Li a mensagem três vezes.
O endereço continuava o mesmo.
A casa de campo ficava a pouco mais de uma hora da cidade, numa propriedade que Augusto comprara muitos anos antes, quando Mariana ainda era adolescente. Depois da morte dele, eu nunca mais voltara. Não por falta de oportunidade, mas porque cada cômodo guardava uma versão da minha vida que eu não conseguia visitar sem sentir que alguma coisa me faltava.
—Você não vai — disse Henrique.
Mariana ergueu os olhos da cama.
—O que aconteceu?
Guardei o telefone por reflexo.
Ela percebeu.
—Mãe, chega de me proteger escondendo coisas.
Mostrei a mensagem.
Bruno levantou-se assim que viu o nome de César.
—Isso pode ser uma armadilha.
—Você parece conhecê-lo bem o suficiente para saber.
—Conheço o suficiente para ter medo.
Olhei para ele.
—Por quê?
Bruno hesitou.
—Porque César nunca me procurou para me ajudar. Ele queria saber quanto eu já tinha descoberto.
Aquilo mudou tudo.
Henrique fotografou a mensagem e enviou o endereço para sua equipe. Concordamos que eu iria, mas não realmente sozinha. Ele permaneceria a distância, com duas pessoas próximas à propriedade.
Mariana segurou meu pulso antes que eu saísse.
—Volta.
Beijei sua testa.
—Vou voltar.
Cheguei à casa pouco depois da uma da manhã.
Uma luz estava acesa na cozinha.
Empurrei a porta.
O cheiro de madeira antiga e umidade me atingiu imediatamente. Sobre a mesa havia a caixa C-9.
César estava sentado diante dela.
Quatro anos haviam mudado seu rosto. Estava mais magro, os cabelos quase totalmente grisalhos.
—Margarida.
—Você usou a credencial de um homem morto.
—Era a única forma de chamar sua atenção.
—Você poderia ter telefonado.
Ele soltou uma risada amarga.
—Se eu tivesse telefonado quatro anos atrás, talvez nós dois estivéssemos mortos.
Não respondi.
—Abra a caixa.
Dentro havia livros contábeis, cópias de contratos e um gravador antigo.
—Augusto descobriu transferências meses antes de morrer — disse César. — Primeiro pensou que Sônia estivesse roubando.
—E estava.
—Sim. Mas ela não criou o sistema.
Meu estômago apertou.
—Bruno?
—Também não.
César retirou um documento.
—A fraude começou sete anos antes de Bruno se casar com Mariana.
Observei a data.
Era verdade.
—Então por que os Ribeiro estavam envolvidos?
—Porque descobriram uma porta aberta e decidiram entrar.
Ele empurrou outro documento na minha direção.
Uma autorização de transferência.
Assinatura: Augusto Almeida.
—Falsificada?
—Sim.
—Por quem?
César ficou em silêncio.
—Foi por isso que me trouxe aqui.
—Eu trouxe você porque precisa entender primeiro o que aconteceu em 17 de abril.
Ele ligou o gravador.
A voz de Augusto preencheu a cozinha.
“César, alguém está usando minhas autorizações. Quero cópia de tudo antes que descubram que percebi.”
Depois outra voz perguntou:
“Você contou para Margarida?”
Augusto respondeu:
“Não. Ainda não.”
Minha garganta fechou.
César desligou.
—Dois dias depois, Augusto me entregou a caixa.
—E você desapareceu.
—Ele mandou.
—Por quatro anos?
—Até que alguém tentasse movimentar a conta principal.
—Quem tentou?
César me encarou.
—Bruno.
A raiva subiu imediatamente.
Mas César ergueu a mão.
—Ele acionou o mecanismo sem saber. Quando Bruno tentou retirar dinheiro, o sistema que Augusto preparou começou a registrar todas as conexões. Foi assim que você encontrou os Ribeiro.
De repente compreendi por que tantas provas surgiram quase ao mesmo tempo.
Augusto havia preparado aquilo.
—Então meu marido sabia que morreria?
César baixou os olhos.
—Ele sabia que estava em perigo.
Meu coração falhou uma batida.
—Augusto morreu no hospital.
—Eu sei o que diz o registro.
—O que está insinuando?
—Nada que eu possa provar.
A resposta me assustou mais do que uma acusação direta.
Peguei o documento novamente. No canto inferior havia iniciais.
T.A.
—Quem é T.A.?
César não respondeu.
Eu conhecia poucas pessoas com aquelas iniciais.
Então uma possibilidade atravessou minha mente e imediatamente rejeitei.
—Não.
César permaneceu imóvel.
—Não diga isso.
—Eu ainda não disse nada.
—Teresa?
Minha irmã.
A mulher que naquele exato momento estava no hospital com Mariana.
César respirou fundo.
—Teresa Almeida tinha autorização administrativa sobre três empresas enquanto Augusto estava internado.
—Porque eu dei a ela.
As palavras escaparam antes que eu compreendesse o peso delas.
Eu mesma havia aberto aquela porta.
—Ela estava me ajudando.
—Talvez.
—Teresa nunca faria isso.
—Augusto também acreditava nisso.
César retirou uma fotografia da caixa.
Mostrava Teresa entrando em um banco.
Ao lado dela estava Sônia Ribeiro.
A data impressa era 18 de abril.
Um dia depois de Augusto dizer que descobrira quem estava alterando suas autorizações.
Meu celular tocou.
Mariana.
Atendi imediatamente.
—Mãe?
A voz dela estava trêmula.
—O que aconteceu?
—A tia Teresa sumiu.
Meu sangue gelou.
—Como assim?
—Ela disse que ia buscar café e não voltou. O telefone está desligado.
Olhei para César.
—Mariana, tranque a porta do quarto.
—Por quê?
Antes que eu respondesse, ouvi Bruno falando ao fundo.
Depois um barulho.
Mariana ficou em silêncio.
—Filha?
—Mãe...
—O quê?
Sua respiração acelerou.
—Tem alguém batendo na porta.
Levantei-me.
—Não abre.
Mas então ouvi uma voz do outro lado através do telefone.
Uma voz feminina que eu conhecia desde criança.
Teresa.
—Mariana, abre. Precisamos conversar antes que sua mãe volte.
César ficou pálido quando contei.
Ele fechou rapidamente a caixa.
—Ligue para Henrique.
—Por quê?
César olhou para a fotografia de Teresa e Sônia.
—Porque se Teresa voltou para o quarto depois de saber que você está comigo, ela não foi conversar com Mariana.
—Então foi fazer o quê?
Ele demorou um segundo para responder.
—Buscar o único documento que Augusto deixou no nome da sua filha e que nunca entrou nos registros da empresa.







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