A frase na tela parecia ter congelado o ar dentro da sala.
“Não deixem que ela descubra o que aconteceu no hospital quando Helena nasceu.”
Eu me aproximei um passo.
— Eduardo, o que aconteceu no hospital?
Ele desviou os olhos.
Foi Teresa quem respondeu.
— Nada.
Rápido demais.
— Então por que alguém está mandando vocês esconderem isso de mim?
— Esse telefone nem é meu — disse Eduardo.
O investigador ergueu o aparelho ainda dentro de um saco de evidências.
— Estava dentro da sua casa, em uma gaveta, recebendo mensagens relacionadas diretamente à capitã Valéria.
Eduardo ficou calado.
Daniela tocou meu braço.
— Valéria, precisamos reconstruir o nascimento de Helena. Tudo. Desde a internação.
Fechei os olhos por um instante.
Helena havia nascido em Brasília, depois de uma gestação que, até as últimas semanas, não apresentara nada incomum.
Na noite do parto, porém, tudo acontecera depressa.
Eu me lembrava das contrações.
Das luzes brancas do corredor.
Da mão de Eduardo segurando a minha.
Depois da anestesia, minhas lembranças se tornavam fragmentadas.
Quando acordei, Teresa estava no quarto.
Eduardo também.
Helena não.
— Onde está minha filha? — eu havia perguntado.
Eduardo dissera que os médicos a tinham levado para observação porque sua respiração estava irregular.
Horas depois, trouxeram Helena para mim.
Eu nunca questionei aquilo.
Até agora.
— Houve alguma coisa diferente naquela noite? — perguntou Daniela.
— Disseram que Helena ficou em observação.
Teresa imediatamente balançou a cabeça.
— Isso acontece com milhares de bebês.
Olhei para ela.
— Quanto tempo você ficou no hospital naquela noite?
— Não me lembro.
— Eu lembro.
A voz saiu antes que eu pudesse pensar.
Teresa me encarou.
— Você estava lá quando acordei. E estava lá antes de me levarem para a sala de cirurgia.
Eduardo passou a mão pelo rosto.
— Isso não tem nada a ver com o refinanciamento.
— Talvez tenha — respondeu Daniela.
A oficial militar anotava tudo.
O investigador pediu o nome do hospital.
Dei a informação.
Daniela já estava digitando no celular.
— Vou solicitar os registros médicos completos. Da Valéria e de Helena.
Teresa deu um passo à frente.
— Você não pode simplesmente—
— Posso — interrompi. — São meus registros e os da minha filha menor de idade.
Teresa parou.
A expressão em seu rosto me disse mais do que qualquer resposta.
Ela não queria que eu visse aqueles documentos.
Pouco depois, os investigadores levaram o notebook, os dois celulares e os documentos encontrados no escritório.
Eduardo recebeu orientação para não destruir, transferir ou alterar qualquer outro registro relacionado às movimentações financeiras.
Verônica foi conduzida separadamente para prestar depoimento.
Antes de sair, ela parou perto de mim.
— Valéria.
Daniela imediatamente se aproximou.
— Qualquer coisa que queira dizer à minha cliente, diga na minha presença.
Verônica assentiu.
— Eu realmente não sei quem é H.
— Mas você sabe alguma coisa — respondi.
Ela apertou a alça da bolsa.
— Uma vez, Eduardo disse que, se tudo desse certo, ele nunca mais precisaria depender do seu salário nem daquela casa.
— O que isso significa?
— Não sei.
Ela hesitou.
— Mas mencionou um acordo antigo.
Eduardo, do outro lado da sala, ergueu a cabeça.
— Verônica!
Um investigador ordenou que ele permanecesse onde estava.
Ela continuou:
— Ele disse: “Minha mãe devia ter resolvido isso quando Helena nasceu.”
Teresa ficou branca.
Verônica saiu.
Eu olhei para minha sogra.
— O que você devia ter resolvido?
— Ela está desesperada e inventando coisas.
Mas Teresa já não parecia a mulher que, dois dias antes, apontara para a porta e mandara que eu desaparecesse.
Parecia alguém vendo uma parede desabar.
Daniela insistiu para que eu não ficasse naquela casa naquela noite.
Voltei para a casa de Sara.
Helena estava dormindo quando cheguei.
Sentei ao lado do berço improvisado e fiquei observando seu peito subir e descer.
Passei a mão delicadamente por seus cabelos.
Durante um ano inteiro, eu havia acreditado conhecer todos os detalhes do nascimento da minha própria filha.
Agora uma mensagem anônima colocava uma sombra sobre aquelas primeiras horas.
Meu celular vibrou às 22h17.
Era Daniela.
— Consegui acesso preliminar aos registros digitais do hospital.
Meu corpo enrijeceu.
— E?
Houve silêncio do outro lado.
— Há inconsistências.
Levantei-me.
— Que tipo?
— No prontuário de Helena consta que ela foi encaminhada para observação neonatal às 3h42.
— Foi o que Eduardo me contou.
— Sim. Mas o registro eletrônico mostra outra coisa.
— O quê?
— Uma alta da observação às 3h39.
Demorei alguns segundos para entender.
— Três minutos antes de entrar?
— Exatamente.
Senti um frio percorrer minhas costas.
Daniela continuou:
— E há mais. Entre 3h40 e 5h12, o prontuário dela foi acessado onze vezes usando uma credencial administrativa, não médica.
— De quem?
— Ainda estamos tentando descobrir.
Olhei para Helena.
— Eduardo estava comigo naquela hora.
— Tem certeza?
Abri a boca.
Então parei.
Eu estava anestesiada.
Não tinha certeza de quase nada.
— Valéria, existe ainda um documento anexado ao arquivo, mas ele foi removido da visualização comum poucas horas depois do parto.
— Você consegue recuperar?
— O hospital está tentando localizar a versão arquivada.
Na manhã seguinte, encontrei Daniela na assistência jurídica militar.
Sobre a mesa havia cópias dos registros financeiros, do refinanciamento e do prontuário de Helena.
O general Vasconcelos também estava presente.
— Capitã — disse ele —, conseguimos identificar parte do caminho dos R$ 200 mil.
Daniela empurrou uma folha em minha direção.
As transferências não tinham ido diretamente para uma conta desconhecida no exterior.
Passaram primeiro por duas empresas.
Uma delas estava vinculada a Verônica.
A outra tinha sido aberta apenas oito meses antes.
O nome me fez prender a respiração.
H Andrade Consultoria.
— H — murmurei.
Daniela assentiu.
— Ainda não sabemos quem controla a empresa de fato. Mas encontramos algo mais importante.
Ela colocou outra folha sobre a mesa.
Era o registro de uma transferência feita três dias depois do nascimento de Helena.
R$ 75 mil.
Origem: uma conta empresarial que eu não conhecia.
Destino: Teresa Alves.
Minha sogra.
Fiquei olhando para o papel.
— Teresa recebeu dinheiro depois que Helena nasceu.
— Sim.
— De quem?
Daniela virou a página.
— A empresa que enviou o pagamento foi encerrada meses depois.
— Quem era o proprietário?
Ela não respondeu imediatamente.
O general Vasconcelos colocou diante de mim uma cópia do quadro societário.
Li o nome uma vez.
Depois outra.
Meu coração disparou.
Eu conhecia aquele sobrenome.
Não de Eduardo.
Não de Teresa.
Mas do hospital.
Estava no crachá do médico que eu me lembrava de ter visto pouco antes de perder a consciência durante o parto.
E naquele instante percebi que alguém ligado ao nascimento de Helena havia pago Teresa apenas três dias depois.
Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.







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