O nome da minha mãe pareceu permanecer suspenso no ar por vários segundos. Helena Duarte havia morrido quando eu tinha dezenove anos. Pelo menos era essa a verdade sobre a qual eu construíra toda a minha vida: uma professora discreta, viúva cedo, uma mulher que evitava falar do passado e que me ensinara desde pequena a nunca depender de ninguém. Eu jamais ouvira Helena pronunciar o sobrenome Montenegro.
— Isso é impossível.
Peguei a fotografia das mãos de Eduardo. Minha mãe parecia ter pouco mais de vinte anos. Reconheci o sorriso discreto, a pequena marca junto à sobrancelha esquerda e até o colar que eu guardava numa caixa em São Paulo.
Era ela.
— Por que minha mãe estava com vocês?
Eleonora desviou o olhar.
Aquilo foi suficiente.
— Você a conhecia.
— Conheci.
— Como?
— Não aqui.
Minha raiva explodiu.
— Meu filho acabou de ser atraído para dentro desta casa por um homem que vocês declararam morto. Existe alguém fotografando meus filhos há semanas, seu marido apareceu vivo depois de seis anos, e agora descubro que minha mãe fazia parte disso. Não me diga “não aqui”.
Lucas apertou minha mão.
Olhei para ele e imediatamente controlei a voz.
— Eduardo, leve Lucas até os irmãos.
— Não vou deixar você sozinha.
— Ele precisa sair daqui.
Eduardo entendeu.
Ajoelhou-se diante de Lucas.
— Posso levar você até Noah e Caio?
Lucas olhou para mim.
Assenti.
Antes de sair, porém, ele puxou Eduardo pela manga.
— Você é mesmo nosso pai?
Eduardo congelou.
— Sou.
— Então por que você não morava com a gente?
A pergunta desmontou tudo que ainda restava da postura dele.
— Porque eu não sabia que vocês existiam.
Lucas pensou por alguns segundos.
— Agora você sabe.
— Agora eu sei.
— Então não esquece de novo.
Eduardo fechou os olhos por um instante.
— Nunca.
Quando os dois saíram, virei-me para Eleonora.
— Fale.
Ela se sentou.
— Conheci Helena em 1998. Ela trabalhava como analista financeira para uma empresa que prestava serviços ao Grupo Montenegro.
Carolina franziu a testa.
— Então a conta 1987...
— Não é um ano — respondi.
Eleonora assentiu.
— É um número interno. Helena descobriu movimentações que não deveriam existir. Empresas fantasmas, doações políticas, compra de terrenos através de intermediários. Foi ela quem percebeu que Augusto estava desviando dinheiro.
Carolina empalideceu.
— Meu pai?
— Seu pai ainda não era senador. Era advogado do grupo.
Olhei novamente para a fotografia.
— E Rafael?
— Rafael descobriu os mesmos documentos anos depois. Augusto o convenceu de que Álvaro estava por trás de tudo.
— Então Rafael acreditava que o próprio pai roubava a empresa?
— No começo.
— E depois?
Eleonora demorou.
— Depois descobriu que havia sido manipulado.
Um estrondo ecoou no corredor.
Todos nos calamos.
Carolina pegou a pistola da mesa.
— Meu pai.
Henrique apagou rapidamente o monitor e retirou o pen drive.
Alguém tentou abrir a porta.
— Carolina? — veio a voz do senador.
Ela não respondeu.
— Sei que você está aí.
Meu telefone vibrou.
Mensagem de Eduardo:
“Lucas está seguro. Estou voltando.”
Respondi:
“NÃO. Fique com eles.”
A maçaneta tornou a se mover.
— Abra a porta — Augusto disse. — Precisamos terminar esta cerimônia antes que a imprensa transforme isso numa catástrofe.
Carolina riu baixinho.
— Ele ainda acha que existe casamento.
— Carolina — falei. — Não faça nada impulsivo.
Ela colocou a arma dentro da bolsa.
— Eu trouxe isso porque encontrei homens do meu pai seguindo vocês. Não porque pretendo atirar nele.
Augusto bateu novamente.
— Carolina.
Eleonora levantou-se.
— Se ele souber que encontramos o arquivo...
— Ele sabe — Henrique respondeu.
— Como?
Henrique apontou para uma pequena luz vermelha no teto.
Uma câmera.
Meu estômago afundou.
Augusto havia acompanhado tudo.
Então ouvimos passos se afastando.
— Ele foi embora — Carolina sussurrou.
— Não — respondi. — Foi buscar alguma coisa.
Abri a porta.
O corredor estava vazio.
Corremos para o estacionamento.
No caminho, meu telefone tocou.
Eduardo.
Atendi.
— Onde você está?
Sua respiração estava acelerada.
— Com os meninos. Mas temos um problema.
— Qual?
— Os portões abriram.
Parei.
— Isso é bom.
— Não. Todos os carros estão saindo, mas apareceu uma ordem policial bloqueando os seus SUVs.
Carolina me encarou.
— Meu pai.
Quando chegamos ao estacionamento, duas viaturas estavam diante dos meus veículos.
Um delegado conversava com Eduardo.
Noah e Caio permaneciam dentro do carro com Lucas.
— Senhora Duarte? — perguntou o delegado.
— Sim.
Ele mostrou um documento.
— Recebemos uma denúncia envolvendo possível ocultação de menores e fraude em exame de paternidade.
Olhei para Eleonora.
Ela pareceu tão surpresa quanto eu.
O delegado continuou:
— Existe uma medida emergencial impedindo que as crianças deixem esta propriedade até avaliação judicial.
— Quem pediu?
— O suposto avô materno.
Meu coração parou.
— Meus pais estão mortos.
O delegado consultou o documento.
— O requerente afirma exatamente o contrário.
Peguei a folha.
Nome do requerente:
Miguel Duarte.
Meu pai.
O homem que eu acreditava ter morrido quando eu tinha oito anos.
Havia um número de identidade, assinatura digital e uma fotografia recente.
Era ele.
Mais velho.
Mas era meu pai.
— Isso não pode ser verdade.
Eleonora arrancou o documento das minhas mãos.
Quando viu a fotografia, cambaleou.
— Você conhece esse homem? — perguntei.
Ela não respondeu.
— Eleonora!
Seus olhos encontraram os meus.
E naquele momento compreendi que o segredo envolvendo minha mãe talvez fosse apenas a superfície.
— Miguel Duarte não era o verdadeiro nome dele — disse ela.
— Então quem era meu pai?
Eleonora olhou para Eduardo, que acabava de se aproximar.
— O nome dele antes de desaparecer era Miguel Montenegro.
Eduardo ficou imóvel.
— Montenegro?
Minha garganta secou.
Eleonora continuou:
— Miguel era o irmão mais novo de Álvaro.
Ninguém respirou.
Olhei para Eduardo.
Depois para meus três filhos dentro do SUV.
A realidade daquela revelação começou a assumir uma forma horrível.
— Você está dizendo que Eduardo e eu...
— Não — Eleonora interrompeu imediatamente. — É justamente aí que Helena entra nessa história.
O celular dela tocou.
Número desconhecido.
Eleonora atendeu no viva-voz.
Uma voz masculina falou:
— Finalmente resolveu contar sobre Helena?
Reconheci imediatamente o homem da fotografia do documento.
Meu pai.
— Miguel — Eleonora sussurrou.
Ele riu.
— Leve minha filha e os meninos até o antigo hotel Montenegro. Sem polícia. Sem Augusto.
— Por quê? — perguntei.
Houve uma pausa.
Então meu pai respondeu:
— Porque se Eleonora terminar aquela história antes de eu mostrar os documentos, você vai acreditar que Eduardo é seu primo.
Meu corpo inteiro ficou gelado.
— E ele não é?
— Não.
A voz de Miguel tornou-se baixa.
— Porque você não é minha filha biológica.
A ligação terminou.







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