Olhei novamente ao redor da sala. Daniel estava diante de mim. Viviane permanecia junto à mesa. Renato segurava o telefone. Os dois seguranças continuavam na porta.
Clara havia desaparecido.
“Quando ela saiu?”, perguntei.
Daniel virou-se imediatamente.
“Clara?”
Viviane levantou-se tão depressa que a cadeira raspou o chão.
“Ela estava aqui.”
“Não está mais.”
Renato falou ao rádio.
“Localizem Clara Martins. Não a abordem. Apenas me informem onde ela está.”
Viviane empalideceu.
“Você acha que minha filha invadiu seu escritório?”
“Eu ainda não acho nada.”
Peguei a fotografia do meu pai e coloquei-a no bolso. Depois entreguei o cartão de memória a Renato.
“Não conecte isso à rede do resort. Use um computador isolado.”
Daniel aproximou-se.
“Vou com você.”
“Não.”
“Maia…”
“Seu cartão acabou de ser usado para entrar no meu escritório.”
“E está aqui.”
“Exatamente.”
Ele ficou em silêncio.
Saí com Renato. O corredor até meu escritório parecia muito mais longo do que alguns minutos antes. Dois funcionários da segurança já estavam diante da porta. A fechadura eletrônica registrava acesso às 18h42.
Daniel Martins.
“Há câmeras?”, perguntei.
“Sim.”
Renato abriu as imagens no tablet.
Às 18h41, uma figura usando uniforme de funcionário apareceu no corredor, boné baixo sobre o rosto. Aproximou um cartão da fechadura e entrou.
Às 18h44, saiu carregando uma pasta preta.
Não era Clara.
“Amplie.”
A imagem perdeu definição, mas havia algo estranho na maneira como aquela pessoa caminhava.
Renato congelou o quadro.
“Reconhece?”
“Não.”
Então Daniel, que ignorara minha ordem e nos seguira, parou atrás de mim.
“Eu reconheço.”
Virei-me.
“Quem?”
Ele apontou para a tela.
“O motorista.”
“Que motorista?”
“O homem que dirigiu nossa van hoje.”
Meu estômago afundou.
Viviane surgiu logo depois.
“Isso não pode ser.”
Daniel olhou para ela.
“Foi você quem contratou a van.”
“Pelo serviço de concierge.”
Renato já verificava o sistema.
“Não.”
Todos olharam para ele.
“A solicitação foi alterada quarenta e oito horas antes da chegada. O motorista original foi substituído.”
“Por quem?”, perguntei.
Renato abriu o registro.
O campo de autorização mostrava novamente minhas credenciais.
O invasor não estava apenas acompanhando nossa investigação.
Ele havia preparado nossa chegada.
Meu celular tocou.
Clara.
Atendi imediatamente.
“Onde você está?”
Ouvi respiração acelerada.
“No estacionamento subterrâneo.”
“Fique onde está.”
“Maia, eu encontrei o motorista.”
Daniel tentou pegar o telefone, mas afastei a mão dele.
“Clara, não se aproxime.”
“Ele não está aqui agora. A van está.”
“Volte para dentro.”
“Tem alguma coisa nela.”
Minha garganta secou.
“O quê?”
“Uma pasta. Igual à que ele levou do seu escritório.”
Renato fez sinal aos seguranças.
“Clara, não toque em nada”, falei.
Silêncio.
“Clara?”
Então ouvi um som metálico do outro lado.
“Alguém está vindo.”
“Saia daí.”
A ligação caiu.
Daniel disparou pelo corredor.
“Daniel!”
Fomos atrás.
Quando chegamos ao estacionamento, Clara estava escondida atrás de uma coluna. Daniel a abraçou com força.
“Você perdeu a cabeça?”
“Eu queria ajudar.”
“Você poderia ter—”
“Chega”, interrompi.
A van estava estacionada a poucos metros.
A porta lateral permanecia aberta.
Os seguranças fizeram uma busca rápida. Ninguém.
Dentro, havia a pasta preta.
Renato colocou luvas e abriu.
Meu escritório guardava contratos importantes, mas nada que justificasse aquela invasão. Pelo menos era o que eu pensava.
Dentro da pasta havia apenas um documento.
O contrato preliminar de aquisição da Sterling.
Mas uma página havia sido marcada.
Cláusula 47.
Li duas vezes.
Caso fossem identificadas obrigações financeiras ocultas anteriores à aquisição, a Sterling poderia assumir controle temporário sobre ativos vinculados à Andrade Capital até conclusão de auditoria.
“Isso não estava na versão que recebi”, falei.
Renato ficou tenso.
“Também não me lembro dessa cláusula.”
Daniel aproximou-se.
“Então alguém queria que você assinasse um contrato diferente.”
“Ou queria que eu descobrisse isso.”
A distinção era importante.
O invasor roubara a pasta e depois a deixara onde poderíamos encontrá-la.
Clara apontou para o fundo.
“Tem outra coisa.”
Sob o revestimento havia um celular barato.
A tela acendeu no instante em que o peguei.
Uma única mensagem apareceu:
VOCÊ ESTÁ PROCURANDO O HOMEM ERRADO.
Depois surgiu um vídeo.
A gravação mostrava meu pai sentado diante de uma câmera. Pela data, fora feita três semanas antes.
Apertei reproduzir.
“Maia, se você estiver vendo isso, significa que não consegui chegar até você antes da assinatura.”
Minha garganta fechou.
A voz estava envelhecida, mas era dele.
“Eu preciso que entenda uma coisa. Eu não desapareci porque queria abandonar você.”
Ele respirou fundo.
“Onze anos atrás, descobri que alguém dentro da nossa própria estrutura estava vendendo informações financeiras. Quando tentei denunciar, percebi que minha morte já estava sendo preparada.”
Viviane levou a mão à boca.
Meu pai continuou:
“Roberto Martins me ajudou a desaparecer. Ele foi a única pessoa em quem confiei.”
Viviane começou a chorar.
Então veio a frase que mudou tudo.
“Roberto não morreu de causas naturais.”
Daniel ficou rígido.
“Não…”
“Ele descobriu quem havia assumido o esquema depois do meu desaparecimento. Antes de morrer, deixou comigo uma prova. Durante anos, mantive-a escondida.”
A imagem falhou.
Quando voltou, meu pai estava olhando diretamente para a câmera.
“A prova está no Baía de Lótus.”
Olhei para Renato.
Ele parecia tão confuso quanto eu.
“Seu resort foi construído sobre uma propriedade que pertencia à antiga sociedade. Existe um cofre que nunca entrou nas plantas modernas. A chave que enviei abre esse cofre.”
Levei a mão ao bolso.
A pequena chave.
“Mas escute com atenção”, continuou meu pai. “Não procure o cofre antes de descobrir quem alterou o contrato da Sterling. Se abrir aquele compartimento diante da pessoa errada, tudo terá sido em vão.”
O vídeo terminou.
Daniel estava chorando silenciosamente.
Viviane parecia ter envelhecido dez anos.
Foi então que Clara falou:
“Maia…”
Ela apontava para o celular.
Uma nova mensagem havia acabado de chegar.
ERA PARA VOCÊ ESTAR SOZINHA.
Logo depois, outra.
OLHE PARA A CÂMERA 14.
Renato abriu o sistema de segurança.
Câmera 14 mostrava a saída de serviço.
O motorista atravessava o portão.
Mas ele não estava sozinho.
Um homem grisalho caminhava ao seu lado.
Meu coração parou.
Era o homem da fotografia.
Meu pai.
“Amplie”, sussurrei.
Renato ampliou.
Augusto parou diante da câmera como se soubesse exatamente onde ela estava.
Então ergueu uma folha de papel.
Havia apenas quatro palavras:
NÃO CONFIE EM RENATO HAN.
Ninguém falou.
Virei lentamente a cabeça.
Renato ainda segurava o tablet.
E pela primeira vez desde que eu chegara ao resort, o homem em quem eu confiara durante três anos deu um passo para trás.







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