“Os documentos que fizeram tudo parecer legal.”
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Minha mãe ainda olhava para a chave caída no chão.
Gabriel foi o primeiro a se mexer.
Abaixou-se, pegou a chave e colocou-a sobre a cadeira ao lado.
“Legal o quê?”, perguntou.
Minha mãe respirou fundo.
“Uma transferência.”
“De dinheiro?”
“De responsabilidade.”
Meu estômago apertou.
“Responsabilidade por quê?”
Ela olhou para mim.
“Pelo que aconteceu naquela clínica.”
Minha boca ficou seca.
“Com a mãe do Gabriel?”
“Sim.”
Gabriel deu um passo à frente.
“Minha mãe passou a vida dizendo que ninguém acreditava nela.”
Minha mãe fechou os olhos.
“Eu sei.”
“Você sabia?”
“Eu sabia que ela acusava duas pessoas.”
“Quem?”
Ela demorou para responder.
“Seu pai.”
Gabriel ficou imóvel.
“E o pai dela.”
Ele olhou para mim.
Senti como se alguma coisa estivesse se partindo dentro da minha cabeça.
“Nossos pais trabalhavam juntos?”
“Não oficialmente.”
Minha mãe apertou as mãos.
“O pai de vocês administrava contratos e pagamentos para a clínica. O pai do Gabriel conseguia medicamentos por meio de pessoas que trabalhavam lá. No começo, eram pequenas quantidades.”
Gabriel empalideceu.
“Para minha mãe.”
“Também.”
A palavra ficou suspensa no ar.
“Também para quem?”, perguntei.
Minha mãe desviou os olhos.
“Outras pessoas.”
“Você está dizendo que eles desviavam remédios?”
“Estou dizendo que havia registros alterados, assinaturas, cobranças falsas. Eu nunca soube até onde aquilo chegava.”
“E você assinou documentos depois?”
Ela começou a chorar.
“Sim.”
Senti a raiva subir antes que ela terminasse.
“Por quê?”
“Porque seu pai já estava morto.”
“Isso não responde.”
“Porque Júlia estava desesperada.”
Meu coração falhou uma batida.
“Júlia?”
Gabriel franziu a testa.
“Espere. Isso foi depois da morte do meu pai também?”
Minha mãe assentiu.
“Anos depois. Júlia encontrou cópias guardadas numa pasta antiga. Ela reconheceu seu sobrenome.”
Gabriel passou a mão pelo rosto.
“Foi assim que ela começou.”
“Sim.”
“E o nome dela?”, perguntei. “Por que meu nome estava nos documentos?”
Minha mãe ficou em silêncio.
Tão silenciosa que eu entendi que aquela era a pergunta que ela mais temia.
“Responde.”
“Seu nome foi usado como beneficiária.”
“Beneficiária de quê?”
“De uma conta.”
Eu ri, mas o som que saiu parecia de outra pessoa.
“Eu nunca tive conta nenhuma naquela época.”
“Não no seu controle.”
Meu sangue gelou.
“Quanto?”
“Eu não sei exatamente.”
“Quanto?”
“Na primeira vez que vi os extratos, havia mais de cento e oitenta mil.”
Gabriel soltou um palavrão baixo.
“Em nome dela?”
“Vinculado ao nome dela. Aberto quando ela ainda era menor.”
Senti as pernas fracas.
“Meu pai usou meu nome para esconder dinheiro?”
“Foi o que Júlia acreditou.”
“E você?”
Minha mãe baixou a cabeça.
“Eu passei anos tentando acreditar que havia outra explicação.”
Quase não consegui olhar para ela.
“E o que você assinou?”
Ela tirou da bolsa um lenço, mas suas mãos tremiam tanto que mal conseguiu abri-lo.
“Uma declaração afirmando que certos documentos encontrados após a morte do seu pai eram apenas cópias sem validade.”
“E eram?”
“Não.”
A resposta me atravessou.
“Você mentiu.”
“Sim.”
“Por ele?”
“Por vocês duas.”
“Não use isso.”
Minha voz saiu mais alta.
“Não diga que mentiu por mim quando usaram meu nome sem eu saber.”
“Você tem razão.”
Gabriel se virou para a parede.
Parecia lutar para não explodir.
“E onde eu entro nisso?”
Minha mãe olhou para ele.
“Júlia achou que, se investigasse sozinha, alguém perceberia.”
“Alguém quem?”
“Ela nunca me disse.”
“Mas ela se casou comigo depois disso.”
“Sim.”
Gabriel balançou a cabeça.
“Ela me amava.”
“Eu sei.”
“Então não diga como se o casamento fosse parte de algum plano.”
“Não estou dizendo isso.”
Minha mãe se aproximou.
“Ela amava você. Mas também sabia que você tinha algo que ela precisava.”
Gabriel ficou tenso.
“O quê?”
“Acesso às coisas do seu pai.”
A caixa azul.
Nós três pensamos nela ao mesmo tempo.
Gabriel levou a mão ao bolso, onde normalmente guardava as chaves.
“Depois que meu pai morreu, quase tudo foi jogado fora.”
“Quase”, minha mãe disse.
Ele fechou os olhos.
“A caixa.”
“Júlia acreditava que seu pai tinha guardado provas porque tinha medo de ser usado como único culpado.”
Meu coração disparou.
“Então ela pediu que Gabriel ficasse perto dela porque precisava daquela caixa?”
Minha mãe hesitou.
“Foi o que pensei no começo.”
Gabriel olhou para ela com raiva.
“No começo?”
“Depois percebi que havia outra coisa.”
“O quê?”
Antes que ela respondesse, uma enfermeira apareceu correndo.
“Senhor Almeida.”
Gabriel se virou.
“O que aconteceu?”
“Sua esposa está acordando.”
Tudo desapareceu.
Os documentos.
A caixa.
A raiva.
Corremos atrás da enfermeira.
Júlia estava deitada, cercada de aparelhos, o rosto quase sem cor.
Mas seus olhos estavam abertos.
Gabriel chegou primeiro.
“Meu amor.”
Ela piscou.
Ele segurou sua mão com cuidado.
“As meninas estão bem. As duas estão vivas.”
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
Eu me aproximei do outro lado da cama.
“Júlia.”
Seus olhos encontraram os meus.
Então ela viu a carta ainda dobrada na minha mão.
Seu rosto mudou.
Tentou falar.
“Não força”, Gabriel disse.
Mas Júlia apertou meus dedos.
“Caixa”, murmurou.
“Eu sei.”
Ela balançou a cabeça.
“Não… caixa.”
“Não abrir?”
Ela fechou os olhos com força.
Depois conseguiu dizer:
“Já abriu.”
Meu corpo inteiro ficou frio.
“Quem abriu?”
Júlia respirou com dificuldade.
Gabriel se inclinou.
“Você sabe quem está mandando as mensagens?”
Ela olhou para ele.
E, pela primeira vez desde que acordara, pareceu assustada.
“Gabriel…”
“Estou aqui.”
“Seu pai…”
Ele ficou imóvel.
“Meu pai morreu.”
Júlia apertou a mão dele.
“Eu sei.”
Então seus olhos voltaram para mim.
“Mas ele deixou alguém.”
Meu coração disparou.
“Quem?”
Ela tentou responder, mas começou a tossir.
Os aparelhos apitaram.
A enfermeira entrou rapidamente.
“Vocês precisam sair.”
“Júlia, quem?”, perguntei.
Ela levantou uma mão fraca.
Apontou para minha mãe.
Minha mãe parou de respirar.
Júlia conseguiu dizer apenas duas palavras antes que nos empurrassem para fora:
“Ela conhece.”
As portas se fecharam.
Gabriel se virou lentamente para minha mãe.
Ela estava chorando.
“Quem é?”, perguntei.
Ela balançou a cabeça.
“Eu esperava nunca mais ouvir esse nome.”
“Que nome?”
Ela olhou para Gabriel.
Depois para mim.
“Samuel.”
Gabriel ficou branco.
“Isso é impossível.”
“Quem é Samuel?”
Ele demorou alguns segundos para responder.
“Meu tio.”
“E daí?”
Gabriel me encarou.
“Meu pai dizia que Samuel morreu antes de eu nascer.”
Minha mãe fechou os olhos.
“Ele mentiu.”
Continua — toque na Parte 7 para continuar lendo.







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