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Minha irmã me batia, meus pais chamavam de “assunto de família” — até uma médica olhar minhas radiografias

“A verdadeira Clara.”

Minha mãe pronunciou aquelas duas palavras e, por alguns segundos, eu tive a sensação de que tudo ao meu redor havia ficado distante.

Lucas ainda segurava minha mão.

A investigadora permanecia em pé diante da minha mãe.

Isabela tinha parado de gritar na sala ao lado.

“Explique”, disse a investigadora.

Minha mãe enxugou o rosto com as mãos trêmulas.

“Clara era minha filha.”

Olhei para ela.

“E eu não sou?”


Ela fechou os olhos.

“Seu pai é seu pai.”

Aquilo foi ainda pior.

“Então Renata Vieira...”

“Era sua mãe biológica.”

Meu estômago se revirou.

A dra. Helena aproximou-se novamente da maca, mas eu não conseguia desviar os olhos da mulher que eu havia chamado de mãe durante toda a minha vida.

“Vocês me roubaram dela?”

“Não.”

Minha mãe respondeu depressa demais.


A investigadora percebeu.

“Marina.”

“Eu não estava lá quando aconteceu.”

“Quando o quê aconteceu?”

Ela olhou para a porta.

Como se ainda tivesse medo de que meu pai pudesse entrar e impedi-la de falar.

“Renata tinha dezessete anos. Seu pai a conhecia. Ele dizia que ela não tinha condições de criar uma criança.”

“Isso não responde à pergunta.”

Minha voz tremia.

“Como eu fui parar na casa de vocês?”


Minha mãe respirou fundo.

“Ele chegou com você.”

O silêncio foi absoluto.

“Você tinha poucos dias de vida.”

Lucas apertou minha mão.

“Ele disse que Renata havia ido embora e que não queria você.”

A investigadora ergueu o queixo.

“E a senhora acreditou?”

“Eu queria acreditar.”

“Marina.”


“Eu tinha uma filha pequena. Isabela. Meu casamento já estava destruído. Então ele apareceu com um bebê e confessou que tinha se envolvido com outra mulher.”

Minha mãe começou a chorar novamente.

“Ele pediu que eu cuidasse de você por alguns dias. Depois alguns dias viraram semanas.”

“E depois dezesseis anos.”

Ela assentiu.

“Por que Laura?”

“Foi o nome que Renata lhe deu.”

“Então até os quatro anos eu me chamava Laura?”

Minha mãe demorou para responder.

“Dentro de casa, sim.”


Senti um arrepio percorrer meu corpo.

Fragments de lembranças que eu nunca soubera explicar começaram a surgir.

Uma mulher dizendo “Laurinha”.

Uma fita amarela.

Uma música cantarolada perto de uma janela.

Eu sempre havia acreditado que eram sonhos.

“E então Clara nasceu”, falei.

Minha mãe começou a tremer.

Do outro lado da parede, Isabela gritou:

“Conta tudo!”


A policial ordenou que ela se acalmasse.

Minha mãe continuou.

“Eu engravidei anos depois.”

“Da verdadeira Clara.”

“Sim.”

A fotografia voltou à minha mente.

Minha mãe saindo do hospital com o bebê.

Meu pai ao lado dela.

Isabela segurando sua mão.

Eu não estava na imagem.


“Onde eu estava naquele dia?”

“Com uma vizinha.”

“E depois?”

Minha mãe ficou em silêncio.

“Depois vocês levaram Clara para casa.”

Ela assentiu.

“Por quanto tempo ela viveu?”

A pergunta fez sua expressão desmoronar.

“Três dias.”

Lucas engasgou.


Eu senti minhas mãos ficarem geladas.

“Ela não morreu ao nascer.”

“Não.”

Então a frase atrás da fotografia era mentira.

Clara Vasconcelos morreu ao nascer.

Alguém havia tentado apagar aqueles três dias.

“Como ela morreu?”

Antes que minha mãe respondesse, Isabela voltou a gritar do outro lado.

“Ela matou o bebê!”

Meu corpo inteiro endureceu.


“Não!”, minha mãe gritou.

Foi tão forte que todos ficaram imóveis.

Ela se levantou da cadeira.

“Você sabe que não foi assim!”

Silêncio.

Pela primeira vez, Isabela não respondeu.

A investigadora olhou de uma sala para outra.

“O que aconteceu naquela noite?”

Minha mãe levou as mãos ao rosto.

“Eu acordei com o choro de Isabela.”


“E?”

“Clara não estava respirando.”

Meu coração martelava.

“E eu?”

“Você estava no corredor.”

“Fazendo o quê?”

“Chorando.”

“Eu tinha quatro anos.”

“Eu sei.”

“Então por que Isabela disse que Clara morreu por minha causa?”

Minha mãe abriu a boca.

Mas não conseguiu responder.

Foi Lucas quem falou.

“Porque foi isso que papai sempre disse.”

Olhei para ele.

“O quê?”

Lucas estava pálido.

“Uma vez eu ouvi papai e Isabela brigando. Ele disse que, se ela continuasse falando sobre aquela noite, todo mundo ia descobrir quem realmente tinha feito aquilo.”

Minha mãe soltou um soluço.

A investigadora se aproximou imediatamente dele.

“Lucas, quando você ouviu isso?”

“Antes de eles começarem a me trancar no sótão.”

“Você sabe o que ele queria dizer?”

Lucas balançou a cabeça.

“Isabela começou a chorar. Depois papai disse: ‘Laura já levou a culpa uma vez. Vai continuar levando.’”

Meu peito pareceu parar.

A investigadora virou-se lentamente para minha mãe.

“Marina?”

Ela não conseguiu sustentar o olhar.

E naquele instante eu entendi uma coisa horrível.

Durante doze anos, alguém havia mentido sobre a morte daquele bebê.

E aquela mentira tinha alguma ligação com tudo que Isabela fazia comigo.

“Depois que Clara morreu”, perguntei, “por que vocês mudaram meu nome?”

Minha mãe voltou a se sentar.

“Seu pai disse que era a única forma de manter a família unida.”

“Isso não significa nada.”

“Ele tinha medo.”

“De quê?”

“De perguntas.”

A investigadora falou:

“Sobre Laura?”

“Sobre Laura. Sobre Renata. Sobre como ela tinha chegado à nossa casa. Sobre Clara.”

“Então vocês pegaram a identidade de uma criança morta e me deram para esconder tudo?”

Minha mãe chorava tanto que mal conseguia falar.

“Seu pai providenciou os documentos.”

“E você deixou.”

Ela não respondeu.

Essa resposta doeu mais do que qualquer palavra.

A porta se abriu.

Um agente da Polícia Civil entrou segurando um saco plástico transparente com vários papéis.

“Havia mais documentos escondidos junto com a pasta de Lucas.”

Ele entregou um deles à investigadora.

Era um envelope antigo.

Meu nome estava escrito na frente.

Não Clara.

Laura.

A investigadora colocou luvas e retirou uma carta.

A data era de oito anos antes.

Ela leu as primeiras linhas e interrompeu-se.

“O que foi?”, perguntei.

Minha mãe começou a balançar a cabeça.

“Não.”

“Leia.”

“Clara...”

“Leia!”

A investigadora me encarou.

Então leu:

“Marina, eu sei que minha filha está viva. Não quero dinheiro. Não quero destruir sua família. Quero apenas ver Laura.”

Minha respiração desapareceu.

Na assinatura havia um nome.

Renata Vieira.

“Ela sabia?”, perguntei à minha mãe.

Minha mãe fechou os olhos.

“Ela procurou você durante anos.”

“E vocês esconderam essas cartas?”

“Seu pai disse que era melhor.”

“Quantas?”

Ela não respondeu.

O agente colocou outro maço sobre a mesa.

Eram dezenas.

Algumas abertas.

Outras nunca tinham sido abertas.

Lucas começou a chorar.

Eu não consegui.

Ainda não.

A investigadora recebeu uma mensagem no celular.

Leu.

Depois me olhou de uma maneira que fez meu coração acelerar.

“O que aconteceu?”

“Localizaram Renata Vieira.”

Minha mãe ergueu a cabeça de repente.

“Não.”

A investigadora ignorou.

“Ela está viva.”

Senti meus olhos arderem.

“Ela sabe sobre mim?”

“Agora sabe.”

Minha voz quase não saiu.

“O que ela disse?”

A investigadora respirou fundo.

“Disse que esperou dezesseis anos por essa ligação.”

Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.

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