“Ela esperou dezesseis anos por essa ligação.”
A investigadora ainda segurava o telefone quando senti alguma coisa dentro de mim desabar.
Dezesseis anos.
Enquanto eu aprendia a esconder hematomas sob mangas compridas, havia uma mulher em algum lugar procurando por mim.
Enquanto meu pai dizia que ninguém acreditaria nas minhas histórias, alguém escrevia cartas com meu verdadeiro nome.
Laura.
Eu ainda não sabia se conseguia pensar em mim mesma daquela forma.
“Eu posso falar com ela?”
Minha mãe levantou-se imediatamente.
“Você não está em condições.”
A dra. Helena virou-se para ela.
“Essa decisão não é sua.”
Minha mãe recuou.
A investigadora perguntou se eu tinha certeza.
Assenti.
Ela fez a ligação por vídeo.
Demorou apenas alguns segundos para uma mulher aparecer na tela.
Renata Vieira devia estar no início dos trinta.
Tinha cabelos escuros presos atrás da cabeça e olheiras profundas.
Mas foram os olhos que fizeram meu coração disparar.
Eu conhecia aqueles olhos.
Porque os via todos os dias no espelho.
Renata levou a mão à boca.
Nenhuma de nós conseguiu falar.
Então ela disse:
“Laura?”
Meu peito apertou.
Ninguém me chamava assim havia anos.
Pelo menos ninguém que eu lembrasse.
“Eu acho que sim.”
Ela começou a chorar.
“Meu Deus.”
Minha mãe virou o rosto.
Meu pai, do corredor, ouviu a voz de Renata e começou a gritar.
“Desliguem isso!”
Os policiais o afastaram.
Renata fechou os olhos por um momento.
“Ele ainda faz isso.”
“Faz o quê?”
“Tenta controlar tudo antes que alguém consiga contar a verdade.”
A investigadora aproximou-se da tela.
“Renata, precisamos esclarecer como Laura saiu do hospital com o sr. Vasconcelos.”
Renata ficou em silêncio.
Depois respirou fundo.
“Ele não tinha permissão para levá-la.”
Minha mãe começou a balançar a cabeça.
“Não.”
Renata ouviu.
“Marina está aí?”
Minha mãe não respondeu.
“Você sabia”, disse Renata.
“Eu não sabia no começo.”
“No começo.”
Aquelas duas palavras atingiram minha mãe em cheio.
Olhei de uma para a outra.
“Alguém pode simplesmente me dizer o que aconteceu?”
Renata enxugou as lágrimas.
“Seu pai era muito mais velho do que eu. Quando engravidei, ele dizia que cuidaria de nós. Depois começou a insistir que eu não tinha maturidade para criar uma criança.”
Meu estômago se contraiu.
“Quando você nasceu, uma assistente social queria conversar comigo porque eu era menor de idade. Seu pai entrou em pânico.”
“Por quê?”
“Porque ninguém da família dele sabia de você.”
Olhei para minha mãe.
Ela permaneceu imóvel.
Renata continuou.
“Eu tive uma complicação depois do parto. Recebi medicação e dormi por algumas horas. Quando acordei, você não estava mais no berçário.”
A investigadora tomou notas.
“E o hospital deixou que ele levasse o bebê?”
“Não oficialmente.”
“Então como ele conseguiu?”
“Eu nunca descobri completamente.”
Meu pai gritou no corredor:
“Ela está mentindo!”
Renata não se abalou.
“Passei anos ouvindo isso.”
A investigadora perguntou:
“Você procurou a polícia?”
“Sim.”
“E?”
“Ele apresentou documentos dizendo que eu havia concordado que ele assumisse os cuidados da criança.”
“Você assinou alguma coisa?”
“Nunca.”
A investigadora e a conselheira trocaram um olhar.
A palavra falsificação não precisou ser dita.
“Eu tentei encontrar vocês”, continuou Renata. “Mas eles se mudaram pouco depois.”
Minha mãe finalmente falou.
“Eu descobri a verdade quando Laura tinha quase dois anos.”
Olhei para ela.
“E mesmo assim ficou calada?”
“Seu pai dizia que, se eu denunciasse, todos nós perderíamos tudo.”
“Então você escolheu ele.”
Ela chorou.
Não respondi.
Porque não havia resposta capaz de consertar aquilo.
Renata tocou a tela.
“Eu encontrei vocês quando você tinha quatro anos.”
A sala ficou em silêncio.
Meu corpo inteiro se arrepiou.
“Antes ou depois de Clara nascer?”
“Antes.”
Minha mãe fechou os olhos.
“Você foi à nossa casa?”
“Fui.”
Uma lembrança atravessou minha mente.
Uma mulher perto do portão.
Uma voz chamando:
“Laurinha.”
Eu tinha certeza de que era um sonho.
“Eu lembro de você.”
Renata começou a chorar mais forte.
“Você estava usando uma camiseta amarela.”
Meu coração quase parou.
“Você me deu uma fita.”
Ela levou as duas mãos ao rosto.
“Amarela.”
As lágrimas finalmente vieram.
Lucas apertou minha mão.
Renata continuou:
“Você correu para mim. Marina saiu da casa e tentou me mandar embora. Depois seu pai chegou.”
Olhei para minha mãe.
“Você sabia quem ela era.”
“Sim.”
“E me deixou acreditar durante doze anos que nunca existiu ninguém.”
Minha mãe abaixou a cabeça.
Renata respirou com dificuldade.
“Naquele dia eu percebi uma coisa.”
“O quê?”
“Você tinha um hematoma no braço.”
Meu sangue gelou.
“Perguntei o que havia acontecido.”
Ela olhou diretamente para mim através da tela.
“Você disse que Isabela tinha ficado brava.”
A investigadora parou de escrever.
Isabela conseguia me machucar desde quando eu tinha quatro anos.
Talvez antes.
“Eu disse que chamaria a polícia”, contou Renata. “Seu pai me empurrou para fora do portão e ameaçou dizer que eu estava tentando sequestrar você.”
Minha mãe começou a soluçar.
“Três semanas depois, Clara nasceu.”
Meu coração apertou.
“E três dias depois ela morreu.”
Renata assentiu.
“Seu pai me ligou naquela noite.”
Todos ficaram imóveis.
“Ele ligou para você?”
“Foi a primeira vez em anos.”
“Por quê?”
“Para me dizer que eu nunca mais deveria procurar Laura.”
A investigadora perguntou:
“Ele explicou o motivo?”
Renata demorou alguns segundos para responder.
“Disse que havia acontecido uma tragédia.”
Minha garganta secou.
“Ele falou da Clara?”
“Não usou o nome dela.”
“Então o que ele disse?”
Renata fechou os olhos, como se ainda conseguisse ouvir aquela ligação.
“Disse: ‘Sua filha fez uma coisa que não tem volta.’”
Senti náusea.
Minha mãe se levantou.
“Ele mentiu!”
Renata encarou-a pela tela.
“Eu sei disso agora.”
“Como?”
“Porque dois dias depois você me ligou.”
Minha mãe congelou.
Eu me virei para ela.
“Você ligou para Renata?”
Ela começou a tremer.
“Marina?”, perguntou a investigadora.
Minha mãe voltou lentamente para a cadeira.
“Eu estava desesperada.”
“E o que disse?”
Renata respondeu antes dela.
“Ela disse que eu precisava ficar longe porque o marido dela estava fazendo Laura acreditar que era culpada pela morte do bebê.”
Minha respiração falhou.
“Eu já sabia?”
Minha mãe chorou.
“Você tinha quatro anos. Você não entendia.”
“Mas ele dizia que a culpa era minha.”
Ela assentiu.
“Todos os dias.”
A raiva substituiu o medo.
“Por quê?”
Minha mãe olhou para a parede que separava nossa sala daquela onde Isabela estava.
“Porque precisava que você acreditasse nisso.”
“Por quê?”
Silêncio.
Então Lucas falou:
“Por causa da Isabela?”
Minha mãe fechou os olhos.
Ninguém precisou responder.
A investigadora levantou-se.
“Precisamos reabrir tudo relacionado à morte de Clara Vasconcelos.”
Minha mãe ficou pálida.
“Não.”
“Por quê?”
“Porque vocês não entendem.”
“Então nos faça entender.”
Ela segurou os próprios braços.
“Naquela noite, eu encontrei Isabela ao lado do berço.”
Do outro lado da parede, ouviu-se um estrondo.
Isabela estava ouvindo.
“Ela tinha sete anos”, continuou minha mãe.
“E Laura?”, perguntou a investigadora.
“Estava no corredor.”
“Então por que seu marido culpou Laura?”
Minha mãe abriu a boca.
Antes que conseguisse responder, Isabela começou a bater violentamente na porta da outra sala.
“Não acredita nela!”
Os policiais tentaram contê-la.
“Ela está mentindo!”
Minha mãe começou a chorar.
Isabela gritou ainda mais alto:
“Conta o que você encontrou na minha mão!”
A investigadora ficou imóvel.
Eu também.
Olhei para minha mãe.
“O que ela estava segurando?”
Minha mãe ergueu os olhos para mim.
E respondeu quase sem voz:
“O travesseiro do berço.”
Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.







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