Meu pai desligou a chamada sem responder. Por um instante, ninguém no quarto falou. Camila estava pálida, Helena observava o monitor cardíaco ao lado da cama e eu mantinha as duas mãos sobre a barriga, tentando entender a última frase de Henrique. Meu bebê se mexeu sob minhas palmas, e aquilo me trouxe de volta ao presente.
— O que ele quis dizer com “a única coisa que eu preciso para recuperar tudo”?
Meu pai olhou para Camila.
— Você sabe?
Ela demorou.
— Tenho uma suspeita.
— Então fale.
Camila puxou uma cadeira e se sentou.
— Depois que sua mãe descobriu as empresas de fachada, ela começou a reunir provas. Henrique percebeu e tentou transferir alguns ativos antes que fossem bloqueados. Mas uma parte do patrimônio ficou presa numa estrutura jurídica criada anos antes.
Franzi a testa.
— Que estrutura?
— Um fundo familiar.
Meu pai ficou atento.
— Continue.
— Henrique colocou propriedades e participações empresariais nesse fundo quando ainda era casado com a primeira esposa. Depois surgiram investigações, dívidas e disputas. Ele perdeu o controle direto de quase tudo. Mas existe uma cláusula sucessória antiga.
Meu estômago se apertou.
— Tem a ver comigo?
Camila assentiu.
— Com descendentes biológicos reconhecidos.
Meu pai se levantou.
— Então era por isso que ele precisava provar a paternidade.
— Sim.
Olhei para minha barriga.
— E meu filho?
Camila baixou a voz.
— Pode representar uma segunda linha sucessória.
A sensação foi horrível. Meu bebê, que para mim era uma vida que eu já amava antes de conhecer seu rosto, para Henrique parecia ser apenas uma chave.
— Rafael sabia disso?
Camila fechou os olhos.
— Sabia parte.
Meu pai bateu a mão na mesa.
— Parte não basta. O que ele sabia?
— Que Mariana era filha de Henrique. Que precisava se casar com ela e obter acesso à documentação. Mais tarde, quando ela engravidou, Henrique mudou o plano.
Meu coração acelerou.
— Que plano?
Camila começou a chorar.
— Rafael deveria conseguir documentos que reconhecessem oficialmente a linhagem familiar sem expor Henrique.
— Como?
— Usando procurações, registros patrimoniais e, eventualmente, um exame genético.
Helena interrompeu:
— Um exame genético exige consentimento ou material biológico.
Camila olhou para mim.
— Foi por isso que começaram os medicamentos.
O quarto inteiro pareceu diminuir.
— Que medicamentos?
— Os que Rafael dizia serem vitaminas e calmantes.
Meu pai ficou branco.
— Mariana, você ainda tem algum deles?
Pensei.
— Minha bolsa. Trouxeram minhas coisas do apartamento.
Helena imediatamente pediu que ninguém tocasse nos frascos. Uma enfermeira trouxe a bolsa lacrada que havia acompanhado minha internação. Dentro estavam duas caixas de comprimidos e um pequeno frasco sem rótulo.
Helena examinou de longe.
— Vamos mandar tudo para análise.
Eu lembrava de Rafael colocando aqueles comprimidos na minha mão.
“É para você descansar.”
Sônia trazia água.
“Pare de reclamar e tome.”
Fechei os olhos.
— Eles estavam me dopando.
Camila respondeu:
— Provavelmente para manter você debilitada e facilitar o acesso aos documentos.
Meu pai virou-se para ela.
— Você disse provavelmente.
— Porque havia coisas que Rafael não me contava.
— Como os hematomas?
Ela abaixou os olhos.
— Eu não sabia que ele estava agredindo Mariana.
Eu queria acreditar nela, mas já não sabia em quem confiar.
Nesse momento, um policial entrou.
— Coronel, Rafael pediu para prestar novo depoimento.
Meu pai soltou uma risada sem humor.
— Agora?
— Depois da ligação feita para o telefone antigo, ele entrou em pânico. Disse que quer proteção.
— Em troca de quê?
— Informações sobre Henrique.
Olhei para meu pai.
— Quero ouvir.
Quarenta minutos depois, Rafael apareceu em uma chamada segura. Estava sentado numa sala simples, acompanhado por dois agentes. Parecia menor do que eu lembrava.
Quando me viu, baixou os olhos.
— Mariana...
— Não peça desculpas.
Ele assentiu.
— Eu não mereço.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Meu pai permaneceu ao meu lado.
— Fale sobre Henrique.
Rafael respirou fundo.
— Ele está no Brasil há meses.
— Onde?
— Mudava constantemente. Hotéis, propriedades alugadas, casas de terceiros.
— E Álvaro?
Rafael olhou para a câmera.
— Álvaro é o contato dele.
Meu pai fechou os punhos.
— Meu irmão sabia que Henrique estava vivo?
— Sempre soube.
A dor no rosto do meu pai foi silenciosa.
— Minha esposa morreu por causa deles?
Rafael hesitou.
— Eu não estava lá naquela noite.
— Não foi o que perguntei.
— Eu sei.
Ele respirou fundo.
— Henrique mandou alguém seguir Beatriz.
Era a primeira vez em muito tempo que ouvi o nome da minha mãe dito por Rafael.
— Quem? — perguntei.
— Álvaro.
Meu pai ficou imóvel.
— Continue.
— Beatriz tinha descoberto documentos que podiam ligar Henrique às empresas. Álvaro deveria recuperar a pasta.
— E depois?
— Alguma coisa aconteceu na estrada.
Meu pai se aproximou da tela.
— Alguma coisa?
— Álvaro disse que perdeu o controle da situação.
— Isso significa o quê?
— Não sei.
— Mentira.
Rafael começou a tremer.
— Eu juro.
Eu o observei por alguns segundos.
— Por que me machucou?
Ele finalmente olhou para mim.
Não havia resposta capaz de consertar aquilo.
— Porque eu era covarde. Porque estava sendo pressionado e transformei você no lugar onde descarregava meu medo.
As lágrimas vieram aos olhos dele.
Não senti pena.
— Você poderia ter ido embora.
— Eu sei.
— Poderia ter contado a verdade.
— Eu sei.
— Poderia ter protegido seu filho.
Rafael começou a chorar.
— Eu sei.
Coloquei a mão sobre minha barriga.
— Então viva sabendo disso.
Meu pai encerrou aquela parte do assunto.
— Onde está Henrique?
Rafael respirou fundo.
— Existe uma propriedade perto de Campinas. Ele usou o lugar duas vezes.
Um policial anotou o endereço.
— Mais alguma coisa?
Rafael ficou em silêncio.
— Rafael — falei. — Se ainda existe alguma coisa que pode colocar meu bebê em risco, diga agora.
Ele olhou diretamente para mim.
— Existe.
Meu coração acelerou.
— Henrique não precisa mais dos documentos da casa.
— Por quê?
— Porque conseguiu uma cópia da certidão.
Meu pai franziu a testa.
— Isso não lhe dá controle sobre o fundo.
— Não.
Rafael engoliu em seco.
— Mas permite que ele inicie o processo de reconhecimento da linhagem.
— Ainda precisaria provar biologicamente.
Rafael assentiu.
Então olhou para minha barriga.
— Foi por isso que ele mandou alguém conseguir uma amostra.
Helena ficou imediatamente alerta.
— Amostra de quem?
Rafael respondeu:
— De Mariana.
Meu pai deu um passo à frente.
— Conseguiram?
Rafael demorou demais para responder.
— Sim.
Meu coração disparou.
— Como?
— Durante um exame pré-natal, meses atrás.
Helena perguntou:
— Qual clínica?
Rafael disse o nome.
Eu conhecia.
Tinha ido lá duas vezes porque Sônia insistira que era “melhor do que o hospital público”.
Meu pai já estava telefonando para os investigadores quando Rafael falou novamente:
— Coronel, espere.
— O quê?
— A amostra não foi enviada apenas para Henrique.
Meu pai parou.
— Para quem mais?
Rafael ficou pálido.
— Eu descobri isso ontem.
— Diga.
Ele respirou fundo.
— Álvaro mandou fazer outro teste escondido.
Meu pai congelou.
— Outro teste de quê?
Rafael olhou para mim.
— Paternidade.
Instintivamente, olhei para minha barriga.
— Do meu bebê?
Ele assentiu.
Senti meu coração bater contra as costelas.
— Por quê? Rafael é o pai.
Rafael fechou os olhos.
Quando voltou a abri-los, havia algo diferente em seu rosto.
Medo.
— Mariana... foi exatamente isso que eu também acreditava.
O silêncio tornou-se absoluto.
Então ele disse:
— Mas o resultado que Álvaro recebeu diz que eu não sou.







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