Por alguns segundos, ninguém falou.
Eu continuei olhando para aquela frase como se as palavras pudessem mudar de lugar se eu esperasse tempo suficiente. A assinatura parecia de Augusto. A inclinação do “A”, o traço firme no sobrenome, até a pequena pressão da caneta no final eram detalhes que eu conhecia depois de trinta e seis anos vendo meu marido assinar contratos, cartões de aniversário e bilhetes deixados sobre a mesa da cozinha.
Mas havia alguma coisa errada.
—Me dá isso.
Sônia puxou a folha para trás.
—Agora você acredita?
—Eu disse para me dar.
Mariana aproximou-se antes que a discussão aumentasse.
—Sônia, se esse documento envolve meu pai, eu quero ver.
Talvez por perceber que quase duzentas pessoas ainda observavam, Sônia finalmente entregou a folha. Mariana leu devagar. Vi os dedos dela tremerem.
Bruno tentou se aproximar.
—Mari, eu posso explicar.
—Não me chama assim.
Ele parou.
Minha filha virou a folha e percebeu algo que eu ainda não havia notado: no verso havia uma sequência escrita à mão.
17-04 / C-9 / A.A.
—O que significa isso? — perguntou.
Sônia franziu a testa.
—Nunca vi.
—Você guardou essa carta durante quatro anos e nunca olhou atrás?
—Não havia motivo.
Eu quase respondi, mas meu celular vibrou dentro da bolsa.
Era Henrique Valença, advogado que trabalhava comigo havia quase vinte anos e uma das três únicas pessoas que sabiam da investigação.
Atendi.
—Henrique?
—Margarida, saia do salão e fique onde houver segurança.
Meu corpo endureceu.
—Por quê?
—Alguém tentou acessar o arquivo físico da Almeida Participações há doze minutos.
Olhei imediatamente para Bruno.
Ele ainda estava diante de mim.
Sônia também.
—Quem?
—Não sabemos. O sistema registrou uma credencial antiga.
—De quem?
Houve uma pausa.
—Augusto.
Senti o chão desaparecer por um instante.
—Isso é impossível.
—Eu sei.
Desliguei sem explicar. Mariana percebeu meu rosto.
—O que aconteceu?
Antes que eu respondesse, Bruno falou:
—Aquela empresa nunca ficou realmente inativa.
Olhei para ele.
—Como você sabe?
Ele respirou fundo.
—Porque recebi acesso.
Sônia virou-se bruscamente.
—Bruno.
—Não adianta mais, mãe.
A voz dele estava diferente. A arrogância havia sumido.
—Depois da morte de Augusto, recebi uma chave e instruções para acessar uma conta de custódia. Eu não sabia quanto havia nela.
—Quem entregou a chave? — perguntei.
—Um homem chamado César.
O nome não significou nada para Mariana.
Para mim, significou.
César Monteiro havia sido contador de Augusto durante quinze anos. Três semanas depois da morte de meu marido, desaparecera sem se despedir. Seu escritório fora fechado e todas as tentativas de encontrá-lo haviam terminado em silêncio.
—César está vivo? — perguntei.
Bruno baixou os olhos.
—Estava há seis meses.
Meu coração acelerou.
—Você se encontrou com ele?
—Duas vezes.
Mariana levou alguns segundos para compreender.
—Durante nosso casamento?
Bruno assentiu.
A bofetada não veio. Nem um grito.
Minha filha apenas deu um passo para trás.
—Você mentiu para mim todos os dias.
—Eu estava tentando entender o que seu pai deixou.
—Com a sua mãe?
Bruno olhou para Sônia.
Foi resposta suficiente.
Sônia se aproximou.
—Mariana, existem assuntos financeiros que você nunca quis entender.
Minha filha ergueu o rosto.
—Não confunda não saber com não ter direito de saber.
Sônia ficou calada.
Eu peguei novamente a carta e observei a data no topo.
Foi então que encontrei o detalhe.
Augusto havia escrito 12 de maio.
Meu marido morreu em 15 de maio.
Mas no dia 12 ele estava internado.
Eu estivera ao lado dele desde a manhã.
—Essa carta não foi entregue pessoalmente a você.
Sônia perdeu a expressão por uma fração de segundo.
—Foi.
—Não foi.
Mostrei a data.
—Augusto estava no hospital.
—Ele saiu por algumas horas.
—Não saiu. Eu estava lá.
Bruno olhou para a mãe.
—Você disse que ele foi à sua casa.
Sônia apertou a bolsa.
—Foi isso que aconteceu.
—Então as câmeras do hospital vão confirmar — respondi.
Ela não disse nada.
Ali estava a primeira rachadura real.
Mas antes que eu pudesse pressioná-la, Mariana segurou meu braço com força.
—Mãe.
Seu rosto havia mudado.
—Helena.
—O quê?
—Minha barriga está endurecendo.
O pânico apagou todo o resto.
Conseguimos levá-la para uma sala reservada enquanto uma médica entre os convidados a examinava. Não parecia trabalho de parto, mas a pressão e o estresse estavam provocando contrações. Mariana precisava ir ao hospital.
Bruno tentou acompanhá-la.
—Não — disse ela.
—Eu sou o pai.
—E eu ainda sou a pessoa que decide quem fica perto de mim.
Ele ficou parado no corredor.
Foi a primeira vez que vi minha filha colocar uma fronteira entre os dois.
Quando os paramédicos chegaram, Mariana foi colocada numa cadeira de rodas. Eu caminhei ao lado dela.
Antes de entrarmos no elevador, Sônia apareceu.
—Margarida.
Virei-me.
Ela não parecia mais a mulher que humilhara minha filha diante dos convidados.
Parecia assustada.
—Se você continuar investigando Augusto, vai descobrir coisas que preferiria não saber.
—Isso é uma ameaça?
—É um aviso.
As portas começaram a fechar.
—Então por que está com medo?
Sônia não respondeu.
No hospital, quase uma hora depois, os médicos confirmaram que Helena estava bem. Mariana precisaria permanecer em observação.
Quando finalmente adormeceu, saí para o corredor e encontrei Henrique esperando por mim.
Ele segurava um pequeno saco plástico de evidências.
Dentro havia uma chave metálica antiga.
—Encontraram isso no arquivo da Almeida Participações.
—De quem é?
—Ainda não sabemos.
Ele me entregou também uma fotografia retirada de uma câmera de segurança.
A imagem era granulada, registrada naquela mesma noite.
Mostrava um homem entrando no prédio onde os documentos estavam guardados.
Meu peito apertou.
Cabelos grisalhos. Corpo mais magro. Rosto parcialmente escondido.
Mas eu conhecia aquele relógio no pulso.
Eu mesma o dera de presente no nosso trigésimo aniversário.
No verso da fotografia havia uma anotação feita pelo segurança:
“Visitante identificou-se como Augusto Almeida.”
Olhei novamente para o homem.
Quatro anos antes, eu havia segurado a mão do meu marido enquanto o médico me dizia que Augusto estava morto.







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