Fiquei olhando para as palavras “Recém-nascida B” até elas perderem o sentido.
— Helena não nasceu com outra criança — eu disse.
A enfermeira Lúcia balançou a cabeça.
— Não. Eu teria me lembrado.
Daniela colocou o documento sobre a mesa.
— Então “B” provavelmente não significa bebê B de uma gestação gemelar.
— O que significa?
Lúcia respirou fundo.
— Naquela época, quando duas amostras eram coletadas em sequência antes de receberem identificação definitiva no sistema, às vezes apareciam temporariamente como A e B.
Meu estômago apertou.
— Você está dizendo que havia material de outra criança?
— É possível.
— Na mesma coleta de Helena?
— Isso nunca deveria acontecer.
Daniela perguntou imediatamente:
— Havia outra recém-nascida naquela unidade naquela madrugada?
Lúcia ficou alguns segundos em silêncio.
Então assentiu.
— Havia.
Sentou-se novamente e juntou as mãos.
— Uma menina nasceu cerca de vinte minutos depois de Helena. A mãe chegou em situação de emergência. Houve muita movimentação no setor.
— Qual era o nome?
— Não lembro. Mas consigo lembrar do sobrenome porque houve confusão com as pulseiras de identificação.
Meu coração disparou.
— Confusão?
— Não troca de bebês — esclareceu rapidamente. — Uma pulseira foi impressa duas vezes e precisou ser anulada. O protocolo foi corrigido imediatamente.
Daniela se inclinou.
— Quem estava responsável pela sala naquele momento?
Lúcia respondeu sem hesitar:
— Dr. Henrique Andrade.
O silêncio voltou.
Daniela pediu ao hospital os registros de nascimento daquela madrugada.
Quase uma hora depois, recebemos uma lista parcial.
Duas meninas haviam nascido num intervalo de vinte e três minutos.
Helena Alves.
E Bianca Monteiro.
Daniela percorreu a tela.
— Bianca foi transferida para outro hospital naquela manhã.
— Por quê?
— Complicação cardíaca congênita.
Lúcia franziu a testa.
— Eu me lembro agora.
Ela apontou para o nome.
— Era essa criança.
— O que aconteceu com ela?
Daniela continuou lendo.
— Sobreviveu. Recebeu alta semanas depois.
Senti um alívio inesperado.
Então ela parou.
— Mas existe algo estranho.
— O quê?
— O prontuário de Bianca também foi acessado pela mesma credencial administrativa usada no de Helena.
Olhei para Lúcia.
Ela empalideceu.
— Isso não é normal.
— Quantas vezes? — perguntei.
Daniela conferiu.
— Sete.
Naquela mesma madrugada.
Os dois prontuários.
As duas meninas.
A mesma credencial.
E Henrique Andrade circulando entre as duas salas.
A investigação mudou de direção naquele instante.
Já não procurávamos apenas um exame clandestino.
Procurávamos entender por que alguém havia cruzado dados de duas recém-nascidas.
Daniela conseguiu localizar a mãe de Bianca.
Chamava-se Patrícia Monteiro.
Ela ainda morava no Distrito Federal.
Quando Daniela explicou por telefone que estávamos investigando irregularidades antigas do hospital, Patrícia ficou em silêncio por tanto tempo que achei que a ligação tivesse caído.
Então perguntou:
— Isso tem relação com o Dr. Henrique?
Daniela e eu trocamos um olhar.
— Por que a senhora perguntou isso?
A voz de Patrícia mudou.
— Porque ele apareceu na minha casa quando Bianca tinha seis meses.
Minha pele se arrepiou.
Encontramo-nos com ela naquela tarde.
Patrícia levou uma pasta velha, cheia de exames da filha.
Bianca, segundo ela, havia se recuperado bem e hoje era uma criança saudável.
— Henrique disse que estava revisando um problema administrativo do hospital — contou Patrícia. — Queria saber se eu tinha guardado os documentos do nascimento.
— Ele pediu alguma amostra genética? — perguntei.
Ela me encarou.
— Como você sabe?
Ninguém respondeu.
Patrícia abriu a pasta.
— Ele pediu um cotonete da Bianca.
Daniela imediatamente perguntou:
— A senhora permitiu?
— Não.
— Por quê?
— Porque achei absurdo.
Patrícia puxou uma folha antiga.
— Depois daquela visita, telefonei para o hospital. Disseram que não existia nenhuma revisão administrativa.
Ela então olhou para mim.
— Duas semanas depois, outro homem apareceu.
Meu coração acelerou.
— Quem?
— Não deu nome.
— Como ele era?
Ela tentou descrever.
Homem.
Pouco mais de trinta anos naquela época.
Bem vestido.
Aliança na mão esquerda.
Quando ela mencionou uma pequena cicatriz junto à sobrancelha direita, senti o corpo inteiro endurecer.
Eduardo tinha exatamente aquela cicatriz.
— O que ele queria? — perguntei.
— Saber se Bianca tinha feito algum teste de DNA.
Daniela parou de escrever.
— E o que a senhora respondeu?
— Que não.
Patrícia respirou fundo.
— Aí ele me perguntou uma coisa muito estranha.
— O quê?
— Se, na noite do nascimento, alguém tinha me entregado um bebê que não parecia ser meu.
Senti meu coração bater no pescoço.
— E você?
— Disse que não. Bianca tinha uma pequena marca no tornozelo que eu havia visto assim que nasceu. Era ela.
Aquilo eliminava a ideia mais assustadora.
Nenhuma troca de bebês.
Mas também tornava a anotação ainda mais suspeita.
Se Bianca sempre fora Bianca e Helena sempre fora Helena, alguém havia misturado deliberadamente as amostras.
Daniela voltou ao documento.
— Uma amostra de Helena mostrou Eduardo como pai.
— Sim.
— A segunda, registrada como “recém-nascida B”, não era compatível.
Olhei para ela.
Finalmente entendi.
— Eles usaram material de Bianca.
Lúcia ficou pálida.
— Para criar um resultado negativo.
Meu estômago virou.
O falso exame que Eduardo jogara sobre a mesa depois do meu treinamento não tinha sido uma ideia nova.
Era uma versão de um esquema que começara no hospital, um ano antes.
Mas uma pergunta permanecia.
Por quê?
Se o resultado verdadeiro já provava que Eduardo era o pai, por que alguém precisava fabricar outro?
Patrícia ficou pensativa.
— Talvez vocês devam perguntar quem pagou pelos exames.
Daniela olhou para ela.
— Você sabe?
— Não. Mas lembro de uma conversa no hospital.
Ela apertou os olhos, tentando recuperar a memória.
— Henrique estava discutindo com uma mulher mais velha perto dos elevadores.
— Como ela era?
A descrição veio aos poucos.
Cabelo escuro curto.
Bolsa bege.
Um colar de pérolas.
Teresa usava um colar de pérolas em quase todas as fotografias daquele período.
— O que ela disse? — perguntei.
Patrícia respirou fundo.
— Ela estava furiosa.
— Você ouviu alguma frase?
— Uma.
Meu peito apertou.
— Qual?
Patrícia olhou diretamente para mim.
— “Eu não paguei para você provar que ele é o pai. Eu paguei para provar o contrário.”
O mundo pareceu parar.
Teresa não tinha descoberto uma suposta traição.
Ela já havia tentado fabricar uma.
Desde o dia em que Helena nasceu.
Naquela noite, Daniela recebeu mais uma informação dos investigadores.
Eles tinham conseguido acessar parte do segundo celular de Eduardo.
Havia dezenas de mensagens apagadas com o contato “H”.
Uma delas, enviada três semanas antes do meu retorno do treinamento, havia sido recuperada.
Henrique escrevera:
“Você tem até segunda. Depois disso, entrego à capitã o arquivo original e conto por que sua mãe realmente me pagou.”
Li a frase duas vezes.
O dinheiro do refinanciamento não era apenas para esconder uma fraude antiga.
Eduardo e Teresa estavam sendo pressionados por Henrique.
E o motivo verdadeiro pelo qual Teresa tentara provar que Helena não era filha de Eduardo ainda continuava escondido.
Mas agora eu sabia de uma coisa.
O segredo não começara quando fui para o treinamento.
Começara antes mesmo de eu sair do hospital com minha filha nos braços.
Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.







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