O medo nos olhos de Viviane durou pouco mais de um segundo, mas foi suficiente. Durante anos, eu a vira controlar mesas inteiras apenas com um olhar, transformar insultos em “brincadeiras” e crueldade em “sinceridade”. Naquele momento, porém, seus dedos apertavam a bolsa com tanta força que os nós estavam brancos.
“Quase dois milhões?”, Daniel repetiu. “Isso é impossível.”
Renato manteve o tablet diante de mim.
“Um milhão, oitocentos e quarenta e sete mil reais, distribuídos em onze operações nos últimos oito meses.”
“Para onde?”
“Parte foi usada em despesas vinculadas ao resort. O restante passou por duas empresas prestadoras de serviços.”
Viviane recuperou a voz.
“Isso é um absurdo. Estamos sendo tratados como criminosos por causa de um erro administrativo.”
Olhei para ela.
“Eu ainda não acusei ninguém.”
“Não precisa. Está fazendo esse espetáculo na frente dos funcionários.”
“Curioso você se preocupar com humilhação pública agora.”
Clara baixou os olhos.
Daniel, porém, continuava encarando a assinatura falsificada.
“D. Martins pode ser qualquer pessoa.”
Renato tocou na tela.
“Os pedidos foram autenticados com um número de telefone terminado em 7714.”
Meu marido ficou imóvel.
Eu conhecia aquele número.
“É o seu telefone corporativo, Daniel.”
Ele levantou os olhos rapidamente.
“Eu posso explicar.”
Meu peito apertou, mas mantive a voz firme.
“Então explique.”
Daniel passou a mão pelo cabelo.
“Há meses minha mãe me pediu ajuda para conseguir condições especiais aqui. Eu sabia que sua consultoria tinha relações comerciais com o resort. Achei que talvez você tivesse algum benefício corporativo.”
“E?”
“Encontrei credenciais salvas no seu notebook.”
Senti algo gelado atravessar meu corpo.
“Você entrou no meu computador?”
“Maia, nós somos casados.”
“Isso não responde.”
Ele desviou os olhos.
“Entrei.”
Viviane interrompeu:
“Daniel só estava tentando proporcionar bons momentos à família.”
“Usando minha assinatura?”
“Ele não sabia que era sua.”
Daniel olhou para a mãe.
“Mãe.”
A maneira como disse aquilo me chamou atenção.
Não era concordância.
Era advertência.
Aproximei-me dele.
“Você falsificou minha assinatura?”
“Não.”
“Mas usou minhas credenciais.”
Daniel demorou demais para responder.
“Uma vez.”
Renato tocou novamente no tablet.
“Os registros mostram onze acessos.”
Daniel empalideceu.
“Eu fiz um.”
O silêncio mudou de natureza.
Até então eu acreditava estar diante de uma traição financeira. De repente, havia outra possibilidade.
“Mostre as datas.”
Renato colocou o relatório diante de mim. O primeiro acesso ocorrera oito meses antes. O segundo, três semanas depois. Depois vieram outros, cada vez mais frequentes.
Daniel apontou para a primeira data.
“Esse fui eu.”
“E os demais?”
“Não sei.”
Viviane soltou um suspiro impaciente.
“Naturalmente ele não se lembra de cada vez que entrou num sistema.”
Daniel virou-se para ela.
“Eu lembro.”
A firmeza da resposta fez Clara levantar a cabeça.
“Mãe, por que você está tão nervosa?”, perguntou.
“Não estou nervosa.”
“Está, sim.”
Viviane lançou-lhe um olhar cortante.
“Fique fora disso.”
Foi então que percebi um detalhe.
A bolsa.
Desde que Renato mencionara as transferências, Viviane não a soltara. Quando dera ordens aos funcionários, quando me insultara, quando entrara no resort, carregava-a despreocupadamente no antebraço. Agora a mantinha pressionada contra o corpo.
“Renato”, falei, sem tirar os olhos dela, “bloqueie imediatamente todas as credenciais vinculadas à Andrade Hospitality.”
“Claro.”
Viviane deu um passo à frente.
“Você não pode simplesmente—”
“Posso.”
Meu telefone vibrou.
Era uma mensagem da equipe jurídica da holding.
AUDITORIA URGENTE: identificamos conexão entre uma das empresas beneficiárias e Martins Eventos e Participações.
Olhei para Daniel.
“Existe uma empresa chamada Martins Eventos e Participações?”
Ele franziu a testa.
“Era do meu pai.”
Viviane ficou imóvel.
Daniel continuou:
“Foi encerrada depois que ele morreu.”
“Quando?”
“Seis anos atrás.”
Mostrei a mensagem.
“Então alguém aparentemente ressuscitou a empresa.”
Clara levou a mão à boca.
“Mãe…”
Viviane recuou.
“Isso não prova nada.”
“Não”, respondi. “Mas prova que precisamos descobrir mais.”
Ela pegou o celular.
“Vou embora.”
“Faça como quiser.”
A tranquilidade da minha resposta pareceu surpreendê-la.
“Não vai tentar me impedir?”
“Por quê? Você não está presa.”
Viviane caminhou rapidamente em direção à saída.
Daniel foi atrás.
“Mãe, espere.”
Foi nesse momento que Clara segurou meu braço.
“Maia.”
Olhei para ela. A garota que poucas horas antes derramara vinho sobre mim estava tremendo.
“Eu preciso te mostrar uma coisa.”
Daniel parou.
Viviane também.
“Clara”, disse ela, sem se virar. “Entre na van.”
Clara não se mexeu.
“Não.”
Nunca a ouvira responder assim à mãe.
Viviane virou-se lentamente.
“Não faça uma estupidez.”
Lágrimas apareceram nos olhos de Clara.
“Eu já fiz muitas.”
Ela pegou o celular e abriu uma conversa.
“Há três meses, mamãe pediu para eu tirar fotos de alguns documentos no escritório do Daniel. Disse que eram papéis da herança do papai.”
Viviane avançou.
“Clara!”
Renato colocou-se discretamente entre elas.
Clara deslizou pelas imagens até encontrar uma fotografia.
Reconheci imediatamente o cabeçalho da Andrade Capital.
Meu coração acelerou.
“Como isso foi parar no escritório de Daniel?”
“Eu não sei.”
Ela mostrou outra foto.
Havia uma procuração com minha assinatura.
Falsa novamente.
Mas aquilo não era o pior.
Na parte inferior aparecia o nome do beneficiário autorizado.
Martins Eventos e Participações.
Daniel parecia prestes a desmaiar.
“Eu nunca vi isso.”
Viviane soltou uma risada seca.
“Claro que viu.”
Ele encarou a própria mãe.
“O que você está dizendo?”
Ela finalmente largou a bolsa sobre uma poltrona.
“Estou dizendo que talvez sua esposa não conheça você tão bem quanto pensa.”
Daniel avançou.
“Pare de falar em enigmas.”
Viviane abriu a bolsa e retirou um envelope amassado.
“Quer a verdade?”
“Quero.”
Ela jogou o envelope sobre a mesa.
Dentro havia extratos bancários, cópias de contratos e uma folha manuscrita.
Daniel pegou a folha.
Seu rosto se desfez.
Aproximei-me.
No topo estava escrito meu nome.
Abaixo, uma lista detalhada das minhas empresas, propriedades e participações societárias.
Informações que eu nunca havia contado a ninguém da família Martins.
No final da página havia uma anotação:
STERLING — ASSINATURA PREVISTA PARA SETEMBRO.
Senti o sangue fugir do rosto.
A aquisição da Sterling era confidencial. Apenas quatro pessoas conheciam a data.
“De onde veio isso?”, perguntei.
Viviane olhou para Daniel.
“Pergunte ao seu marido.”
Daniel balançou a cabeça.
“Não é minha letra.”
“Eu sei”, respondeu Viviane.
Então ela olhou diretamente para mim.
“É do seu pai.”
Meu corpo inteiro parou.
“Meu pai morreu há onze anos.”
Viviane sorriu, mas não havia triunfo naquele sorriso.
Apenas algo muito mais inquietante.
“Foi exatamente isso que Daniel também acreditou até três meses atrás.”
Virei-me para meu marido.
Ele não conseguiu sustentar meu olhar.
E naquele instante compreendi que os dois milhões talvez fossem o menor dos segredos que aquela família escondia de mim.







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