—Que documento?
César já estava recolocando os papéis dentro da caixa C-9 quando respondeu:
—Um termo de beneficiária.
—Beneficiária de quê?
—Augusto nunca me contou o valor total. Só disse que aquilo precisava ficar fora das empresas, fora do inventário e, principalmente, fora do alcance de qualquer procuração.
Meu coração acelerou.
—Então como Teresa sabe?
César parou.
—Essa é a pergunta que você deveria fazer.
Liguei imediatamente para Mariana.
Ela atendeu no primeiro toque.
—Mãe, a tia ainda está aqui fora.
—Não abra a porta.
—Ela está dizendo que você corre perigo.
—Mariana, escuta. Henrique está indo até você. Não deixe ninguém entrar até ele chegar.
Ouvi Teresa bater novamente.
—Mariana! Eu sei que Margarida está com César. Ele está mentindo para ela!
César ouviu pelo viva-voz.
Seu rosto endureceu.
—Pergunte como ela sabe onde você está.
Fiz isso.
Silêncio do outro lado da porta.
Então Teresa respondeu:
—Porque César tentou destruir nossa família quatro anos atrás.
A voz dele mudou.
—Ela sabe mais do que deveria.
Saímos imediatamente.
Durante o caminho, comecei a juntar lembranças que durante anos me pareceram insignificantes. Teresa estivera comigo durante a doença de Augusto. Buscava documentos, falava com bancos, organizava pagamentos quando eu mal conseguia dormir.
Eu confiara nela porque era minha irmã.
Talvez justamente por isso Augusto não tivesse me contado.
Quando chegamos ao hospital, Henrique já estava no corredor.
Teresa permanecia diante do quarto de Mariana.
Ao me ver, ficou imóvel.
—Você trouxe ele?
Olhou para César como se estivesse vendo um fantasma.
—Você sabia que ele estava vivo — falei.
—Margarida, não faça isso aqui.
—Você sabia?
Ela fechou os olhos.
—Sim.
A resposta doeu mais do que eu esperava.
—Há quanto tempo?
—Quatro anos.
Senti a raiva subir.
—Você me viu procurar por ele. Você me viu perguntar se alguém sabia onde estava.
—Augusto me fez prometer.
César deu um passo à frente.
—Não use Augusto para justificar tudo.
Teresa encarou-o.
—Você não tem direito de falar sobre ele.
—Então diga a verdade.
Mariana abriu a porta nesse momento.
—Eu também gostaria de ouvir.
Bruno estava atrás dela.
Minha filha parecia exausta, mas firme.
Teresa abaixou a voz.
—Mariana, você deveria descansar.
—Passei anos ouvindo que deveria ficar quieta porque alguém sabia o que era melhor para mim. Acabou.
Minha irmã pareceu envelhecer diante de nós.
Henrique conseguiu uma pequena sala reservada. Sentamo-nos ao redor de uma mesa.
Coloquei a fotografia diante de Teresa.
Ela e Sônia entrando no banco em 18 de abril.
—Explique.
Teresa olhou demoradamente para a imagem.
—Sônia me procurou.
—Por quê?
—Porque Augusto havia bloqueado uma transferência.
Bruno franziu a testa.
—Minha mãe disse que nunca falou com Augusto sobre dinheiro.
Teresa soltou uma risada amarga.
—Sua mãe mentiu.
—E você fez o quê? — perguntei.
—Fui descobrir o que ela queria.
—Sem me contar.
—Augusto pediu.
Tudo voltava a ele.
—Por que Augusto confiaria em você e não em mim?
Teresa finalmente me olhou.
—Porque você era o alvo.
O silêncio tomou a sala.
—Que alvo?
—As autorizações falsificadas estavam sendo criadas para parecer que vinham de Augusto. Mas o dinheiro terminava em estruturas que, juridicamente, poderiam ser associadas a você.
Minha garganta secou.
—Queriam me responsabilizar.
—Sim.
César permaneceu calado.
—E quem queria isso?
Teresa olhou para ele.
—Pergunte ao homem que desapareceu com as provas.
César bateu a mão sobre a mesa.
—Eu desapareci porque Augusto mandou!
—E levou justamente a caixa que poderia inocentar Margarida.
—Para impedir que fosse destruída.
Os dois se encararam.
Percebi então que ambos possuíam pedaços diferentes da mesma história.
—Chega. O termo de beneficiária. Onde está?
Teresa ficou pálida.
—Como você sabe disso?
César respondeu:
—Augusto me contou.
—Ele não deveria ter contado a ninguém.
—O que é esse documento? — Mariana perguntou.
Teresa respirou fundo.
—Uma estrutura patrimonial criada quando você tinha dezenove anos. Augusto colocou determinados ativos sob proteção. Você seria a única beneficiária quando completasse trinta e dois.
Mariana tinha trinta e dois.
—Quanto?
Teresa hesitou.
—Na última avaliação que vi... mais de quarenta milhões.
Bruno se levantou.
—Quarenta milhões?
Mariana olhou imediatamente para ele.
A reação dele foi devastadora.
—Você sabia?
—Não desse valor.
—Mas sabia que existia alguma coisa.
Bruno não respondeu.
Minha filha fechou os olhos.
Outra mentira.
—Onde está o documento original? — perguntei.
Teresa abriu a bolsa.
—Era isso que eu vim entregar.
Retirou um envelope lacrado.
Henrique o examinou antes de permitir que Mariana abrisse.
Dentro havia o termo.
E uma carta.
Mariana começou a ler em silêncio. Depois parou.
—Mãe...
—O quê?
Ela me entregou a folha.
A letra era de Augusto.
“Mariana, se este documento chegou às suas mãos, significa que alguém tentou acessar o patrimônio antes do momento correto. Não assine nenhuma transferência. Não entregue procuração a ninguém. E, acima de tudo, não confie na pessoa que aparecer dizendo que fui eu quem escolheu Bruno para administrar esses bens.”
Bruno ficou branco.
Sônia possuía exatamente uma carta dizendo isso.
Continuei lendo.
“Existe uma cópia falsa preparada para justificar a transferência do controle.”
Minha respiração parou.
A carta de Sônia era falsa.
Mas havia uma última linha.
“Teresa conhece a identidade de quem encomendou a falsificação.”
Todos olharam para minha irmã.
Ela fechou os olhos.
—Eu queria esperar até Helena nascer.
—Por quê? — perguntei.
Quando Teresa tornou a olhar para mim, havia lágrimas em seus olhos.
—Porque a pessoa que encomendou aquela carta ainda não sabe que eu descobri.
—Quem?
Ela abriu a boca.
O telefone de Bruno tocou.
Ele olhou para a tela e congelou.
—É minha mãe.
—Atende — falei.
Bruno colocou no viva-voz.
A voz de Sônia veio baixa, sem qualquer arrogância.
—Bruno, não volte para casa.
—Mãe, onde você está?
—Não importa.
—Teresa está aqui.
Silêncio.
Então ouvimos Sônia respirar fundo.
—Ela contou?
Bruno olhou para Teresa.
—Contou o quê?
Sônia começou a responder, mas outra voz masculina surgiu ao fundo.
—Desliga o telefone, Sônia.
César levantou-se tão depressa que a cadeira caiu.
Eu olhei para ele.
Seu rosto havia perdido toda a cor.
—Você conhece essa voz?
Ele não respondeu imediatamente.
Sônia desligou.
—César?
Ele encarou o celular na mão de Bruno.
—Conheço.
—Quem era?
César engoliu em seco.
—O homem que assinou o atestado financeiro usado para encerrar todas as empresas de Augusto depois da morte dele.
Henrique franziu a testa.
—Nome?
César olhou diretamente para mim.
—Eduardo Valença.
O silêncio foi absoluto.
Então virei lentamente para Henrique.
Valença.
O mesmo sobrenome.
Henrique não desviou os olhos.
—Eduardo é meu pai.







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