Por um segundo, meu cérebro se recusou a aceitar o que meus olhos estavam vendo. Noah estava prensado contra uma das portas do SUV, Caio chorava agarrado ao cinto de segurança, e entre os dois havia apenas o assento vazio de Lucas. O pequeno dinossauro verde permanecia tombado sobre o couro preto.
Abri a porta.
— Onde está o Lucas?
Noah apontou para o outro lado.
— Ele abriu a porta.
— Por quê?
— O vovô chamou ele.
Meu sangue gelou.
— Que vovô?
Noah começou a chorar.
— O homem da televisão.
Álvaro.
Virei-me para Eduardo.
Ele havia ouvido.
— Meu pai está aqui.
— Ou alguém fez Lucas acreditar nisso.
Peguei o dinossauro e o entreguei a Caio.
— Vocês ficam com eles. Não saiam deste carro por nada.
Dessa vez, coloquei dois seguranças em cada lado do SUV.
Então corri.
A energia de emergência iluminava apenas parte dos corredores da mansão. O casamento havia se transformado numa massa confusa de convidados tentando telefonar, funcionários procurando saídas e políticos exigindo explicações. Mas eu só conseguia pensar numa coisa: Lucas.
— LUCAS!
Nenhuma resposta.
Eduardo correu ao meu lado.
— Se alguém tocar nele...
— Não termine essa frase.
Chegamos à escadaria principal.
Uma porta bateu no andar superior.
Subimos.
O corredor estava vazio, exceto por marcas de lama sobre o carpete claro.
Pequenas.
De criança.
Seguimos as pegadas até a antiga biblioteca de Álvaro Montenegro.
A porta estava entreaberta.
Eduardo entrou primeiro.
— Lucas?
Ouvi um soluço.
Corri.
Meu filho estava escondido atrás de uma poltrona.
Sozinho.
Ajoelhei-me e o puxei para meus braços.
— Meu Deus...
Ele me abraçou com tanta força que senti suas unhas através do vestido.
— Mamãe, ele mentiu.
— Quem?
— O homem disse que era meu vovô. Mas não era o homem do telefone.
Eduardo se ajoelhou.
— Você viu o rosto dele?
Lucas assentiu.
— Ele tinha cabelo escuro.
— O que ele queria?
Lucas apontou para uma estante.
— Mandou eu pegar uma coisa.
Atrás de alguns livros havia um pequeno compartimento aberto.
Vazio.
Eduardo ficou de pé.
— O que tinha ali?
Lucas esfregou os olhos.
— Uma caixa preta.
— Você entregou para ele?
— Não.
Meu coração acelerou.
— Onde está?
Lucas apontou para baixo da poltrona.
Enfiei a mão.
Uma pequena caixa metálica estava escondida ali.
Eduardo soltou o ar.
— Por que você escondeu?
Lucas respondeu com simplicidade:
— Porque ele ficou bravo quando eu perguntei o nome dele.
Olhei para meu filho e senti uma mistura brutal de orgulho e culpa.
— Você fez certo.
Então Lucas acrescentou:
— Ele falou que era Rafael.
Eduardo ficou completamente imóvel.
— O quê?
— Rafael.
O nome atravessou a sala.
Eduardo sentou-se lentamente na poltrona.
— Como ele era?
Lucas tentou explicar.
— Parecia você... mas não igual.
Eleonora apareceu na porta.
Ao ouvir aquilo, perdeu a cor.
— Ele está aqui.
Eduardo levantou-se.
— Então você sabia que Rafael estava vivo.
— Eu suspeitava.
— Há quanto tempo?
— Desde o acidente.
— Seis anos?
Ela não respondeu.
Eduardo deu um passo na direção dela.
— Primeiro meu pai. Agora meu irmão. Quantos mortos existem nesta família que simplesmente não morreram?
Eleonora pareceu envelhecer diante de nós.
— Rafael desapareceu na noite do acidente. Seu pai estava no carro. Rafael deveria estar com ele, mas nunca entrou.
— Por quê?
— Porque alguém o avisou.
— Quem?
— Nunca descobri.
Olhei para a caixa.
— Talvez esteja aqui.
Havia um teclado numérico.
Eduardo tentou a data de nascimento do pai.
Erro.
Tentou a de Rafael.
Erro.
Eleonora se aproximou.
— Álvaro nunca usava datas pessoais.
Lucas tocou meu braço.
— Mamãe.
— Sim?
— O homem falou um número quando abriu a parede.
— Que número?
Lucas fechou os olhos, tentando lembrar.
— Três... onze... vinte e sete.
Digitei 31127.
A caixa abriu.
Dentro havia um pen drive, uma chave e um envelope amarelado.
Na frente do envelope estava escrito:
“PARA EDUARDO — SOMENTE SE RAFAEL VOLTAR.”
Eduardo abriu.
Reconheceu imediatamente a letra do pai.
Leu em silêncio.
Depois sentou-se.
— O que diz? — perguntei.
Ele me entregou a carta.
“Eduardo,
se você estiver lendo isto, Rafael voltou ou alguém encontrou o que ele passou anos procurando.
Não confie nas versões que ouviu sobre o acidente.
Seu irmão descobriu o desvio antes de mim.
Mas ele não estava tentando salvar a família.
Ele estava financiando alguma coisa através das empresas Montenegro.
Quando confrontei Rafael, ele ameaçou destruir tudo se eu impedisse.
Naquela mesma semana, descobri algo pior.
Rafael não agia sozinho.”
A carta terminava ali.
— Só isso? — perguntei.
Eduardo virou a folha.
Havia uma frase no verso.
“Procure a conta 1987.”
Henrique entrou na biblioteca naquele instante.
Quando viu a chave, empalideceu.
— Onde encontraram isso?
— Por quê? — perguntei.
Ele apontou.
— Essa chave não pertence à mansão.
— Então pertence a quê?
— A um cofre particular em São Paulo.
Eduardo pegou o pen drive.
— E isto?
Henrique aproximou-se do computador da biblioteca.
— Talvez explique.
Conectamos o dispositivo.
Havia dezenas de pastas.
Contratos.
Transferências.
Fotografias.
Relatórios.
Uma pasta chamou minha atenção.
“1987”.
Abri.
Dentro havia uma planilha contendo movimentações financeiras de mais de vinte anos.
Milhões transferidos para empresas inexistentes.
Mas a última coluna me deixou sem ar.
Beneficiário final.
Em quase todas as operações aparecia o mesmo código:
“A.M.”
Eduardo franziu a testa.
— Álvaro Montenegro?
Eleonora balançou a cabeça.
— Não.
— Quem então?
Ela apontou para uma linha específica.
Uma transferência feita seis meses depois do suposto acidente de Álvaro.
O beneficiário continuava sendo A.M.
— Seu pai não poderia movimentar aquela conta naquele período — disse Eleonora. — Estava hospitalizado, inconsciente e escondido.
Desci até o documento seguinte.
Havia uma cópia de identidade anexada ao cadastro original da conta.
O nome completo apareceu na tela.
Augusto Menezes Almeida.
O pai de Carolina.
O senador.
Eduardo recuou.
Antes que alguém dissesse qualquer coisa, ouvimos palmas lentas atrás de nós.
Viramos.
Carolina estava parada na porta.
Sem buquê.
Sem véu.
E segurava uma pequena pistola na mão, apontada para o chão.
Meu corpo ficou rígido.
Ela percebeu imediatamente.
— Não é para vocês.
Então fechou a porta e girou a chave.
— Meu pai está vindo para cá.
Colocou a arma sobre a mesa, longe de todos, e abriu a bolsa.
De dentro retirou uma fotografia antiga.
Nela estavam Álvaro, Eleonora, o senador Augusto e um jovem que reconheci pelas fotografias da família.
Rafael.
Mas havia uma quinta pessoa.
Uma mulher.
Eduardo pegou a fotografia.
— Quem é ela?
Carolina olhou diretamente para mim.
— Foi exatamente isso que perguntei quando encontrei esta foto no cofre do meu pai.
Ela virou a imagem.
No verso havia uma data de vinte e oito anos antes e quatro palavras escritas à mão:
“Helena sabe sobre Eduardo.”
Meu coração acelerou.
Eduardo ergueu os olhos.
— Helena quem?
Carolina respirou fundo.
— Helena Duarte.
O sobrenome atingiu meu peito como um golpe.
Era o sobrenome da minha mãe.







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