Durante alguns segundos, continuei segurando o telefone de Eleonora mesmo depois de a ligação terminar. Ao meu redor havia policiais, convidados deixando a propriedade, funcionários correndo, meus três filhos presos dentro de um SUV e Eduardo me observando como se esperasse que eu desmoronasse. Mas tudo o que eu conseguia ouvir era a última frase de Miguel.
Você não é minha filha biológica.
— Mamãe?
Lucas bateu no vidro.
Aquilo me trouxe de volta.
Abri a porta e me abaixei diante dos três.
— Vamos sair daqui.
O delegado se aproximou.
— Senhora Duarte, eu já expliquei que existe uma medida judicial.
— Mostre o número do processo.
Ele hesitou.
— Está no documento.
— Não. O número verificável no sistema do tribunal.
Henrique já estava ao meu lado, digitando no celular.
Poucos segundos depois, levantou os olhos.
— Não existe.
O delegado ficou rígido.
— Como?
— Essa ordem é falsa.
Carolina pegou o documento e apontou para o rodapé.
— E este brasão está desatualizado há dois anos.
O policial que acompanhava o delegado deu um passo para trás.
Foi quando compreendi.
— Vocês não são policiais.
O homem levou a mão à cintura.
Meus seguranças reagiram imediatamente, colocando-se entre ele e as crianças.
— Não faça isso — Eduardo disse.
O falso delegado olhou para o portão.
Dois SUVs escuros aguardavam do lado de fora.
Então ele simplesmente recuou.
— Não somos pagos para morrer por segredos de família.
Entrou na viatura e partiu com o outro homem.
Ninguém tentou impedir.
Eu só queria meus filhos longe dali.
Vinte minutos depois, deixávamos a propriedade Montenegro em direção ao antigo hotel mencionado por Miguel. Eduardo insistiu em ir. Eleonora também. Carolina veio num terceiro carro, apesar das ordens do pai para retornar a Brasília.
O Hotel Montenegro ficava numa estrada secundária, cercado por pinheiros. Fechado havia quase quinze anos, parecia um esqueleto esquecido da época em que a família dominava o turismo de luxo da região.
Miguel nos esperava no saguão.
Reconheci-o imediatamente.
Meu pai.
Ou o homem que eu chamara de pai.
Ele parecia menor do que nas minhas lembranças.
— Sofia.
Não me movi.
— Não me chame assim como se tivesse desaparecido ontem.
Ele abaixou os olhos.
— Eu sei.
— Não sabe. Eu enterrei você.
— Enterrou um caixão.
Olhei para Eleonora.
— Parece tradição nesta família.
Miguel quase sorriu, mas desistiu.
Então viu os trigêmeos.
Sua expressão se desfez.
— Eles são lindos.
Coloquei-me na frente deles.
— Você não chega perto.
— Sofia...
— Documentos. Você disse que tinha documentos.
Ele assentiu e nos conduziu até uma antiga sala administrativa.
Sobre uma mesa havia três pastas.
Miguel abriu a primeira.
Dentro estavam fotografias da minha mãe.
Helena grávida.
Helena com Álvaro.
Helena entrando num hospital.
Eduardo aproximou-se.
— Meu pai conhecia Helena?
Miguel respondeu:
— Muito mais do que Eleonora gostaria de admitir.
Eleonora ficou rígida.
— Não distorça as coisas.
— Então conte você.
Ela permaneceu em silêncio.
Miguel colocou uma certidão sobre a mesa.
Meu nascimento.
Nome da mãe: Helena Duarte.
O espaço reservado ao pai estava em branco.
— Você me registrou anos depois — falei.
— Sim.
— Por quê?
— Porque Helena me pediu.
Minha voz falhou.
— Quem era meu pai?
Miguel olhou para Eleonora.
Ela fechou os olhos.
— Álvaro.
Eduardo recuou violentamente.
— Não.
Meu coração pareceu parar.
Se Álvaro fosse meu pai, Eduardo seria meu meio-irmão.
E meus filhos...
— Isso é mentira — Miguel disse.
Olhei para ele.
— O quê?
— Foi exatamente nisso que Augusto queria que todos acreditassem.
Ele abriu a segunda pasta.
Exames laboratoriais.
— Álvaro desconfiou da mesma coisa. Helena e ele tiveram um relacionamento antes do casamento dele com Eleonora, mas quando Helena engravidou, as datas não coincidiam. Álvaro fez um teste anos depois.
Miguel colocou o resultado diante de mim.
Probabilidade de paternidade: excluída.
Senti minhas pernas fraquejarem.
Eduardo apoiou a mão na mesa.
— Então quem?
Miguel abriu a terceira pasta.
Vazia.
Ele congelou.
— Não.
— O quê?
Começou a procurar desesperadamente.
— Estava aqui.
— O que estava?
— O exame verdadeiro.
Eleonora ficou pálida.
— Miguel, quem era?
Antes que respondesse, ouvimos vidro quebrando no andar superior.
Meus seguranças avançaram.
— Fiquem aqui.
Miguel correu até uma porta lateral.
— Não! Existe uma saída pelos fundos.
— Por que fugir? — Eduardo perguntou.
— Porque quem roubou aquela pasta sabia exatamente o que procurar.
As luzes do hotel piscaram.
Depois se apagaram.
Desta vez, agarrei os três meninos antes que alguém pudesse sequer respirar.
— Ninguém se separa.
Uma voz surgiu da escuridão.
— Boa decisão.
Eduardo virou-se.
— Rafael?
Uma lanterna acendeu.
Um homem estava parado na entrada.
Cabelos escuros, barba curta, rosto semelhante ao de Eduardo, porém mais duro.
Lucas imediatamente se escondeu atrás de mim.
— É ele.
Rafael olhou para Lucas.
— Garoto esperto. Escondeu a caixa de mim.
Eduardo avançou.
— Você levou o exame?
Rafael levantou uma pasta.
— Isto?
Miguel empalideceu.
— Entregue.
— Depois de vinte e oito anos mentindo para ela? Acho que Sofia merece ler.
Ele retirou uma folha.
— Não faça isso — Miguel disse.
Rafael ignorou.
— Helena fez dois exames de paternidade.
Meu coração disparou.
— Dois?
— Porque o primeiro homem testado não era Álvaro.
Ele colocou o documento sobre a mesa.
Apontei a lanterna.
Li o nome.
Augusto Menezes Almeida.
Resultado: excluído.
Carolina levou a mão à boca.
— Meu pai?
Rafael retirou outra folha.
— Então Helena testou um segundo homem.
Eleonora começou a chorar silenciosamente.
Eu nunca a tinha visto chorar.
— Quem? — perguntei.
Rafael sorriu sem qualquer alegria.
— O homem cuja identidade explicaria por que Augusto passou quase trinta anos tentando apagar você desta família.
Ele virou a folha.
Mas antes que eu pudesse ler, Miguel arrancou o documento da mão dele.
Os dois se enfrentaram.
A folha caiu no chão.
Eduardo foi mais rápido.
Pegou-a.
Leu.
E seu rosto perdeu completamente a cor.
— Sofia...
— Diga.
Ele levantou os olhos para mim.
— Seu pai biológico era Henrique Vasconcelos.
Virei-me.
Henrique não estava mais conosco.
Rafael soltou uma risada amarga.
— Agora você entende.
— Entendo o quê?
Ele apontou para a porta aberta.
— Por que Henrique desapareceu da propriedade no momento em que vocês encontraram o pen drive.
Miguel acrescentou:
— E por que ele falsificou a assinatura de Eduardo quatro anos atrás.
Meu telefone vibrou.
Uma mensagem de Henrique.
Havia uma fotografia tirada naquele exato momento.
Nós dentro do hotel.
Abaixo dela:
“Não acredite em Rafael. Pergunte a Miguel quem realmente mandou Helena morrer.”
Levantei lentamente os olhos.
Miguel estava olhando para minha tela.
E pela primeira vez desde que reencontrei meu pai, vi medo verdadeiro no rosto dele.







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