Viviane arrancou o telefone da mão de Daniel e ampliou a fotografia até os pixels deformarem o rosto refletido no metal. Seus dedos tremiam.
“Não”, murmurou. “Roberto tinha essa cicatriz, mas isso não significa…”
“Como ele conseguiu?”, perguntei.
Ela demorou a responder.
“Um acidente de carro, quando Daniel tinha cinco anos.”
Daniel continuava imóvel.
“Eu lembro dela.”
O relógio na fotografia marcava dezenove minutos.
Não tínhamos tempo para transformar suspeitas em certezas.
“Vou levar a chave.”
Daniel segurou meu braço.
“Você não vai sozinha.”
“A mensagem exige isso.”
“Exatamente por isso.”
Renato aproximou-se do mapa do setor antigo.
“Existe outra entrada para a casa de máquinas. Foi fechada durante a reforma, mas talvez ainda seja acessível pelo corredor técnico.”
“Então vocês entram por lá.”
Viviane me encarou.
“E você?”
“Vou pela entrada que eles esperam.”
Daniel começou a protestar, mas cortei.
“Se meu pai está realmente lá, não vou apostar a vida dele numa discussão.”
Dez minutos depois, eu caminhava sozinha pelo corredor antigo do Baía de Lótus. O luxo desaparecera havia muito. As paredes eram de concreto, o ar cheirava a ferrugem e maresia, e as lâmpadas de emergência projetavam sombras compridas.
Meu telefone vibrou.
CONTINUE.
Alguém me observava.
Cheguei à antiga casa de máquinas.
A porta estava aberta.
“Pai?”
Nenhuma resposta.
Entrei.
Augusto estava exatamente como na fotografia, sentado diante de uma estrutura metálica embutida na parede.
Ele levantou o rosto.
Por onze anos imaginei o que diria se pudesse vê-lo novamente. Pensei em abraçá-lo, gritar com ele, perguntar por que me abandonara.
Não fiz nada disso.
Fiquei parada.
“Maia.”
Minha garganta fechou.
Era a voz dele.
“Pai?”
Os olhos de Augusto se encheram de lágrimas.
“Me perdoe.”
Um homem saiu das sombras.
Viviane estava certa sobre a cicatriz.
Daniel também.
Mas aquele homem não era Roberto.
Eu o reconheci das fotografias antigas que Renato havia mostrado.
“Henrique Vale.”
Ele sorriu.
“Finalmente.”
Henrique parecia muito vivo para alguém oficialmente morto havia quatro anos.
“Solte meu pai.”
“Abra o cofre.”
“Primeiro ele.”
“Você não está em posição de negociar.”
Olhei para Augusto.
Ele balançou discretamente a cabeça.
Não abra.
Henrique percebeu.
“Onze anos escondido e ainda acredita que pode controlar tudo.”
“Você alterou o contrato da Sterling?”, perguntei.
“Eu apenas precisava criar pressão suficiente para trazer Augusto de volta.”
“E os dois milhões?”
“Uma distração útil.”
“Foi você quem usou Martins Eventos.”
Henrique sorriu.
“Roberto deixou muitas portas abertas quando morreu.”
A palavra morreu pareceu deliberada.
“Então Roberto está morto?”
“Está.”
Uma sombra de dor atravessou o rosto de Augusto.
“Roberto morreu porque confiou na pessoa errada”, disse meu pai.
Henrique olhou para ele.
“Cuidado.”
“Chega de silêncio.”
Augusto virou-se para mim.
“Maia, o esquema nunca foi apenas desvio de dinheiro. Eles compravam empresas em dificuldade, escondiam dívidas, manipulavam avaliações e depois transferiam os ativos. O Baía de Lótus era uma delas.”
“Quem são ‘eles’?”
Henrique deu um passo.
“Abra o cofre.”
Meu celular vibrou dentro do bolso.
Não toquei nele.
Provavelmente Renato.
“Se você sabe onde está o cofre há anos, por que precisa de mim?”
Henrique perdeu parte do sorriso.
Entendi.
“Não é apenas a chave.”
Augusto fechou os olhos.
“O compartimento tem duas autorizações.”
Henrique agarrou o encosto da cadeira dele.
“A chave física e uma validação biométrica de um Andrade.”
Então eu não era apenas a pessoa que carregava a chave.
Eu era a segunda chave.
“E o que há dentro?”
“Documentos”, respondeu Augusto. “Registros originais. Contas. Nomes.”
Henrique acrescentou:
“E algo que pertence a mim.”
Passos ecoaram no corredor.
Henrique puxou Augusto para trás.
“Diga aos seus amigos que parem.”
“Não trouxe ninguém.”
Ele riu.
“Você mente pior do que seu pai.”
Então ouvimos uma voz.
“Solte-o.”
Daniel apareceu na entrada.
“Daniel, saia daqui.”
Henrique olhou para ele e sorriu de maneira estranha.
“Você se parece muito com Roberto.”
Daniel congelou.
“Você conhecia meu pai.”
“Melhor do que você imagina.”
Viviane e dois seguranças surgiram pelo corredor lateral. Renato vinha atrás.
Henrique percebeu que perdera o controle.
“Não entendem”, disse ele. “Se esse cofre for entregue às autoridades, todos vocês perdem.”
“Por quê?”, perguntei.
Ele olhou para Augusto.
“Conte a ela.”
Meu pai ficou em silêncio.
“Conte quem realmente comprou este resort três anos atrás.”
Senti o chão desaparecer sob mim.
“Eu comprei.”
Henrique riu.
“Foi isso que disseram a você.”
Olhei para Augusto.
“Pai?”
Ele respirou profundamente.
“O dinheiro era seu, Maia. A decisão foi sua. Mas a oportunidade não chegou até você por acaso.”
“Você fez isso?”
“Eu precisava colocar o resort nas mãos de alguém em quem pudesse confiar.”
A raiva explodiu dentro de mim.
“Então minha vida inteira foi manipulada?”
“Não. Apenas essa oportunidade.”
Henrique apontou para o cofre.
“Abra.”
Recusei.
Então ouvimos sirenes ao longe.
A polícia finalmente chegara.
Henrique correu para uma porta lateral.
Os seguranças foram atrás dele.
Daniel libertou Augusto.
Eu queria abraçar meu pai, mas ainda havia perguntas demais entre nós.
Renato aproximou-se do cofre.
“Não devemos abrir até a polícia chegar.”
Augusto olhou para mim.
“Ele está certo.”
Peguei a chave.
“Não. Onze anos de mentiras terminam hoje.”
Introduzi-a na fechadura.
Uma pequena tela acendeu.
Coloquei o polegar no leitor.
O mecanismo interno começou a girar.
Quando a porta abriu, encontramos três caixas.
A primeira continha documentos.
A segunda, discos rígidos.
Na terceira havia um envelope com meu nome.
Abri.
Dentro estava uma certidão de óbito.
Roberto Martins.
E uma declaração assinada por ele dois dias antes de morrer.
Daniel aproximou-se.
Comecei a ler.
Roberto confessava ter ajudado Augusto a desaparecer. Confirmava o esquema financeiro. Nomeava Henrique como intermediário.
Mas as últimas linhas eram diferentes.
“Se algo acontecer comigo, investiguem a pessoa que controla a Sterling por meio de empresas intermediárias.”
Renato pegou o documento.
“O presidente da Sterling?”
Augusto balançou a cabeça.
“Ele é apenas a face pública.”
Continuei lendo.
Havia um nome.
Antes que eu pudesse pronunciá-lo, Viviane arrancou a folha das minhas mãos.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
“Isso não pode ser verdade.”
Daniel pegou o papel.
Então ficou imóvel.
“Quem é?”, perguntei.
Ele levantou os olhos para a mãe.
“Seu irmão.”
Viviane recuou.
Meu coração acelerou.
Eu conhecia apenas vagamente o irmão de Viviane. Ela dizia que ele vivia no exterior havia quase vinte anos.
“Eduardo?”, perguntei.
Augusto assentiu.
“Eduardo Martins construiu a rede depois que Henrique começou a trabalhar para ele.”
Viviane começou a negar com a cabeça.
“Meu irmão morreu há sete anos.”
Augusto me encarou.
“Não.”
Outra mentira sobre outro morto.
Então meu telefone vibrou.
Uma mensagem internacional.
Uma fotografia mostrava um homem elegante entrando no saguão do Baía de Lótus naquele exato momento.
Reconheci-o de antigos retratos da família Martins.
Eduardo.
Abaixo da imagem havia apenas uma frase:
VOCÊ ABRIU O COFRE. OBRIGADO.
Levantei os olhos.
Augusto já estava correndo em direção à porta.
“Maia, feche o cofre!”
Tarde demais.
Um dos discos rígidos emitia uma pequena luz vermelha.
Piscando.
Renato olhou para ela e empalideceu.
“Não era Eduardo quem precisava abrir o cofre.”
“Então o que ele precisava?”
Renato encarou o dispositivo.
“Que nós o abríssemos para conectar o sistema interno.”
A luz mudou de vermelho para verde.
Meu telefone começou a receber dezenas de alertas da Andrade Capital.
Tentativas de transferência.
Alterações de acesso.
Bloqueios administrativos.
E, no meio delas, uma única notificação da Sterling:
AQUISIÇÃO APROVADA.
Eu nunca havia assinado nada.







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