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Minha irmã me batia, meus pais chamavam de “assunto de família” — até uma médica olhar minhas radiografias

“Laura Vieira.”

Aquele nome atravessou meu peito com mais força do que qualquer golpe que Isabela já tivesse me dado.

Olhei para a investigadora, esperando que ela dissesse que havia algum engano.

Ela não disse.

Minha mãe estava curvada na cadeira, chorando em silêncio.

Meu pai parecia diferente.

Não assustado.

Encurralado.

“Quem é Laura Vieira?”, perguntei.

Ninguém respondeu.


“Quem é Laura Vieira?”

Minha voz saiu mais alta dessa vez.

Isabela soltou uma risada curta e amarga.

“Você realmente não sabe.”

Meu pai se virou para ela.

“Cale a boca.”

A investigadora imediatamente levantou a mão.

“Não. Agora ela vai falar.”

Isabela cruzou os braços.

“Não tenho nada para dizer.”


“Você acabou de insinuar que sabe quem é Laura.”

“Eu disse que ela não sabe.”

“Isabela”, minha mãe implorou.

Minha irmã olhou para ela com desprezo.

“Vocês esconderam isso por anos. Agora querem fingir que é culpa minha?”

Minha pele ficou fria.

A dra. Helena verificou meu monitor e pediu que eu respirasse devagar.

Mas como alguém respirava depois de descobrir que talvez nem soubesse o próprio nome?

A investigadora recebeu as fotografias dos documentos encontrados com Lucas.

Colocou o celular diante de mim.


Na primeira imagem havia uma certidão aparentemente antiga.

CLARA VASCONCELOS.

A data de nascimento era a minha.

Na segunda, havia outra certidão.

LAURA VIEIRA.

Mesma data.

Mesmo município de nascimento.

Mas o registro havia sido feito anos depois.

No campo destinado ao nome da mãe havia uma mulher que eu nunca tinha ouvido mencionar.

Renata Vieira.


“Quem é ela?”

Minha mãe soluçou mais alto.

Meu pai respondeu imediatamente:

“Ninguém.”

A investigadora virou-se para ele.

“É curioso como tantas pessoas que não significam nada acabam aparecendo escondidas dentro da sua casa.”

Então pediu que meus pais e Isabela fossem levados para salas separadas.

Meu pai tentou protestar.

“Minha filha é menor. Eu tenho direito de ficar com ela.”

A conselheira tutelar respondeu antes da investigadora.


“Diante das acusações feitas hoje, o senhor não vai decidir quem permanece ao lado de Clara.”

Clara.

Dessa vez, ouvir meu próprio nome doeu.

Porque eu já não sabia se ele realmente era meu.

Quando meu pai foi retirado, ele passou pela maca e me lançou um olhar que reconheci imediatamente.

Era o mesmo olhar que vinha antes das ameaças.

Não fale.

Não piore as coisas.

Proteja a família.

Mas, pela primeira vez, aquele olhar não conseguiu me calar.


“Eu quero saber tudo.”

A investigadora assentiu.

“E vamos descobrir.”

Pouco depois, Lucas chegou ao hospital acompanhado por policiais e uma conselheira.

Quando entrou no quarto, correu para mim.

“Clara!”

Tentei abraçá-lo apesar das costelas.

Ele começou a chorar contra meu ombro.

“Desculpa. Eu tentei esconder.”

“Esconder o quê?”


Ele abriu a mochila.

Um policial já havia retirado a pasta original, mas Lucas puxou do bolso uma folha dobrada.

“Eu achei isso no quarto da mamãe.”

Era uma cópia malfeita de uma página de prontuário hospitalar.

Havia uma data de dezesseis anos antes.

Meu olhar correu pelas palavras até encontrar dois nomes.

Renata Vieira.

Recém-nascida do sexo feminino.

Mais abaixo, alguém havia escrito à mão:

Alta não autorizada.


Mãe deixou a unidade antes da avaliação social.

Destino da criança: pendente.

Meu coração disparou.

“Você entende o que isso significa?”, perguntei.

Lucas balançou a cabeça.

“Só sei que papai ficou muito bravo quando me viu olhando.”

A investigadora pediu a folha.

“Foi por isso que eles começaram a prender você no sótão?”

Lucas hesitou.

Depois assentiu.


“Eu perguntei quem era Laura.”

Fechei os olhos.

Então tudo fez sentido de uma maneira terrível.

Lucas não havia sido escondido porque simplesmente perguntava sobre a violência.

Ele tinha encontrado alguma coisa.

Alguma coisa que meus pais estavam desesperados para manter enterrada.

“E o que eles disseram?”

Lucas olhou para a porta antes de responder.

“Papai disse que Laura não existia mais.”

Minha respiração falhou.


“Depois a mamãe começou a chorar.”

“E Isabela?”

Lucas apertou as mãos.

“Ela ouviu.”

“O que ela fez?”

Ele baixou os olhos.

“Ela disse que devia ter acabado com você quando teve chance.”

A dra. Helena ficou imóvel.

A investigadora pediu que Lucas repetisse.

Ele repetiu.

Dessa vez, cada palavra pareceu mais pesada.

Poucos minutos depois, um policial entrou com novas informações.

O hospital mencionado no antigo documento ainda possuía parte dos arquivos daquela época.

A equipe havia localizado o atendimento de Renata Vieira.

Ela tinha dezessete anos quando deu à luz.

Nenhum pai havia sido informado no registro inicial.

Mas havia uma anotação feita por uma assistente social no dia seguinte ao parto.

A investigadora leu em silêncio.

Depois pediu confirmação pelo telefone.

Minha mãe, em outra sala, começou a gritar.

Mesmo através da porta, ouvi claramente:

“Não mostrem isso para ela!”

Meu sangue gelou.

A investigadora levantou os olhos.

“Há uma pessoa registrada como acompanhante de Renata naquela noite.”

“Quem?”

Ela hesitou.

“Seu pai.”

A sala desapareceu ao meu redor por um instante.

“Meu pai conhecia Renata?”

“Mais do que conhecia, aparentemente.”

Lucas segurou minha mão.

A investigadora continuou.

“Segundo o relatório, ele tentou retirar o bebê do hospital poucas horas depois do parto.”

“Eu?”

“Ainda estamos verificando.”

Antes que eu pudesse perguntar mais, a porta se abriu.

Minha mãe entrou escoltada por uma policial.

Seu rosto estava destruído pelo choro.

“Eu vou contar”, disse ela.

Meu pai gritou alguma coisa no corredor.

Ela nem olhou.

Sentou-se diante de mim.

“Laura Vieira existiu.”

Senti meus dedos apertarem a mão de Lucas.

Minha mãe respirou fundo.

“E você nasceu com esse nome.”

Meu mundo pareceu parar.

“Então por que vocês me chamaram de Clara?”

Ela abriu a boca.

Mas Isabela começou a gritar na sala ao lado.

“Porque Clara morreu por causa dela!”

Minha mãe congelou.

Eu também.

A investigadora se levantou imediatamente.

Mas já era tarde.

Isabela continuou, aos berros:

“Perguntem quem estava naquele hospital doze anos atrás! Perguntem por que eles trouxeram aquele bebê para casa!”

Olhei para minha mãe.

Seu rosto confirmou que, por trás daquelas palavras, havia algo ainda pior.

“Que bebê?”, sussurrei.

Minha mãe começou a chorar novamente.

Então respondeu:

“A verdadeira Clara.”

Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.

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