
— Doze anos...
Na gravação, Henrique parecia responder a ela através do tempo.
— Célia, se você assistir a isto, eu sei que não existe explicação capaz de devolver os anos que tirei de vocês. Mas, naquela época, voltar significaria colocar Marcelo e Leandro diretamente na mira de Roberto.
Meu celular vibrou.
Uma mensagem de Leandro.
“Estou bem. Não chamem ninguém. Preciso terminar isso.”
Liguei imediatamente.
Desligado.
— Ele está vivo — falei.
Mostrei a mensagem.
Patrícia observou o horário.
— Foi enviada agora.
Célia pegou meu telefone.
— Então Roberto está com ele?
— Talvez não — respondi.
Continuei o vídeo.
Meu pai retirou uma pasta.
— Os documentos originais provam que Roberto desviou as participações de Henrique e Eduardo Menezes e depois tentou incorporar minha parte. Mas isso não é suficiente. Precisamos provar que ele sabia que as transferências eram fraudulentas.
Henrique colocou sobre a mesa um pequeno gravador.
— Essa prova existe.
Patrícia aproximou-se da tela.
— Meu pai.
— O quê?
Ela apontou.
— Eduardo tinha um gravador exatamente assim.
No vídeo, Henrique explicou:
— Eduardo registrou uma reunião em que Roberto admite tudo. Augusto guardará uma cópia. Eu ficarei com outra.
Meu pai olhou para a câmera.
— Se estiverem vendo isto e a gravação não estiver junto, procurem Eduardo Menezes.
Patrícia ficou imóvel.
— Meu pai morreu quatro anos atrás.
— Ele deixou arquivos para você — lembrei.
Ela fechou os olhos.
— Sim, mas nunca encontrei gravação nenhuma.
— Talvez porque não soubesse o que procurar.
O vídeo ainda não terminara.
Meu pai respirou fundo.
— Existe mais uma coisa que Fernanda precisa saber. Marcelo não conhece este plano. Não vou envolver minha filha nisso enquanto houver outra saída. Mas, se eu morrer antes de resolver tudo, os direitos que recuperei serão transferidos para ela sob proteção jurídica. Marcelo só poderá ser prejudicado se permanecer ligado economicamente ao patrimônio no momento da liberação.
A cláusula do divórcio.
Meu pai a criara anos antes.
Não para separar nosso casamento, mas para impedir que os antigos vínculos de Marcelo com Roberto contaminassem meus direitos.
Henrique perguntou:
— E se eles continuarem casados?
Meu pai ficou em silêncio.
— Então Marcelo terá de escolher.
A gravação terminou.
Naquele momento compreendi por que Marcelo preparara o divórcio sete meses antes. Ele descobrira a estrutura criada pelo meu pai. Sabia que permanecer casado comigo poderia permitir que Roberto contestasse a transferência. Mas, em vez de contar a verdade, fizera aquilo que todos os homens naquela história pareciam fazer melhor: decidir por mim.
— Ainda não perdoo Marcelo — falei.
Célia me encarou.
— Fernanda...
— Talvez ele estivesse tentando me proteger. Mas mentiu durante anos. Recebeu dinheiro. Decidiu que eu não tinha direito de conhecer minha própria vida.
Patrícia assentiu.
— Uma boa intenção não apaga os métodos.
Foi a primeira frase daquela manhã que me devolveu alguma clareza.
Então o celular de Patrícia tocou.
Ela atendeu e colocou no viva-voz.
— Patrícia Menezes?
— Sim.
— Aqui é o delegado responsável pelo registro do desaparecimento do senhor Leandro Carvalho. Localizamos o veículo associado ao endereço informado.
Célia ficou de pé.
— Encontraram meu filho?
— Ainda não. Mas encontramos outro homem.
Meu coração acelerou.
— Quem?
— Marcelo Carvalho.
O mundo pareceu parar.
— Ele está bem? — perguntei.
— Está sendo atendido. Não apresenta ferimentos graves. Segundo ele, foi ao local voluntariamente para encontrar Roberto Valença.
Respirei pela primeira vez em vários segundos.
— E Roberto?
— Não estava lá quando nossa equipe chegou.
— Marcelo sabe onde está Leandro?
— Disse que acredita saber para onde foram.
Quarenta minutos depois estávamos na delegacia.
Marcelo estava sentado numa sala, exausto, camisa amarrotada e expressão que eu nunca tinha visto nele.
Quando me viu, levantou.
— Fernanda.
Não o abracei.
— Onde está Leandro?
Ele entendeu.
Não era hora de falar sobre nós.
— Foi atrás do meu pai.
Célia empalideceu.
— Você sabe?
Marcelo assentiu.
— Descobri sete meses atrás.
— E não me contou que meu marido estava vivo?
A voz dela se partiu.
— Eu não tinha certeza até ontem.
— Onde ele está?
Marcelo olhou para mim.
— Roberto descobriu que Henrique está vivo. Foi por isso que tudo acelerou.
— Onde?
— Uma propriedade antiga em Atibaia. Era de uma empresa ligada à Horizonte.
Patrícia imediatamente passou o endereço ao delegado.
Eu permaneci diante de Marcelo.
— Por que você sumiu?
— Roberto mandou uma mensagem dizendo que estava com Leandro. Fui atrás dele.
— Sem telefone?
— Ele exigiu.
— E o divórcio?
Marcelo fechou os olhos.
— Era real.
Aquilo ainda doeu.
— Você queria se separar de mim?
— Eu queria que juridicamente você deixasse de ter qualquer ligação econômica comigo antes da liberação das participações.
— Podia ter me contado.
— Eu sei.
— Podia ter confiado em mim.
— Eu sei.
— Em vez disso me humilhou na frente da sua família.
Marcelo abaixou a cabeça.
— Eu precisava que você acreditasse que eu queria sair por egoísmo.
— Por quê?
Ele me encarou.
— Porque Roberto estava observando.
Lembrei da fotografia da minha mãe.
— Desde quando?
— Meses.
— Então o aniversário da sua mãe...
— Foi escolhido porque havia muita gente. Eu acreditava que Roberto jamais faria nada ali.
Célia parecia devastada.
— Você usou meu aniversário?
— Mãe, eu estava tentando...
— Todos vocês estavam tentando alguma coisa! — ela explodiu. — Augusto tentou proteger Fernanda. Henrique tentou proteger vocês. Você tentou proteger sua esposa. E sabem o resultado? Todo mundo passou anos mentindo para as pessoas que dizia amar.
Ninguém respondeu.
Porque ela tinha razão.
O delegado entrou.
— Localizamos o imóvel.
Marcelo levantou.
— Leandro?
— Ainda não. Mas há um carro registrado em nome de Roberto Valença estacionado no local.
Célia tentou acompanhá-los, mas o delegado recusou. Nós permaneceríamos na delegacia.
As duas horas seguintes foram as mais longas da minha vida.
Até que meu celular tocou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Fernanda?
A voz era de Leandro.
— Onde você está?
— Estou bem.
Ouvi movimento atrás dele.
— E Roberto?
Silêncio.
— Leandro.
— Ele foi embora antes da polícia chegar.
— Seu pai está aí?
Outro silêncio.
Depois ouvi uma voz masculina ao fundo.
Mais velha.
— Fernanda?
Meu corpo inteiro arrepiou.
Era Henrique.
— Sim.
— Seu pai falava muito de você.
Olhei para Célia e Marcelo.
— Por que Leandro foi encontrar você?
Henrique respondeu:
— Porque ele entendeu o relógio.
— O cartão?
— O cartão era só uma pista. Augusto sabia que Roberto procuraria o relógio.
— Então onde está a prova verdadeira?
Henrique demorou alguns segundos.
— Com Leandro desde que ele tinha dezessete anos.
Célia arregalou os olhos.
— Isso é impossível.
— Não é — respondeu Henrique. — Eu entreguei pessoalmente.
Leandro voltou ao telefone.
— Eu não sabia o que era, Fernanda. Achei que fosse só uma lembrança.
— O quê?
— Uma fita cassete.
Patrícia levantou-se imediatamente.
— Você está com ela?
— Sim.
— Não coloca em aparelho nenhum — ela disse. — Precisamos preservar o original.
Leandro respirou fundo.
— Tem outra coisa.
— O quê?
— Meu pai contou por que Roberto está desesperado agora.
Marcelo aproximou-se.
— Fala.
— A Horizonte vai concluir uma aquisição daqui a três dias. Depois disso, os 12,5% passam a valer muito mais.
— Quanto? — perguntei.
— Meu pai estima mais de cem milhões.
O número não produziu nenhuma emoção em mim.
Dinheiro já havia destruído coisas demais naquela família.
— E Roberto quer impedir a transferência.
— Sim. Mas não é só isso.
A voz de Leandro mudou.
— A gravação de Eduardo não prova apenas fraude empresarial.
Patrícia ficou imóvel.
— O que mais prova?
— Que Roberto não agiu sozinho.
— Quem ajudou?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Álvaro Siqueira.
Meu coração afundou.
O advogado do meu pai.
O homem que administrara o inventário.
O homem que sabia sobre o compartimento.
— Álvaro trabalhava para Roberto?
— Segundo meu pai, durante anos.
Tudo se encaixou de uma forma terrível.
Foi Álvaro quem controlou os documentos depois da morte do meu pai.
Foi ele quem recebera a assinatura falsificada.
Foi ele quem sabia onde estavam os direitos bloqueados.
— Onde está Álvaro agora? — perguntei.
Leandro respondeu:
— É justamente o problema.
— Por quê?
— Porque ele esteve aqui.
Meu sangue gelou.
— Quando?
— Dez minutos antes da polícia chegar.
— E o que queria?
— A fita.
— Você entregou?
— Não.
Respirei aliviada.
Até ouvir a frase seguinte.
— Mas ele levou meu pai.
Célia soltou um grito abafado.
— Como assim levou?
— Henrique foi com ele voluntariamente.
— Por quê?
Leandro ficou em silêncio por alguns segundos.
— Porque Álvaro disse que Augusto ainda está vivo.
Ninguém na sala se moveu.
Eu parei de respirar.
— Não.
Minha voz saiu quase inaudível.
— Meu pai morreu há sete anos.
— Eu sei.
— Eu vi meu pai no hospital.
— Eu sei.
— Eu estava com ele quando...
Não consegui terminar.
Leandro respondeu com cuidado:
— Fernanda, Henrique disse a mesma coisa sobre o próprio funeral.
Fechei os olhos.
Mas havia uma diferença.
Eu estivera ao lado do meu pai.
Segurara sua mão.
Sentira os dedos dele ficarem frios.
— Isso é mentira de Álvaro.
— Talvez — disse Leandro. — Só que antes de sair, meu pai me deixou uma coisa que Augusto entregou a ele nove anos atrás.
— O quê?
— Uma carta lacrada.
— Para quem?
— Para você.
— O que diz?
— Não abri. Mas tem uma instrução escrita do lado de fora.
Meu coração batia violentamente.
— Qual?
Leandro leu:
— “Fernanda, só abra quando alguém disser que eu sobrevivi.”
Olhei para Marcelo.
Depois para Célia.
Durante sete anos, eu acreditara que meu pai estava morto.
Agora segurava um telefone enquanto alguém me dizia que ele havia previsto exatamente aquele momento.
E, pela primeira vez desde que Marcelo colocou os papéis do divórcio diante de mim, percebi que o segredo central daquela história talvez nunca tivesse sido meu casamento.







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