Na manhã seguinte, Daniela me ligou antes das sete.
— Encontraram Henrique Andrade.
Sentei-me imediatamente na cama.
Helena dormia ao meu lado, abraçada ao pequeno coelho de pano que Sara havia colocado com ela durante a noite.
— Onde?
— Em um hotel perto do aeroporto.
— Ele estava fugindo?
— Ainda não sabemos. Mas estava com uma passagem comprada para sair de Brasília naquela tarde.
Meu estômago se fechou.
— Ele falou alguma coisa?
— Pediu advogado.
Fiquei em silêncio.
Daniela continuou:
— Mas os investigadores apreenderam o notebook dele.
Duas horas depois, estávamos novamente reunidos na assistência jurídica militar.
O general Vasconcelos não estava ali como investigador do caso, mas sua presença me tranquilizava.
Daniela colocou diante de mim uma fotografia tirada do computador de Henrique.
Era uma pasta digital.
“HELENA — ORIGINAL.”
Dentro havia exames, comprovantes bancários, cópias de prontuários e gravações de áudio.
— Ele guardou tudo — murmurei.
— Como proteção — respondeu Daniela. — Henrique estava chantageando Eduardo e Teresa.
— Há quanto tempo?
— Pelo menos quatro meses.
Exatamente o período em que eu estivera no treinamento.
Daniela abriu uma planilha recuperada.
Teresa havia feito vários pagamentos menores para Henrique durante o último ano.
Então eles pararam.
Foi aí que começaram as ameaças.
— E os R$ 200 mil? — perguntei.
— Parte seria usada para pagar Henrique depois do refinanciamento.
— E o restante?
— Ainda estamos rastreando.
A investigadora responsável pelo caso entrou na sala segurando outra pasta.
— Conseguimos autorização para examinar as gravações.
Ela conectou um arquivo de áudio.
Primeiro ouvi apenas ruído.
Depois, a voz de Teresa.
Era impossível confundir.
“Você recebeu para resolver isso.”
Henrique respondeu:
“Eu fiz o que você pediu. A segunda amostra deu o resultado que queria.”
“Mas o primeiro exame continua existindo.”
“Porque eu não sou idiota.”
Um arrepio percorreu meus braços.
Então Teresa disse algo que mudou tudo.
“Se Helena for reconhecida como filha dele, eu perco o controle do patrimônio.”
Olhei para Daniela.
— Que patrimônio?
Ela fechou o arquivo.
— Encontramos a resposta esta manhã.
Daniela colocou sobre a mesa uma cópia de um inventário.
O pai de Eduardo, Augusto Alves, havia morrido três anos antes de Helena nascer.
Eu sabia que existira uma disputa patrimonial.
Eduardo sempre dissera que aquilo envolvia imóveis antigos da família e que Teresa cuidava de tudo.
Nunca me interessei.
Agora percebia que deveria ter me interessado.
No testamento, Augusto criara um fundo patrimonial destinado ao primeiro descendente biológico de Eduardo.
Enquanto esse descendente não existisse, Teresa permaneceria como administradora temporária.
Quando uma criança biologicamente reconhecida nascesse, a administração passaria a um gestor independente.
E Teresa teria de apresentar prestação completa de contas.
— Quanto havia nesse fundo? — perguntei.
Daniela respondeu:
— Originalmente, cerca de R$ 4,8 milhões.
Minha garganta secou.
— Originalmente?
Ela virou a página.
— Hoje deveriam existir mais de R$ 5 milhões, considerando os rendimentos.
— E quanto existe?
— Menos de R$ 2 milhões.
Fiquei encarando os números.
— Onde foi parar o resto?
— Transferências, empréstimos particulares, imóveis vendidos abaixo do valor de mercado.
— Teresa.
— Muitas operações levam diretamente a ela.
Tudo finalmente começava a fazer sentido.
Quando Helena nasceu, Teresa não queria descobrir se Eduardo era o pai.
Ela já temia que ele fosse.
Porque o nascimento de uma filha biológica obrigaria Teresa a entregar o controle do fundo e permitiria uma auditoria.
— Então ela pagou Henrique para fabricar um resultado negativo.
— Sim.
— Mas Eduardo viu o teste verdadeiro.
— Exatamente.
A investigadora reproduziu outra gravação.
Desta vez, reconheci a voz de Eduardo.
“Minha mãe disse que isso protegeria todo mundo.”
Henrique respondeu:
“Protegia sua mãe.”
“Se Valéria descobrir o fundo, meu casamento acaba.”
“Então conte para ela.”
“Você não entende. Minha mãe já gastou parte do dinheiro.”
Meu peito doeu.
Eduardo sabia.
Talvez não desde o início.
Mas sabia há pelo menos um ano.
E ficou ao lado da mãe.
Depois permitiu que ela transformasse nossa filha em uma ferramenta para esconder o desvio.
Daniela avançou a gravação.
A voz de Henrique ficou mais baixa.
“Eu não vou continuar carregando isso sozinho. Ou você paga, ou entrego o exame original, os acessos ao prontuário e as transferências.”
Eduardo perguntou:
“Quanto?”
“Duzentos mil agora. O restante depois.”
Daniela pausou.
— Foi por isso que começaram a movimentar sua poupança.
— Mas R$ 200 mil não bastavam.
— Não.
Ela apontou para os documentos da casa.
— Por isso o refinanciamento de R$ 3 milhões.
Tudo se encaixou de uma maneira quase cruelmente perfeita.
Minha ausência durante o treinamento havia criado a oportunidade.
Eles desviaram dinheiro.
Prepararam o refinanciamento.
Inventaram o exame de DNA.
Chamaram parentes para criar testemunhas.
Planejaram me expulsar.
Depois pretendiam alegar abandono e instabilidade.
Tudo para levantar dinheiro suficiente para pagar Henrique e cobrir parte do rombo do fundo antes que alguém descobrisse.
— E Verônica? — perguntei.
— Recebeu para autenticar documentos sem sua presença. Mas parece que Eduardo contou a ela uma versão diferente.
— O tal “verdadeiro pai”.
Daniela assentiu.
— Uma história criada para justificar por que Helena supostamente não seria filha dele.
Eu me lembrei do modo como Eduardo recuara quando tentei me aproximar com Helena nos braços.
Naquele momento eu interpretara como rejeição.
Agora entendia outra coisa.
Medo.
Não de Helena.
Da verdade.
A investigadora fechou a pasta.
— Ainda precisamos provar exatamente quanto Teresa desviou e qual foi a participação de Eduardo em cada operação.
— E Henrique?
— Está negociando cooperação.
Ri sem qualquer humor.
— Depois de aceitar dinheiro para falsificar uma coleta envolvendo minha filha?
— Cooperar não apaga o que ele fez.
Aquilo me bastou.
Quando saí da sala, meu telefone mostrou onze chamadas de Eduardo.
Nenhuma foi atendida.
Mas havia uma mensagem de voz.
Daniela pediu que eu não escutasse sozinha.
Coloquei no viva-voz.
A voz dele parecia quebrada.
“Valéria, eu sei que você descobriu o fundo. Mas tem uma coisa que minha mãe não contou nem para Henrique.”
Parei de respirar.
“Meu pai mudou uma cláusula do testamento poucos dias antes de morrer.”
Daniela me olhou.
A mensagem continuou:
“Se Teresa tivesse desviado qualquer valor, ela perderia não apenas a administração.”
Uma pausa.
“Perderia tudo o que recebeu da herança.”
Outra pausa.
“E esse patrimônio iria para o primeiro descendente de sangue da família.”
Olhei para Helena, adormecida nos braços de Sara do outro lado do corredor.
Eduardo terminou com uma última frase:
“É por isso que minha mãe precisava provar que Helena não era minha filha.”
Naquele instante, compreendi que Teresa não estava lutando apenas para esconder um crime.
Ela estava lutando para impedir que uma criança de um ano herdasse tudo aquilo que ela acreditava pertencer a si mesma.
Continua — clique na Parte 8 para continuar lendo.







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