A notícia me deixou sem ar. Durante alguns segundos, ninguém se mexeu. O nome de Camila parecia ter atravessado o quarto como uma lâmina invisível, ligando todas as peças que ainda estavam espalhadas diante de nós.
— Ela está na casa da minha mãe? — perguntei.
O policial assentiu.
— Foi encontrada pela equipe que chegou ao imóvel. Estava escondida em um dos quartos dos fundos.
Meu pai pegou o telefone.
— Coloque-a em um local seguro. Ninguém fala com ela até eu chegar.
— Coronel, ela pediu especificamente para falar com sua filha.
Olhei para meu pai.
— Eu quero falar com ela.
— Mariana...
— Se ela sabe alguma coisa sobre a mamãe, eu preciso ouvir.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Então você não vai falar com ela sozinha.
Pouco depois, uma chamada de vídeo foi estabelecida. A imagem apareceu tremendo por alguns instantes até revelar o rosto de Camila. Eu quase não a reconheci. A mulher que eu conhecera anos antes sempre parecia segura, impecavelmente vestida, dona de uma confiança que fazia todos ao redor prestarem atenção nela. Agora estava pálida, com os cabelos desarrumados e olhos vermelhos de cansaço.
Quando me viu, começou a chorar.
— Mariana...
Meu coração apertou.
— O que você está fazendo na casa da minha mãe?
Camila levou alguns segundos para responder.
— Tentando impedir que eles encontrem uma coisa que sua mãe escondeu.
Meu pai se aproximou da tela.
— Quem são eles?
Camila olhou para ele.
— O senhor sabe muito bem que não é apenas Rafael.
— Então diga o nome.
Ela baixou os olhos.
— Eu não posso fazer isso por telefone.
Meu pai endureceu a expressão.
— Você está dentro de uma propriedade protegida. Há policiais ao seu redor. Se existe alguma ameaça, você está segura.
Camila respirou fundo.
— Eu não tenho medo deles por mim.
Ela olhou diretamente para mim.
— Tenho medo do que farão com você.
Senti um arrepio.
— Por que Rafael conhecia minha mãe?
Camila fechou os olhos.
— Porque sua mãe descobriu o que eles estavam fazendo.
— O quê?
— Lavagem de dinheiro através de contratos falsos. Empresas de fachada. Transferências para contas de pessoas que nem sabiam que estavam envolvidas.
Meu pai permaneceu imóvel.
— E Rafael?
— Rafael não era o responsável por tudo. Ele era um intermediário.
Meu estômago se contraiu.
— Então ele se aproximou de mim por causa da minha família?
Camila não respondeu imediatamente.
Isso foi resposta suficiente.
— Sim.
Senti as lágrimas surgirem.
— Ele nunca me amou.
Camila balançou a cabeça lentamente.
— Eu não sei se em algum momento ele chegou a amar você. Mas sei que, no começo, ele recebeu uma missão.
Meu pai bateu a mão na mesa.
— Quem deu essa missão?
Camila olhou para os lados.
— Alguém que vocês dois conhecem.
A chamada ficou em silêncio.
— Quem? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Seu tio.
Meu pai empalideceu.
— Álvaro?
Camila assentiu.
Eu conhecia Álvaro Almeida. Irmão mais velho do meu pai. Depois da morte da minha mãe, ele havia sido uma das poucas pessoas que continuaram aparecendo em nossa casa. Sempre dizia que queria cuidar de mim. Sempre me tratou como uma sobrinha querida.
Minha cabeça começou a girar.
— Não pode ser.
Camila falou:
— Sua mãe desconfiou dele antes de morrer.
Meu pai parecia incapaz de respirar.
— Por que você nunca me contou?
— Porque eu estava com medo.
— Você trabalhou para eles.
Camila começou a chorar.
— Trabalhei. E me arrependo todos os dias.
A ligação caiu repentinamente.
Meu pai tentou retornar.
Nada.
O policial informou que o sinal havia sido interrompido.
— O que aconteceu? — perguntei.
— A equipe perdeu a conexão com a casa.
Meu pai pegou o casaco.
— Vamos para lá.
Helena imediatamente protestou.
— Coronel, sua filha precisa permanecer em observação.
— Ela não vai sair do hospital.
Meu pai me olhou.
— Eu vou descobrir o que está acontecendo.
Segurei seu braço.
— Pai, não vá sozinho.
Ele segurou minha mão.
— Não vou.
Antes que saísse, porém, meu telefone vibrou.
Número desconhecido.
Uma mensagem.
**“Sua mãe deixou uma segunda gravação. Rafael não sabe que ela existe.”**
Meu coração disparou.
Outra mensagem chegou imediatamente.
**“Procure atrás do espelho do quarto principal.”**
Olhei para meu pai.
— Não vá ainda.
Mostrei a tela.
Ele leu a mensagem.
— Isso pode ser uma armadilha.
— Ou pode ser a resposta.
O policial pegou o telefone e analisou o número.
— Foi enviado de um serviço temporário. Não conseguimos identificar.
Meu pai pensou por alguns segundos.
— Mande uma equipe para a casa. Ninguém toca no espelho até chegarmos.
Enquanto os policiais se organizavam, eu senti uma pressão estranha no abdômen.
Helena percebeu imediatamente.
— Mariana?
— Acho que meu bebê se mexeu.
Ela colocou a mão cuidadosamente sobre minha barriga e sorriu.
— Está se mexendo.
Fechei os olhos.
Depois de tudo aquilo, aquele pequeno movimento parecia uma promessa.
Meu filho ainda estava ali.
Ainda havia algo que eu precisava proteger.
Horas depois, meu pai retornou ao hospital.
A expressão dele me fez saber que alguma coisa tinha acontecido.
— Encontraram a gravação?
Ele assentiu.
— Sim.
— E Camila?
Ele ficou em silêncio.
— Pai?
— Ela desapareceu.
Meu coração gelou.
— Como?
— Quando a equipe chegou ao quarto, havia uma janela aberta. Não havia sinais de arrombamento.
— Então ela fugiu?
— Não sabemos.
Ele se sentou ao meu lado e tirou um pequeno dispositivo do bolso.
— Mas encontramos isso atrás do espelho.
Era um cartão de memória diferente do primeiro.
— Tem a gravação?
— Tem.
Ele colocou o dispositivo sobre a mesa.
— E existe uma coisa que você precisa saber antes de ouvirmos.
— O quê?
Meu pai olhou para mim com uma expressão que eu jamais tinha visto nele.
— A gravação foi feita pela sua mãe na noite anterior à morte dela.
Ele apertou o dispositivo entre os dedos.
— E, no final, ela diz exatamente quem estava com ela naquela noite.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Meu pai conectou o cartão ao computador.
A tela ficou preta.
Então a voz da minha mãe surgiu outra vez.
— Augusto, se você está ouvindo isso, significa que eu não consegui sair daqui.
Houve uma pausa.
Depois ela sussurrou:
— E se Mariana estiver ouvindo... filha, me perdoe.
A gravação continuou por alguns segundos.
Então minha mãe disse uma frase que fez meu pai se levantar bruscamente:
— O homem que está comigo agora é alguém em quem você confia completamente.







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