O nome no registro societário era Dr. Henrique Andrade.
Fiquei imóvel.
A lembrança veio em fragmentos.
Um homem de máscara cirúrgica inclinando-se sobre mim.
Uma voz masculina dizendo que precisavam “agir rápido”.
Depois, nada.
— Ele estava no hospital naquela noite — murmurei.
Daniela assentiu.
— Henrique Andrade era obstetra plantonista, embora não conste como responsável principal pelo seu parto.
— Então por que entrou na minha sala?
— É exatamente o que precisamos descobrir.
O general Vasconcelos apoiou as mãos sobre a mesa.
— Há algo mais estranho.
Ele apontou para as datas.
A empresa de Henrique havia transferido R$ 75 mil para Teresa três dias depois do nascimento de Helena.
Oito meses depois, outra empresa apareceu.
H Andrade Consultoria.
A mesma estrutura agora ligada às movimentações recentes de Eduardo.
— Não pode ser coincidência — eu disse.
— Provavelmente não é — respondeu Daniela. — Mas precisamos separar suspeitas de fatos.
Respirei fundo.
Era difícil.
Cada nova prova parecia empurrar minha vida para uma direção que eu jamais imaginara.
Daniela deslizou outro documento até mim.
— Conseguimos uma ordem para preservar todos os registros médicos originais daquela noite. Inclusive arquivos apagados ou alterados.
— E encontraram o documento removido?
— Parcialmente.
Ela abriu uma cópia digital.
No topo havia meu nome.
Abaixo, o de Helena.
Depois, uma linha marcada como:
“COLETA BIOLÓGICA — AUTORIZAÇÃO EXCEPCIONAL.”
— Coleta de quê?
— Essa é a parte que foi apagada.
Meu coração acelerou.
— Eu não autorizei nenhuma coleta.
— Sua assinatura não aparece no documento.
— Então quem autorizou?
Daniela virou a página.
No campo responsável constavam duas iniciais:
E.A.
Olhei imediatamente para ela.
Eduardo Alves.
— Ele autorizou alguma coisa enquanto eu estava inconsciente.
— É possível.
— E nunca me contou.
O general Vasconcelos permaneceu em silêncio.
Daniela continuou:
— Também existe uma anotação que menciona “material paterno”.
Eu senti o ar desaparecer dos pulmões.
— Paterno?
— Sim.
— Isso era um exame de DNA?
— Ainda não sabemos.
Levantei-me e comecei a andar pela sala.
Tudo parecia convergir para a mesma pergunta.
O exame falso recente.
A história do “verdadeiro pai”.
As mensagens de H.
O pagamento para Teresa.
E agora uma coleta de material biológico no hospital.
— Eduardo sabia desde o nascimento — falei.
— Talvez soubesse de alguma coisa — corrigiu Daniela. — Não sabemos exatamente o quê.
Peguei o celular.
— Quero falar com ele.
— Não.
Parei.
— Daniela—
— Não dê a ele a oportunidade de ajustar a história antes de sabermos o que há nos registros.
Ela tinha razão.
Mesmo assim, cada minuto parecia insuportável.
À tarde, recebemos uma ligação do hospital.
Uma funcionária antiga havia pedido para falar pessoalmente comigo.
Seu nome era enfermeira Lúcia Mendonça.
Ela trabalhava na maternidade quando Helena nasceu.
Encontramo-nos em uma pequena sala administrativa.
Lúcia devia ter pouco mais de cinquenta anos.
Quando me viu, segurou minha mão com força.
— Capitã Valéria, eu deveria ter procurado você antes.
Senti meu corpo inteiro ficar tenso.
— Por quê?
Ela olhou para Daniela antes de responder.
— Porque naquela madrugada aconteceu uma coisa que nunca me pareceu correta.
Sentei-me.
— Conte tudo.
Lúcia respirou fundo.
— Sua filha nasceu saudável.
Meu coração bateu mais forte.
— Disseram que ela teve dificuldade para respirar.
— Não quando saiu da sala.
Pisquei.
— Tem certeza?
— Tenho.
Lúcia continuou.
— Depois do parto, Helena deveria ter sido levada diretamente para você assim que estivesse estável. Mas o Dr. Henrique Andrade apareceu e ordenou que ela fosse levada para uma sala de observação.
— Por qual motivo?
— Ele disse que havia uma preocupação clínica.
— Existia?
— Eu não encontrei nenhuma indicação.
Daniela inclinou-se para frente.
— Quem estava com o médico?
Lúcia hesitou.
— Seu marido.
Fechei os olhos.
— Eduardo.
— Sim.
— E Teresa?
— Ela chegou pouco depois.
Minha garganta ficou seca.
— O que eles fizeram?
Lúcia abaixou a voz.
— O Dr. Henrique pediu um kit de coleta.
Daniela e eu trocamos um olhar.
— DNA? — perguntei.
— Parecia um kit de coleta genética.
— De Helena?
— Sim.
— E de Eduardo?
Lúcia demorou alguns segundos.
— Eu o vi entregar um swab.
A sala ficou silenciosa.
Então tudo pareceu fazer sentido.
Ou quase.
— Então eles fizeram um teste de paternidade quando Helena nasceu.
— Talvez — respondeu Lúcia. — Mas existe uma coisa que não fecha.
— O quê?
Ela juntou as mãos.
— Cerca de quarenta minutos depois, ouvi uma discussão no corredor.
— Entre quem?
— Eduardo e o Dr. Henrique.
— Sobre o resultado?
— Eu não ouvi tudo. Só uma frase.
Meu coração disparou.
— Qual?
Lúcia olhou diretamente para mim.
— Eduardo disse: “Isso é impossível. Ela não pode saber.”
Senti um arrepio atravessar meu corpo.
— E Henrique respondeu?
— Sim.
A enfermeira respirou fundo.
— “Então fale com sua mãe. Foi ela quem começou isso.”
Teresa.
Outra vez Teresa.
Daniela anotou rapidamente.
— Depois disso?
— O Dr. Henrique entrou na sala de observação. Pouco depois, Teresa entrou também.
— E Helena?
Lúcia apertou os lábios.
— Quando saíram, sua filha foi levada até você.
— E o teste?
— Nunca apareceu no prontuário comum.
Daniela perguntou:
— A senhora viu algum resultado?
— Não.
A esperança que surgiu dentro de mim morreu imediatamente.
Mas Lúcia ainda tinha algo a dizer.
— Eu vi uma coisa naquela manhã que nunca esqueci.
Ela abriu a bolsa e retirou um envelope antigo.
— Quando o hospital começou a digitalizar documentos, anos atrás, algumas folhas seriam descartadas depois do escaneamento. Eu encontrei esta cópia no arquivo físico e guardei porque me lembrava daquele plantão.
Daniela colocou luvas antes de receber o envelope.
Dentro havia uma folha parcialmente desbotada.
No topo:
“ANÁLISE DE COMPATIBILIDADE GENÉTICA.”
Meu nome não aparecia.
O de Helena, sim.
E também o de Eduardo.
Abaixo, havia uma conclusão.
Daniela leu primeiro.
Seu rosto mudou.
— Valéria...
— Me diga.
Ela virou a folha para mim.
Li a frase.
“Probabilidade de paternidade: superior a 99,99%.”
Minha visão ficou turva.
Eduardo era o pai de Helena.
Sempre fora.
Então o “verdadeiro pai” que ele mencionara nunca existira.
Ou, pelo menos, não da maneira que Verônica acreditava.
— O exame falso recente foi construído sabendo que este resultado existia — disse Daniela.
Eu ainda encarava o papel.
— Então por que Henrique pagou Teresa?
Ninguém respondeu.
Lúcia apontou para o rodapé da folha.
Havia uma anotação manuscrita quase apagada:
“Segunda amostra incompatível — verificar origem.”
Meu sangue gelou.
— Segunda amostra?
Daniela aproximou o documento da luz.
Ao lado da frase havia apenas duas palavras:
“Recém-nascida B.”
Levantei os olhos.
Helena nunca tivera uma irmã gêmea.
E, naquele instante, percebi que o segredo daquela noite podia ser muito maior do que um exame de paternidade escondido.
Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.







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