A pergunta da investigadora ficou suspensa no ar como se tivesse arrancado o teto da sala.
“Se aquele bebê era a Clara... então quem é você?”
Eu olhei para a fotografia nas mãos dela, mas minha mente simplesmente se recusava a entender o que meus olhos estavam vendo.
Clara Vasconcelos morreu ao nascer.
Meu nome.
Meu sobrenome.
Uma data de doze anos antes.
Nada fazia sentido.
“Isso é impossível”, murmurei.
Minha mãe soltou um som sufocado atrás da cortina.
Não foi um choro.
Foi quase um gemido de pânico.
A investigadora percebeu também.
Ela se virou imediatamente.
“Sra. Vasconcelos, a senhora sabe alguma coisa sobre essa fotografia?”
Minha mãe não respondeu.
Meu pai respondeu por ela.
“É uma brincadeira de mau gosto.”
A investigadora ergueu a foto.
“Encontrada escondida sob o piso do quarto onde seu filho estava sendo mantido trancado?”
“Lucas inventa coisas.”
“Lucas tem oito anos.”
“É exatamente por isso.”
Minha cabeça começou a girar.
A dra. Helena percebeu e se aproximou da maca.
“Clara, não tente se levantar.”
Mas eu já estava empurrando o lençol.
“Eu quero ver.”
A investigadora hesitou antes de entregar a fotografia.
Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui segurá-la.
Reconheci meus pais imediatamente.
Meu pai parecia mais jovem, mas era impossível confundi-lo.
Minha mãe também.
E havia Isabela.
Ela devia ter cerca de sete anos naquela época.
Estava segurando a mão da minha mãe enquanto os três saíam pela entrada de um hospital.
Nos braços da minha mãe havia um bebê embrulhado em uma manta clara.
Virei a foto novamente.
Clara Vasconcelos morreu ao nascer.
Abaixo da frase havia algo que eu não tinha percebido antes.
Duas letras escritas quase apagadas.
L.V.
A investigadora inclinou-se.
“Você reconhece essa caligrafia?”
Balancei a cabeça.
Então minha mãe falou.
“Chega.”
Todos olharam para ela.
Seu rosto estava molhado de lágrimas, mas havia algo diferente em seus olhos.
Não era tristeza.
Era medo.
“Marina”, meu pai disse, num tom de aviso.
Minha mãe apertou os lábios.
“Eu disse chega.”
Meu coração disparou.
“Quem sou eu?”
Ela me encarou por alguns segundos.
Então desviou os olhos.
Meu pai explodiu.
“Ela é nossa filha. Isso acabou.”
A investigadora deu um passo em sua direção.
“Não, senhor Vasconcelos. Isso está apenas começando.”
Ela pediu que outro policial fotografasse a imagem e enviasse imediatamente uma equipe ao hospital indicado no fundo da fotografia.
Enquanto isso, a busca por Lucas se ampliava.
Policiais revistaram o quintal, a garagem, a casa dos vizinhos e as ruas próximas.
Nada.
Meu medo por ele engoliu qualquer confusão sobre mim mesma.
“Isabela sabe onde ele está.”
Todos olharam para minha irmã.
Desde que a polícia havia entrado, ela permanecia estranhamente quieta.
Agora, porém, seu rosto mudou.
“Eu não sei de nada.”
“Mentira.”
Foi a primeira vez na vida que a enfrentei sem baixar os olhos.
Ela se levantou.
“Cala a boca.”
Meu corpo inteiro reagiu antes que eu pudesse controlar.
Encolhi os ombros.
Protegi automaticamente o rosto.
A investigadora viu.
A dra. Helena viu.
Todos viram.
Isabela também.
E, por um instante, pareceu satisfeita.
A investigadora se colocou entre nós.
“Você não vai chegar perto dela.”
Isabela revirou os olhos.
“Ela sempre faz drama.”
“Lucas viu você me machucar”, falei. “Foi por isso que vocês o trancaram.”
O rosto dela endureceu.
“Lucas não sabe ficar calado.”
A sala ficou completamente imóvel.
A investigadora não perdeu um segundo.
“O que isso significa?”
Isabela percebeu tarde demais o que tinha dito.
“Nada.”
“Quando foi a última vez que você viu seu irmão?”
“Hoje de manhã.”
Meu pai fechou os olhos.
Minha mãe levou a mão à boca.
“Pai disse que ia resolver o problema”, acrescentou Isabela.
“Isabela!”, ele gritou.
Dessa vez, dois policiais o seguraram.
Eu senti o sangue gelar.
“Que problema?”
Ela olhou para mim.
Por trás da arrogância, havia alguma coisa diferente.
Ressentimento.
Quase ódio.
“Você.”
Meu estômago se contraiu.
Antes que ela dissesse mais alguma coisa, o rádio da investigadora chiou.
A equipe que estava na casa havia encontrado uma câmera de segurança antiga instalada no corredor do andar superior.
Meu pai ficou branco.
A gravação mostrava Lucas saindo do sótão pouco depois de eu ter sido levada ao pronto-socorro.
Ele não estava sozinho.
Minha mãe apareceu na imagem abrindo a porta.
Lucas carregava uma mochila pequena.
Depois surgiu meu pai.
Eles discutiram.
Não havia áudio.
Mas Lucas tentou recuar.
Meu pai segurou seu braço.
A imagem seguinte mostrava os três descendo as escadas.
“Para onde levaram meu irmão?”
Minha mãe começou a chorar.
“Eu só queria protegê-lo.”
“De quem?”
Ela olhou para Isabela.
Minha irmã ficou pálida.
Meu pai virou-se para a esposa.
“Não diga mais nada.”
Mas a investigadora já estava diante dela.
“Marina, seu filho está desaparecido. Se sabe onde ele está, esta é a hora.”
Minha mãe parecia prestes a desmoronar.
Então sussurrou:
“Na casa da minha irmã.”
Meu pai soltou um palavrão.
A investigadora exigiu o endereço.
Menos de dez minutos depois, outra equipe foi enviada.
Eu mal conseguia respirar enquanto esperávamos.
A dor nas costelas pulsava a cada batida do coração.
Finalmente, o rádio voltou a chiar.
Lucas havia sido encontrado.
Vivo.
Sozinho em um quarto nos fundos da casa da minha tia, com a porta trancada pelo lado de fora.
Fechei os olhos.
Dessa vez, o alívio veio.
Mas durou poucos segundos.
A investigadora continuou ouvindo o rádio.
Seu rosto mudou.
“Encontraram mais alguma coisa?”
Ela ouviu em silêncio.
Depois virou-se lentamente para meus pais.
“Lucas estava com uma pasta escondida dentro da mochila.”
Meu pai parou de se debater.
“Que pasta?”
A investigadora não respondeu diretamente.
Olhou para mim.
“Documentos.”
Meu coração começou a bater outra vez como se quisesse escapar do peito.
“Que documentos?”
Ela respirou fundo.
“Uma certidão de nascimento com o nome Clara Vasconcelos.”
Minha mãe começou a soluçar.
“E outra”, continuou a investigadora, “emitida quatro anos depois, com a mesma data de nascimento.”
A sala mergulhou num silêncio absoluto.
“Mas o nome da criança nessa segunda certidão não é Clara.”
Engoli em seco.
“Qual é?”
A investigadora sustentou meu olhar.
“Laura Vieira.”
Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.







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